Medo
do caramba
Acorda com a sensação de que o estão
observando? Tem medo do espelho ao lavar o rosto? Fica bem confuso quando dizem
"pagar na mesma moeda", "caindo pelas tabelas",
"morrer na praia"?
Ao que parece, muita gente fica
pensativa com a borra do café no fundo do copo; gente que tem sofrido muito de modo
irracional.
É lógico, pela pujança da perplexidade,
desejaria fugir do assunto. Entretanto, mesmo que me faltem explicações para muitos
dos meus atos, quero mais é viver. Até porque, exposto aos paradoxos da vida,
encasqueto.
Disposto a fazer o bem mas olhando a
quem, numa conversa livre e direta, topo pincelar uns comentários banais sobre o
medo atávico. Como não arriscarei palpitar sobre nenhum atavismo tétrico, passo-o
a especialistas.
Embora pareça normal temer a própria
sombra, temo ficar preso a meus pitacos. Assim, sem procurar absolvições
baseadas na ciência, começo pelo medo tradicional de palhaços.
Tal pavor pode ser mantido indo ao circo;
refreando-se, entretanto, o impulso de querer fazer parte do número da caranga
que se desfaz no picadeiro. O público nem nota quem fica na plateia batendo
palma; e vaiando, profiro à apatia a careta de quem foge.
Para que transcorra sem drama a volta ao
lar, é preciso salientar dores no peito e os formigamentos no braço esquerdo. Aliás,
o perigo de desenhar o meu punho cerrado está na problemática destra.
Já o medo de gatos é tratável de forma
simples, portanto objetivo, sem lero-lero. Basta beber um gole de água clorada
a cada vez que o bichano da casa vier ronronar, esfregando-se nas minhas
pernas. Me é importantíssimo levar comigo um cantil, de preferência
profissional, feito para manter a oito graus Celsius a panaceia que tanto
alegra.
Para não perder o prumo da prosa, quanto
à cinofobia irreprimível, não preciso me esconder em cima da mesa.
Ainda que um doberman venha lamber a
minha boca, não o deixo apoiar-se nas patas dianteiras. Dou comandos para correr
e saltar de banda, e mando uivar à lua.
Invento a lua cheia porque, às vezes prudente,
uivo também.
Comparando-se cães e gatos, apenas se
recomenda floreios com animais que não façam festa com baba saliente nem com
unhadas de traição. O melhor mesmo é precaver-se com "um passinho atrás,
por favor", dirigindo-me a bichos cujo instinto seja contagiante.
Por fim, desorientado pela luz apagada,
fecho os olhos com vigor.
Há pessoas que, antes de sonhar, entorpecem
o medo do escuro com o consumo regular de cachacinha artesanal. Bebericando meus
dois dedos do mel que abelha não faz, prego tal uso ajuizado.
A noite sai-me bem menos custosa assim.
Sem medir sequelas, acho bom viver estimulado
por medo?
Francamente, ou consigo assobiar mamando
cana ou minha cara de pau seguirá sorrindo abestada.
Caraca... De fato, é terapêutico partir
pro grito:
Pra cima deles, Botafogo!
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de janeiro de 2021.
Nenhum comentário:
Postar um comentário