domingo, 24 de janeiro de 2021

Medo do caramba

 

Medo do caramba

 

Acorda com a sensação de que o estão observando? Tem medo do espelho ao lavar o rosto? Fica bem confuso quando dizem "pagar na mesma moeda", "caindo pelas tabelas", "morrer na praia"?

Ao que parece, muita gente fica pensativa com a borra do café no fundo do copo; gente que tem sofrido muito de modo irracional.

É lógico, pela pujança da perplexidade, desejaria fugir do assunto. Entretanto, mesmo que me faltem explicações para muitos dos meus atos, quero mais é viver. Até porque, exposto aos paradoxos da vida, encasqueto.

Disposto a fazer o bem mas olhando a quem, numa conversa livre e direta, topo pincelar uns comentários banais sobre o medo atávico. Como não arriscarei palpitar sobre nenhum atavismo tétrico, passo-o a especialistas.

Embora pareça normal temer a própria sombra, temo ficar preso a meus pitacos. Assim, sem procurar absolvições baseadas na ciência, começo pelo medo tradicional de palhaços.

Tal pavor pode ser mantido indo ao circo; refreando-se, entretanto, o impulso de querer fazer parte do número da caranga que se desfaz no picadeiro. O público nem nota quem fica na plateia batendo palma; e vaiando, profiro à apatia a careta de quem foge.

Para que transcorra sem drama a volta ao lar, é preciso salientar dores no peito e os formigamentos no braço esquerdo. Aliás, o perigo de desenhar o meu punho cerrado está na problemática destra.

Já o medo de gatos é tratável de forma simples, portanto objetivo, sem lero-lero. Basta beber um gole de água clorada a cada vez que o bichano da casa vier ronronar, esfregando-se nas minhas pernas. Me é importantíssimo levar comigo um cantil, de preferência profissional, feito para manter a oito graus Celsius a panaceia que tanto alegra.

Para não perder o prumo da prosa, quanto à cinofobia irreprimível, não preciso me esconder em cima da mesa.

Ainda que um doberman venha lamber a minha boca, não o deixo apoiar-se nas patas dianteiras. Dou comandos para correr e saltar de banda, e mando uivar à lua.

Invento a lua cheia porque, às vezes prudente, uivo também.

Comparando-se cães e gatos, apenas se recomenda floreios com animais que não façam festa com baba saliente nem com unhadas de traição. O melhor mesmo é precaver-se com "um passinho atrás, por favor", dirigindo-me a bichos cujo instinto seja contagiante.

Por fim, desorientado pela luz apagada, fecho os olhos com vigor.

Há pessoas que, antes de sonhar, entorpecem o medo do escuro com o consumo regular de cachacinha artesanal. Bebericando meus dois dedos do mel que abelha não faz, prego tal uso ajuizado.

A noite sai-me bem menos custosa assim.

Sem medir sequelas, acho bom viver estimulado por medo?

Francamente, ou consigo assobiar mamando cana ou minha cara de pau seguirá sorrindo abestada.

Caraca... De fato, é terapêutico partir pro grito:

Pra cima deles, Botafogo!

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2021.

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