Balanço
bacaninha
Comigo camuflado como cidadão
consciente, a ostentar um frasco de álcool gel na pochete docemente aberta à
aprovação simpática de outros cidadãos condicionados à consciência comunitária,
mesmo em fila indiana; comigo em pé nesta fila infalível do fatídico quinto dia
útil que, entra ano e sai ano, mês a mês, dispõe de mim como vassalo do humor variante;
comigo a circunstanciar decorativa a máscara, uma vez que os perdigotos seguem
inativos atrás da boca retraída; comigo contrariado, que permaneço sequer a um
palmo distanciado de minha persona ranzinza, que se reserva o desejo de não me ver
vencido por essas contas que insistem em ignorar que até as folhinhas caducam.
Eis que me retrato um ser capaz de
retratações precárias, frouxas no rigor, com oscilações orgânicas proporcionais
a tamanho e tempo, pois, humano, salivo azedo quando me percebo obrigado a
assumir o erro de viver me submetendo às conjunturas, que poderia ter evitado
entrar se preservasse pulsante a ideia sensível, que, nas trivialidades do mundo,
a realidade em quase nada é lotérica.
Por que me seguirá aborrecível o quinto
dia útil de cada mês?
Implicante, não apenas constrangido a
observar descumpridas as regras interinas para uma convivência sanitariamente saudável,
mas, ainda, porque as datas de vencimento desses meus boletos sabem respeitar os
contratos que atrevidamente assinei.
Como a vida vai arrastando quem está no
rio da história sem dar conta de que nada a favor da correnteza quando, despercebido
de si, não abraça nada com vontade. Quem se deixa afogar vai negando o que nem sabe
o que está fazendo, sua trajetória de vida, portanto, vai ficando registrada
como fruto do desleixo.
Será sagaz salientar a sacanagem de sacar
cansaço do remanso?
Contaminado pelo remorso, improviso sem
sarcasmo.
Fera ferida pela facilidade de frustrar
felicidades ficando numa fila, curo a minha incúria tentando memorizar o
balanço do que deixei de lado por causa da pandemia.
Como prefiro fácil cair no riso, como satisfeito
um feijão com arroz temperado com alegrias, as bem vividas e as gostosamente adiadas.
Alegrias adiadas que fazem falta: papear
tomando café; atualizar o telefone de gente perdida com a tecnologia.
Alegrias adiadas que acho melhor nem voltar
a fazer: comer pastel na feira; sacar dinheiro sem necessidade; esperar ônibus
em pontos sem banco nem cobertura.
Alegrias adiadas que viraram melancolia:
folhear livros nos sebos; ouvir conversas por aí; aplaudir artistas de rua.
Alegrias adiadas que nem reparei não ter
vivido e agora sinto que não fazem falta alguma: comer carpaccio; trocar
a noite pelo dia; ir ao dentista.
Alegrias que quero muito deixar logo de
viver: ficar trancafiado em casa; acordar cedo; dormir cedo; almoçar e jantar com
medo da TV.
Na conta, nada resta zero.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de janeiro de 2021.
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