domingo, 3 de janeiro de 2021

O ovo da serpente

 

O ovo da serpente

 

ꟷ Papai, o que são favas contadas?

Na iminência de saborear aquela colherada exuberante de pavê, o homem foi pego de surpresa. Percebendo, entretanto, que se abrisse a boca tumultuaria o ambiente já bastante familiar, conteve a língua.

Interessante, não ter resposta pronta não era nenhuma novidade, e calar pra pensar poderia impedi-lo de comer, mas não.

Se vivesse em outros tempos, quando o Papai Noel ainda descia das nuvens trazendo presentes decepcionantes, que nunca eram os brinquedos pedidos; época em que não trazia a bola oficial da Copa do Mundo nem a bicicleta de alumínio levíssima, nem repartia cestas com nozes, panetones, biscoitos e, menos ainda, o espumante que o guri de seis anos não deveria beber escondido, só que não vivia.

Ora, o rapazinho atual poderia levantar questões melhores. Talvez se não estivesse sentado, comendo chocotone, bebendo suquinho de maçã. Dócil, de pernas cruzadas, guiado pela estrela peculiar do tênis de couro, posto que sabia ser bom, como mimadinho da mamãe.

Boa! Essa dá pra contar sem ficar fulo da vida.

O menino comendo a guloseima, e fazendo questão de mastigá-la dando espetáculo. Sem ligar pros farelos emporcalhando o carpete e sem dar a mínima pros bons modos de não falar de boca cheia.

Fez o que fez; portanto tendo feito, empenhou-se em negá-lo. Daí a necessidade de disparar as desculpas, e sem perdão. Pedir perdão seria admitir estar errado, e não queria levar um pito desmoralizante.

A tal queda, o fato ocorrido, era ter dado um pedaço de chocotone pro Átila, que se engasgou feio a ponto de obrigar a sua dona, e dona da casa, a passar um sabão daqueles em quem estava na sala e não moveu um dedo para impedir o ato do desmiolado que deu o que não devia ao pobre do cachorro.

Átila, xodó e paulistinha, já bem maltratado pelos tantos anos de combate a moscas e outros insetos mil, já descadeirado, desdentado, cego por catarata e meio surdo, um farrapo portador de pulgas, mais outra vítima da longa jornada neste mundo afeito a atrocidades. Sim, eram flagelos bem naturais que empesteavam de verdade o coitado.

Então, à vista das condições execráveis do paciente, se não tinha remédio que ajeitasse a situação, restava recusar até o visto do gesto a assumir a autoria incorreta. Saiu-se com essa, então:

ꟷ Isso aí no vômito do Átila é uma coisa inexplicável, vovó, muito inexplicável.

Abjeto, abjetíssimo, porque o cidadãozinho, calma e cruelmente, quase enfiou o veneno pelo focinho do indefeso quadrúpede.

Sempre adepto da racionalidade ponderada, lembrou-se a tempo de que era quarta, o ponto médio entre a sexta natalina e o Ano Bom da quinta seguinte, período propício a tomar partido, ainda mais que julgava irrefutável ter argumentos pra entrar nessa história.

Do filho do seu filho escutara, afinal:

ꟷ Vovô, o que são favas contadas?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de janeiro de 2021.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Coisa boa

 

Coisa boa

 

Você está cansado daquelas respostas que sempre ignoram suas perguntas? Não estará a solução em ficar sem perguntar mais nada? Quem sabe se passar a fazer de conta que fica feliz da vida toda vez que fica sem resposta alguma? Quem não pergunta nada sabe que tem muito que não sabe? Será que não ter respostas faz o Google as encontrar? Quem formula perguntas tem a fórmula pra responder? Se dispõe de recursos mais rápidos e muito mais lógicos, não frustraria a felicidade usando a própria cachola?

Com estrondo misturado a algazarra, foi preciso uma intervenção efetiva. Por isso, deixou aquelas quireras metafísicas no quentinho da cama e foi inteirar-se da alvoroçada situação.

Mal a porta que dá pro quintal rangeu, voou de cima do telhado da lavanderia a maritaca agredida por outra, que correu tagarelar do alto, a uns sete metros acima do local do impacto.

Nos caibros sob as telhas, naturalmente em pânico, naturalmente piando como loucas, certamente alucinadas com a batalha declarada entre as querelantes, as andorinhas testemunhavam as manobras da caótica fuzarca aérea.

Ressabiadas, mas transtornadas?

Embora frágeis, houvesse um confronto, obviamente imprevisível, com as maitacas assanhadas, as moradoras mais antigas do pedaço escancaravam seus temores quanto à conservação daquele cômodo porto a ninhadas e ninhadas de indivíduos da sua espécie.

Assim como a Terra gravita ao redor do Sol a 30 Km por segundo, sem pesar as palavras, com dedos adestrados pra furiosa digitação, e repórter das coisas do mundo, particularmente tangíveis à vidinha de pessoa atenta aos desconcertantes acontecimentos do cotidiano, ele tinha, mesmo, que compartilhar a gravação que acabara de fazer.

Logo choveram as carinhas de aprovação, os gestos de estímulo, as beijocas animadas. Que lhe davam a certeza de estar motivando a alegria geral com estripulias de maritacas.

Ainda mais porque postara sem truques sentimentaloides.

Sentia que sua real essência nunca esteve presa a futilidades. De forma cristalina, punha a maior honestidade em cada ato. Tinha sem obrigação o prazer da sensação alcançada.

Algo bem natural.

A mãe, que tomava notas de uma receita da TV, largou tudo pra ir conferir com os próprios olhos. Como conseguiu chegar a tempo de pegar a bicharada em polvorosa, aproveitou pra postar outro vídeo.

Menos de um minuto depois, veio a irmã juntar-se a eles. Certa de que poderia coisa muito melhor, ela empunhou seu novíssimo celular como quem dispõe de um drone espetacularmente sensível, de lente absurdamente precisa.

Feito virose, decorridos uns dez minutos, àquele ponto acanhado acorreram a mãe, uma prima por parte de pai, a irmã mais velha, os siameses entediados e o modesto autor do registro inédito.

Causara tanto barulho?

E que notícia boa fazer a vida rodar o mundo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Semancol

 

Semancol

 

Sorrateiramente, a minha cabeça joga comigo sem que eu perceba que estou sendo manipulado. Diante do tumulto do mundo, com tanta história rolando ao mesmo tempo, paro para arrumar uma saída.

E como fazer para achá-la sem maiores complicações?

Para fazer bem feito, faço uma coisa de cada vez. Portanto, preciso priorizar. No entanto, a dedicação a algo pede o empenho da atenção à prioridade estabelecida. Assim, é questão de hierarquia. Mantenho o foco, procuro ficar alheio a distrações secundárias.

Entretanto, por estes dias, o meu poder de concentração da mente está baixo, fragilizado pela exposição a tanta barbaridade.

Haja calamidade sobre calamidade.

Ora, se ponho em dúvida a capacidade que não ando conseguindo exercer direito, a habilidade do autocontrole, isso pede mudança.

Certo, depende de mim o pensamento sadio.

Pra estar positivamente bem preciso de uma boa noite de sono.

Roncar eu ronquei, posso afirmar pela minha garganta seca que me condiciona a pigarros expectorantes. Toda vez que fico neste estado é evidente que dormi a sono largado. É sono que não troco por maratona alguma de seriadinho nórdico com assassinatos em série.

Rumino outras iluminações? Sei lá, pode até ser que seja isso.

Talvez por sugestão dessa palavra que vim a tomar conhecimento de repente, enfiada no meio de um texto que estava lendo pouco antes do almoço.

Qual fora o termo apresentado? Ruminol.

Ao ouvir a palavra, de imediato, gostei da sonoridade. Ao repeti-la, num átimo, engatei significados.

Parece uma bola, soa redonda, quica no chão e, depois de chutada com precisão, vira gol, um golaço. Com ruminol rimando com Gabigol.

É claro que pode sair coisa muito melhor.

Se tem um crime que ainda está sem culpado, aplique-se a química daquele Spray CSI e a luz negra confessa a eficiência científica de sua técnica. Sim, a polícia tem recursos que trazem justiça ao mundo.

Será possível?

Conforme fui investigando a semântica da coisa, o buscador foi me informando, pondo abaixo as minhas hipóteses. Adeus, fabulações.

Ou seja, ruminol não é bola nem aquele treco que permite realçar o sangue no escuro. Pois os peritos usam luminol.

Pela ordem natural das coisas, tiro a realidade do formol.

Então, feita a descoberta do significado, que ruminol é sinônimo de avalanche, poderei comer tranquilo, mastigando com calma, engolindo a comida sem outras preocupações.

De olho na hora, apago o fogo, faço o prato, sento pra almoçar. Só que, errando na dose, o miojo passou do ponto, está um grude.

Muito simples!

Pra não ter remorso pelo desperdício, papo a papa.

Sem complexo de simplificação, evito transformar uma ideia ridícula num pensamento estúpido, portanto não cometo a imbecilidade de dar como solucionado o mistério todo numa frase de efeito: viver fica difícil quando a vida não facilita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

domingo, 27 de dezembro de 2020

Marcante

 

Marcante

 

Não sei se era para acontecer do jeito que foi, sem ventania nem trovoada. E começou assim, comigo perdido numa estrada em Goiás, comigo lá sentado no asfalto molhado pela garoa.

Do que me lembro, era domingo. Ou melhor, havia em plenitude o lusco-fusco do crepúsculo desse domingo anoitecendo.

Era pra ter vindo o fim de um dia que tinha transcorrido agradável, de cervejinha com riachinho, chegando às raias do aprazível. Comigo indo da chácara, um sítio na periferia de Aparecida, pra Goiânia.

Foi quando se deu, o que avalio como o primeiro daqueles erros: a recriminação de estar perdendo o jogo da final da Copa América, que foi resultado aquele 3 a 1 do Brasil sobre o Uruguai.

Depois, o segundo dos erros, foi ter contado piadas inapropriadas, porque, dos três no caminhão, não houve quem topasse recontá-las.

Então, e finalmente, o terceiro engano: como acidente.

Dele, do evento com o caminhão-baú, saímos mais inteiros.

Nos meus óculos não houve danos. Em nenhum osso de ninguém abriu fissura. Na morte próxima, nem rimos.

Pensando bem, conto deste modo que vou tentando me lembrar, e com a ajuda do fígado. Mesmo agora, e já bem alegrinho.

Desviando da pirraça, retomo do ponto acima, que retira do relato um qualquer ardil sem graça ꟷ quando me vi aterrado, já no chão.

Deixemos o caminhão enfiado mato adentro, naquela beira da que me escapam topografia, localização e a sintonia da cabine.

Assentava bem feio aquilo, comigo mais magoado pela ignorância do andamento do jogo do que pelas dores nas costelas e na minha lateral esquerda, do ombro ao calcanhar.

Fosse lá o que fosse que dera por perdido, menos acidentado que meio abobado pelo ocorrido, pôde tal presença.

Fez-se no ato.

Tirou o cigarro que trazia na orelha esquerda. Descalçou a botina do pé esquerdo. Troçando-me abestado, coçou-se todo como destro. Acocorado defronte, me fez conhecer o malcheiroso bafo do charuto.

Bem na minha cara, foi.

Sem que palavra fosse dita, entendi qual mensagem.

Pois entendido, tremi. Porque pude instantaneamente entendê-lo. Temi pela sanidade, dado alcançar o hediondo no escandaloso.

O sujeito veio que apareceu, sei não para onde foi. Aquela pessoa descida até mim, que ela bem poderia ter ido a mais fundo do que a minha compreensão suportasse. Aquela figura, caricatura de homem, de chapelão de boiadeiro dos Confins, de dentro a dentro, desavinda.

Foi o que me fez. Pelo tanto, trouxe ao perturbado; por muito forte, ao conturbado. Todavia torto cegueta.

Por suposto, e então, e nunca fora desse instante.

Terá mesmo acontecido aquilo que aconteceu?

O medo que provém do medo deixa a sequela do desastre. Diz o rastro do tornado visível pela ânsia do pouco visto, no muito sentido.

Nunca mais retornei à Goiânia, lá ficando ainda mais, que nunca ri a quem àquele mais ousasse pedi-lo em procuração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 


quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Notícia do cão do mundo

 

Notícia do cão do mundo

 

Neste nosso planeta abarrotado de distâncias abissais, uma pulga pode pouco. Menos ainda essa aí que, naturalmente condicionada à sobrevivência, passa aos saltos por entre as mesas protocolarmente espaçadas. No presente histórico da alimentação desse nosso inseto, deselegante relatar que a sorte esteja ao nosso lado por nos abreviar à seguinte passagem:

Prefiro julgar a pintura pelas paredes que vejo, disse o homem.

Por tê-lo ouvido, a mulher fechou a cara.

Tanto ouviu que tratou de rechaçar com firmeza, dizendo que um estranho não permaneceria um dia a mais dentro da sua residência.

Por sua vez, educado ao ouvi-la, o provável marido destacou que o cidadão cometera o deslize de ir trabalhar cheirando a álcool; mas pela ressaca, não que estivesse bêbado.

Insistiu a suposta esposa na interdição do tal sujeito irresponsável; ficasse ele com o vício, bem longe dos vulneráveis filhos. Que fosse prestar os préstimos onde o aceitassem, por ignorância ou leniência. Ela tinha princípios e fazia questão de dar-lhes o crédito da prioridade sobre o que não punha fé. Portanto, exigia que as integridades física e moral, suas e as de seus filhos, fossem ambas respeitadas; e ponto final, posto que as duas eram inegociáveis.

O senhor de óculos, tirou-os, limpou-lhes as lentes com o paninho tirado do estojo próprio. Não se deixaria derrotar, porque via o mundo de olho nos resultados. Então, se as paredes estavam bem pintadas, sem emendas e sem apresentar camadas desiguais na espessura de tinta, por que, diabos, haveria de ficar caceteando o pobre coitado?

Pintura de parede não é a Santa Ceia, amada minha.

Por isso, vamos abrir mão do pincel de São Francisco? Meu bem, se acontecer alguma coisa, não quero saber de lamentações.

O quê? Meu anjo, espero me fazer entender... A nossa inestimável casa ficará agradável aos olhos, habitável como nova, boa de morar.

E se o desgraçado fumar um dos seus afamados charutos?

Não vou bater cinzeiros à cata de restos de algum Montecristo.

Santo Deus, não poderá o senhor ao menos dar-se ao trabalho de pensar como deve, como pai de suas crianças?

Amanhã cedo, amantíssima, antes mesmo que o dito cujo adentre nosso lar, e dou como sagradas as minhas palavras, farei a gentileza de checar os odores do homem. Isso lhe parece aceitável?

Constatada a embriaguez, faça o favor de barrar-lhe o acesso.

Em pleno Natal, Maria Aparecida?

Não seja covarde de usar o Natal como desculpa, José Augusto.

Cacilda!

Não abusemos da ingestão das atualidades, uma vez que os fatos caem indigestos pela sanidade das Festas.

Assim, dando pinceladas de realismo isolante, face estarmos bem próximos a tamanho abominável desamor, que em nossa pulga nem lhe faz ferver o sangue frio, celebremos sem desprezo.

Menos cínicos, apuramos o olfato ao buscarmos outro cão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2020.

terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A cereja do Natal

 

A cereja do Natal

 

Como assim, sentir-se péssimo não faz ninguém pessimista?

 

Ora, ora, ora. Tão logo o verão chegasse, viria o Natal.

Vindo, quando nem parecia que cumpriria com sua palavra, tanto aguardada, a alegria, mais humana que propriamente cristã, o tchan contagiante do Natal, trazendo-se em festa, chega.

Mas vindo como nunca, por conta do ano transfigurado pela peste, terá de ter espaço na agenda pra correr atrás dos presentes.

Oxe.

Sentado já faz algum tempo, sem sequer ter pedido seu expresso com pão na chapa, trazia explícita a última noite. Toda ela passada a lutar consigo, a noite anterior doía como uma chaga.

Atestam-no aquelas rugas do cenho, aqueles pigarros rançosos e umas malditas agulhadas no lado posterior direito do pescoço. Isto é? Como osso tenso a mordê-lo, o bicho pegou-o de jeito e ainda seguia ativamente cravado nas suas carnes, de ser indigente a suplicar que a sua condição flagelante não fosse visualizada.

De certo, porém: dera conta do dia.

Cuidou se virar com umas poucas das habilidades das quais podia assegurar-se de tê-las como úteis no dia que vivera. E àquela altura da manhã, quase sete, queria dele ver-se livre, queria que aquele seu ontem estivesse encerrado.

Mas o cansaço, não somente o físico, minava a ideia da entrega muscular e emocional ao que era de sua responsabilidade, o instante desse momento, ao qual teria de voltar-se, ocupar-se, preocupar-se.

O que trazia da véspera?

O lençol foi do varal pro colchão, nem bem tinha voltado do banco, onde quis em ordem as pendengas dos boletos, indignantes boletos.

O pijama foi enjeitado. Pelo tombo de boca aberta, ficara de cueca babando de roncar, num espetáculo grotesco.

A roupa do corpo era a que vestira anteontem. Haja perfume.

Algo feio de sentir e, pior, bem pior, uma pantomima tenebrosa de presenciar. Sem dúvida, parecia um espantalho, espantalhadérrimo.

Fútil negar que precisava parar, até pra refletir direito.

E sentara.

Adiantado lá bem quase uma hora, que viera dar ali sem se notar à inércia dos negócios. Com as suas dobras, exposto à alma cheia de vínculos com uma realidade tão perturbadora quanto intraduzível.

Como ideia lógica: poderia o luxo de ter tempo pra desperdiçá-lo.

O tempo, essa coisa selvagem, um lobo astuto, caninos abstratos a tentá-lo à discrição, tecendo-o invisivelmente, a desfiá-lo cordato.

Sua maneira de lidar com desassossegos insidiosos que o querem preso aos embates contemporâneos?

Tem muitos compromissos, muita coisa pra fazer, por isso espera impaciente que, na maior xícara assentada perfeitamente no maior pires da cafeteria, o fumegante do cafezinho dissipe-se de todo. Para beber num gole, precisa que o café esteja frio, frio.

 

Talvez você possa concordar com os pensadores rigorosos que já bolaram que ninguém alcança libertar-se de si mesmo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de dezembro de 2020.

domingo, 20 de dezembro de 2020

Os haveres

 

Os haveres

 

Havia na casa dois relógios, nenhum deles inaugurado com banda tocando dobrado. Havia um par de gatos. Havia esses felinos felizes, porque os relógios da casa não tinham aquela batida chatíssima dos movidos a corda. Havia duas vasilhas pra água. Havia duas tigelinhas pra ração. Havia duas caixinhas de areia, que os bichos usavam sem que fosse preciso pedir-lhes que usassem. Havia duas caminhas, que os gatos ocupavam quando bem queriam. Havia o tempo das novelas na TV bem como o tempo pra miados fora de hora, embora regulados pelo foro íntimo lá deles, de gatos familiarizados. Havia muitas tarefas a impelir os humanos à desmedida desatenção às necessidades dos bichanos. Havia buliçosas confusões que nem modernas psicologias podiam aclarar, embora pessoas vivendo sob aquele teto carecessem de amparo, ou desabariam na pinga ou largadas no sofá, sujeitas que estavam ao bom funcionamento do controle remoto ou a destemperos de barriga vazia. Havia tal compulsão de manter carregadas as pilhas dos aparelhos comedores de pilha. Havia de conservar a lucidez sem o sono que vivia perdendo. Havia certa dor de cabeça, que a falta de sonho ardia pela mágica acachapante dos analgésicos tão preferidos. Havia a cara amassada de ficar virando de lado, em implicâncias com travesseiro, meias, cobertas. Havia tanto que descansar. Havia pouco pescara. Havia, sensivelmente implacável, o despertador a despachar outra das noites do barulho.

Há madrugadas que surtam de cio. Há gatos que adoram telhado. Há a ordem natural que as coberturas mais seguras põem abaixo. Há machos que piram na batatinha quando têm um formigueiro no rabo. Há fêmeas que não sossegam o facho mesmo quando embaraçadas. Há que se ater aos fatos. Há que se fixar no acasalamento animal. Há de ter juízo pra coisa não desandar num saco de gatos. Há de ter-se o cuidado de lembrar-se de que até gato escaldado roça a língua em lata de sardinha. Há muito azar mesmo ao se cortar. Há que lavar as mãos pra tirar o cheiro de peixe. Há lixeiras que castram a satisfação garantida. Há gatos que ficam doidos só de ouvir falar em banho.

Haverá de acordar no horário. Haverá de ajustar-se pelo incômodo dos desajustes. Haverá de aprimorar-se quando o adiantado da hora andar acelerado. Haverá de dar os passos indispensáveis à frente tão logo o atraso sinta-se abrigado no que vigora. Haverá de trocar o leite nas tigelinhas. Haverá de cuidar da saúde dos gatos, dando-lhes paz. Haverá de pensar na vida. Haverá de ter respeito pelos gatos da vida. Haverá de considerar a dignidade dos animais, assim como pensa na vizinha que ama poodles. Haverá de amar quem se entrega a banho, tosa, remédios, comidinhas. Haverá justa festança se as calendas da ciência não datarem víveres outras agendas.

Haja o que houver, havendo haveres por haver-se, reaja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de dezembro de 2020.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Campeão de Araque

 

Campeão de Araque

 

No começo era só uma desconfiança, que mal dava dorzinha na barriga. Se bem que, por prevenção, passou a tomar um caldinho de galinha antes de detonar qualquer opinião pública.

Como quem troca de camisa pra manter limpa a imagem, as suas palavras sempre deveriam ser usadas para contrariar quem quer que fosse. E como lutava pra acabar feio na foto.

E já podia exibir um álbum cheinho de melhores momentos, todo repleto de sucessivos sucessos. Que ninguém é de ferro se for audaz polivalente, um verdadeiro herói de ouro justo pelos pés de barro.

Pra não cair na real de estar alijado do teatro do mundo, inventava laços de família, distribuía sangue do próprio sangue em quem viesse dar-lhe tapões nas costas. Suas catarradas não eram só um tique.

A coisa notável era sair falando pelos cotovelos que sabia mais do que falava, pois sua língua jamais seria trapo pra passar o pano.

Embora não tivesse nenhuma generosidade genérica, poderia ter ouvidos moucos aos quatro ventos, que não dava um dó para afinar a dor de si que não tinha nada.

Não que fosse incapaz de alimentar segredos de polichinelo. Não que deixasse mofar o pomo da discórdia em cada palavra trocada em miúdos. Talvez até soubesse que parar de falar era para ouvir poucas e boas sem fazer caras e bocas.

Queijo, queijo?

Vida boa é para viver de peito leve.

Sem medo de ser feliz?

Porque de perto todo mundo tem aquela mistureba de louco e de artista que é um mamão com açúcar a quem faz suas contas de viver de mentirinha as mentiras que deveras conta.

Se hão de chamá-lo pão bolorento?

Como nunca entrega os pontos antes da chegada, precisa apostar o que tem, pedindo a lambujem da vitória moral, querendo vencer por qualquer preço, pesando nos custos, pedalando os prejuízos.

Quando o chamarem na chincha?

Como quem empurra o rei com a barriga nua, é sábio beber até a dose pro santo. Uma vez que santo de barro, que tem a cara de pau de ser oco, não engole a seco quando molha a mão de quem cobra o cobre do seu quinhão.

Se sempre é tarde para admitir os próprios erros, fácil é tapar o sol com a peneira quando desencana soltar o verbo sobre os ventos que traz encanados na mente.

De tanto comer ovo cozido?

Nem tanto ao cão nem tanto ao gato. Talvez no meio do barco que boia no meio do rio que corre pro meio do oceano. Se vai e não vai, é pra marcar o lugar que lhe cabe no mapa.

Por ficar refazendo planos, sabe maravilhar-se com o próprio rabo na fotomontagem que traz por rosto o ventre alerta que pisca quando massageado.

Não dando no pé nem rindo da própria sombra, gosta de agir feito mula sem cabeça. Dado a fumar lascas de ipê em cachimbo de prata, pula todo bobo quando atira bolinhas de gude em telhado de vidro de lapidário falido.

De olhar tapado e mãos de pirata, é maluco o bastante para tatuar na testa: IMBATÍVEL.

No Reino de Araque, é campeão quem não perde pra ninguém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2020.

 

 

terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A nova guerra dos traquinas

 

A nova guerra dos traquinas

 

Interrompendo a aula logo no comecinho, o alvoroço do tropel veio porta adentro. Virando rolar no taco o bolo daqueles dois menores de nove anos, naquele terceiro dos nossos anos de grupo escolar.

Outros tempos eram aqueles, uma vez que dona Marinalva tinha o poder da autoridade sobre a classe, que, por seu hipnótico silêncio, a comovia instruir-nos àquele vira-vira de água em nuvem de gelo.

Entusiastas das lições que aprendiam, alunas e alunos amávamos testemunhar a professora passar dos escritos na lousa, manuscrita só em giz branco, aos enigmas das ciências, ainda muito mais científicos quando ministrados por aquela voz deveras em riste.

Dando sequência ao imbróglio desfeito pela mão enérgica daquela mestra incontestável, Joãozinho teve de exibir o copo suficientemente parado para não molhar o chão e Zequinha virava-se para manter útil a maçaroca de algodão sob o sopro inquebrantável do ventilador.

Em outras palavras, água líquida é rio corrente que o vidro amolda enquanto não viramos beber o conteúdo refrescante, já o ar que nem se percebe que respiramos tem orvalho que céu afora condensa.

Posto perante o colosso sapiencial da diplomada catedrática, esse nosso povo, humilde humano humilhado, desejava mesmo era ficar a par do que havia levado à rusga os truculentos coleguinhas.

Uns pintas-bravas bem truculentinhos, por sinal.

Não se pense que eles chegaram atrasados, de modo algum seus pais ousariam afrontar a escola. Ambos foram prontamente desviados da sala para ir tomar bronca na diretoria, porque haviam depredado o jardim recém-plantado à entrada do prédio.

A muda de pau-brasil emplacada no dia da árvore tinha de render uma fogueirinha incrível. Todavia acabou baldada a tentativa de atear fogo ao fiapinho de madeira.

Se fossem menos criadores de caso, eles saberiam que ninguém vira incendiário usando vareta úmida de verde.

Contudo, juntos arrancaram a plantinha do chão. Para fazê-la em pedaços, o filho de um causídico consagrado na comarca, João como o pai, usou seu canivete suíço. Para que pegassem fogo de uma vez os pedaços ajuntados, o neto de um dono de posto de gasolina jogou diesel em tudo. Cada qual da duplinha dos infernos descarregou sua caixa de fósforos.

Em vão, quiseram espetáculo; por mérito, ganharam atenção.

Sob ameaça de surra, sob pito trovejante ─ ficassem espertos.

No recreio, entraram na fila da canjica doce. Tornaram a entrar só pra desrespeitar a ordem de não repetir a merenda. E fizeram a festa jogando no lixo tudo o que pegaram, sem nem lamber os beiços.

Se foram dedurados?

Houve quem não os temesse. Houve quem não ficasse com medo de seus pais. Houve quem soubesse dar valor à comida. Havia quem não tinha o que comer em casa.

A moral que dá para tirar diz que não basta pôr a mão no fogo pro angu queimar o filme.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2020.

domingo, 13 de dezembro de 2020

O caso da casa viva

 

O caso da casa viva

 

Havendo a vela acesa no quarto, que pinte o provável.

O que tem o chão? A concretude do mundo? A certeza da vida ao alcance dos sentidos? O chão parece mesmo estar fugindo?

Percebe um formigamento subindo desde a planta do pé. A coisa ganha o corpo mantendo a velocidade, passa pelo calcanhar. Segue arvorando-se, vai pela canela. Quando articula dobrar-se, galgando o joelho, morde uma polegada a mais. Bem na coxa, transfigurando-se sublimado, o clandestino aninha-se. Assim à tripa-forra, traz à luz sua morada ─ a mente em eclipse.

Como o quê, um espectro a sentir-se em casa?

Talvez aí resida o mistério.

Por que está acesa? Não poderia estar apagada? Assopra.

Só não usa a saliva no pavio apagado.

No escuro, acha melhor tê-la acesa. Onde pôs os fósforos? Anda esquecido. Por que terá deixado de pegá-los? Nem dá tempo, a vela acende por conta.

Terá enlouquecido do nada? Se não crê que possa, talvez esteja.

Já que fantasma existe apenas em universo paralelo, quem sabe a autocombustão aristotélica passe a servir de explicação.

Sim, já leu em algum canto: a insanidade faz alterada a percepção do corpo. Que parece diferente, já incapaz de medir distâncias. Ou as quinas dos móveis passaram a brincar.

Sonso, não estão a caçá-lo. Estão definindo o ambiente.

Pra experimentar o espaço, arreia os braços. Acuado no breu, não alcança tocar nada. Entretanto, cercado nas quinquilharias, as tantas topadas ilustram a sua falta de tato.

A casa como refúgio? O conforto do lar?

O caso é sério. Ou está inventando.

Quão perturbador viver em mundo novo de outro padrão.

Está terrivelmente só? Só se não contarem os hematomas...

As mãos estão cegas. Cego está o juízo que não ilumina sequer a vela que está resolvida a não ser afligida por dedos desgovernados.

Fácil dizer que está cego; mas que não vê, simples. Portanto, não conseguir ver não é o mesmo que cegueira.

Haja felicidade de não falar coisa com coisa, falando.

Não se lamenta por ater-se ao nó? Tchau, simplicidade.

Talvez pudesse chorar sem pensar nas circunstâncias; devesse a vela agir direito.

A luz da vela volta a minguar-se; o medo dobra o escuro.

Terá exagerado no macarrão à bolonhesa? Nem jantou.

Teria sono? Estava dormindo quando o jogo começou.

Desce da cama. A um palmo da porta, bate o joelho na folha.

Dispensada do calço, a folgada está entreaberta. Ora, e não venta nem ventou. Ora, pensando bem, nem precisa encontrar a razão.

Passado o afã de medir a empatia pela simpatia desprendida, não enfrentou responder se caberia à paixão calibrar o contrassenso pelo dissenso.

Haja realidade? Haja excesso de consumo de realidade.

Como vem dando mancada feito bobo, cabe alegar ter bebido uma caipirinha a mais... Ou pode ser loucura.

Sem nenhum motivo aparente, pegou-a.

Já na hora de ir?

Revelando-se noturno, o mundo canta os seus galos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2020.

quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A irmã

 

A irmã

 

Vibra de fundo, no peito. Do banal ao extraordinário, vibra. Em ser o que pergunta. A perguntar-se, corpo que pensa no que vibra.

Pessoa cuja existência faz-se consciência da presença.

E se não para de questionar-se, em que medida poderá mediar-se como intérprete de si?

Um tenso e tanto, intensifico-me ao identificar-me com sua verve, a animalidade em sua graciosidade.

Peço licença... Você tem persona de genuína formosura.

Invejo muitas das suas agudas virtudes; e viro pensar nas gentes aborrecidas que se aborrecem por bem pouco.

Posso moldar-me a partir dessa sua crônica cordialidade racional a instaurar um caminho, entre a remediada violência despudorada e a ácida resignação civilizada, poderei?

Dizem, digo: um modelo.

Você bem sabe que o pudor impede a mim a manifestação maior de apreço que faz da sua imagem um ídolo, que a posso imitá-la. De primeira hora, desde que passei a envaidecer-me tê-la visto na TV.

Brioso por sentir-me incluído na ciranda, mas o mistério não está em ficar assistindo. Há passos pra alegrar e tumultuar alegremente o esqueleto na dança, desde que dance inteiro corpo.

E preciso voltar sempre àquele depoimento. Nele há mal-estar, aí é que fica justificado repassar tal caminho, refazendo a travessia pela memória como história ao ser contada. Como guloseima, eterna.

Por um doce acaso da vida, Elisa tinha você por irmã.

Por um doce acaso do mundo, Tanya tinha você por irmã.

Sem nenhuma ironia, Elisa e Tanya tinham você em comum.

Pretenso mano. Tão humano... Que muito me engano.

Projeto-me, tenho o instinto. Protejo-me, tenho a intuição.

Faço-me resposta às perguntas que permaneço.

Não sossego, mobilizo-me. Anseio.

Da coisa do real à realidade da coisa?

À beleza, o amor.

Beleza é casca, ameaça de cicatrização, ferida que age latejante, virulenta, existência tocada quando sentida, e irremediável, cura.

Se não tem um senão?

Estava bebendo com amigos. Um deles abriu o coração, onde tem guardada a carteira. Com contas vencidas que não param de crescer, esse bom conhecido me convoca pra comprar-lhe uns livros.

É... Fui.

Embora impresso, bem apresentável, limpo de nódoas pegajosas, de odor aceitável, a maioria daquilo não atraía.

E... acontece.

Todos os contos. Todas as crônicas. Todas as cartas.

Bem poderia bancar a besta quadrada e sair dizendo que entendo. Mas não entendo, fico perdido. Desando a pensar. Anoto, risco. Volto a tomar nota, especulo. Palpito, e por escrito.

Queria sentir menos, mas me perco na sua escrita. Queria mesmo não erguer mais entrelinhas na linguagem, que a repagino labiríntica. Queria me sentir autorizado, mas seria ridícula a banalidade de dizer que a compreendo só pela leitura.

Surto de vez. Compro os três.

Terei cópias a mais pra em mim me cultivar um fiel leitor, pois não acredito que vou parar de comer mosca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2020.

 

 


terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Coração noturno

 

Coração noturno

 

A noite está vigorando. O homem não sabe nem quer saber quais leis regem aquele funcionamento. Deitado no escuro do quarto, finge que sonha. Enquanto for sonhando, a noite seguirá intocável.

Sonhando, o homem pode ocupar-se com afazeres intermináveis, inadiáveis, incontornáveis. Em vez de delirar com maravilhas, o nosso homem, coitado, nem liga explicar os mecanismos do seu fastio.

Cada sonho traz dormências às suas angústias. E nenhum sonho se parece com outro. Embora possa haver confusão, tal essência não doma a realidade.

Sonhando que está acordado, o coitado nem percebe que emenda sonho em outro. Contraditório, o desânimo estimula-o a querer mais.

Tanto está viciado em sonhar que a sua vida já começa a perder o limite do que é real. Ou melhor, já está há tempos fora do pão, pão da vida que nem tem consciência do quanto de chão já tem andado.

Na rua, o lunático zanza mesmo pelo mundo da lua.

E porque curte viver acordado de olhos baços, o cidadão relapso pisa fundo num buraco. Pelo contratempo irritante, põe reparo que a chuvarada sugere ter algo errado no planeta.

Quando tira os pés daquela incongruência, bate a lama com tanta confiança que nem controla a mão frenética sem tempo pra tapar um buraco. E logo esse tão real?

Como toma a sério as opiniões, até ficar doente, prefere roncar. É por isso que nem especula sobre torcicolo, ou ronco.

Sua, e suado precisa dar um jeito.

Não irá deitar sem banho tomado. Porém, vai ingerir a janta bem devagar. E a TV será degustada prodigamente.

Naturalmente, não sendo médico nem ilusionista, dormirá.

Consegue; o quanto o corpo aguenta na posição única, de bruços.

Ainda estava escuro quando acordou. Viu-se incomodado pela dor na nuca. Todavia manteve os olhos fechados mesmo com ferroadas, e tantos sentimentos difusos.

Se não teria de acordar cedo, por que acabou deitando errado?

Queria ter o radar de andorinhas, pardais e maritacas, que sabem, com autonomia absurda, da alvorada desgarrando-se da noite.

Viria? Virá.

Ainda que pouco soubesse dos engenhos do universo, o homem que acorda tendo a si mesmo como um condenado ansioso suava em profusão.

Que coisa chata, suando no escuro. Cansativo.

Se a noite tem vez na ordem do universo, o corpo desconhece. As pupilas ignoram fronteiras, passaportes. Cansadas, as pálpebras não desdenham nem ironizam, querem mais sono. Precisam de sono.

Assim, o corpo suporta a passagem pra face diurna da vida.

Assim, a mente acorda o homem de mente que não dorme.

O homem tem razão de acordar abatido. Ignorante, nada sabe das necessidades simétricas, de longitudes e latitudes. O mundo erguido pela lógica talvez tenha sentido. Mas ele não se ouve.

Incompreensível ao homem que acordou na hora de sempre, feito relógio atento ao absurdo de saber-se operando no escuro, ele pensa que sonha, mas vive.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

domingo, 6 de dezembro de 2020

Em fogo brando

 

Em fogo brando

 

De novo, que sentido pode dar validade ao que uma pessoa faz?

Frustração neurótica, a isso não a mobiliza dar atenção, pois será especulação vulgar, com fundamentos no banal.

E banalidades matam. Ainda que orientem suspiros, podem matar poeticamente.

Poeticamente, a ponto de abandonar-se ao equívoco de não parar de insistir nessa aventura. De seguir sem notar que os caminhos que se bifurcam são os mesmos nós que prendem a paralisia.

Paralisam, sem petrificação. Pois tanto perturbam.

Então, o mal está na razão. E talvez esteja.

Assim, o perturbador está em delimitar até onde a razão alcança.

Posto que alcança, sustenta. E ampara, acolhe. Dá domicílio a si, à razão proporcional ao propositado. E se?

Mesmo que leve ao exagero, à loucura do desmedido, ao colapso da energia concentrada, é abismo que sorri, canta, a dançar.

O que a maioria das pessoas teme, assim mesmo, é que pede por aplauso ou vaia em quem arrisca, aposta e perde.

A brincadeira alegra e contenta precisamente por que está perdida desde o princípio?

Vem, compartilhe comigo a ternura que tenho esquecida em mim quando os momentos de angústia tocam a morte.

Hei de lembrar qual a chave para abrir a porta, dando franquia aos pensamentos fracos, que em meus instantes de desonestidade digo pertencerem a outro, a mais alguém, talvez àquele anônimo distraído em tremores. Pessoa que passa no lugar errado, na hora errada.

Trago na boca a alegria sem sorriso, já engessada pela dor, talvez me recorde do balanço ao lado da capela onde minhas faltas ficavam sérias, maiores que minha infância.

Vem, ando precisando de um ombro forte, firme, que me permita ver o mundo além das fotografias. Quero que me sustentem por mais um segundo, enquanto abro os olhos para a beleza de amar.

Ainda que muito me engane, não me quero um poeta sem poema, ou cão fechado no sufoco.

Diante da dor do filho enterrado, há esperança sem misericórdia?

Ainda disperso poderei pedir por mais ar, ainda assim terei portas abertas. Não porque a chave, o instrumento que mais preciso, venha de todo ser-me inútil por perdida, ou por jamais fabricada.

Algo além de mim faz-me abri-las. Mesmo que me falte o alívio de tê-las abertas, darei em igual medida amor ao desespero.

Vem, peço ao sol da solidão o menos abrasivo, o menos tórrido, o mais humano, o mais sustentável. Suportável e digno.

Vem, que a hora triste passe. Ainda que rasteje, passará.

Vem, embora espinhos firam-me a mão, quero oferecer a rosa que vou ainda colher.

Vem, o pouco que ofereço é-me do amor fonte singela.

Vem, que não dou por mim o melhor. Por melhor, o possível.

Vem, a hora é agora, bem na hora em que estou ficando pronto. E não prometo que estarei pronto, mas asseguro que poderei estar.

Vem, sigo acreditando que vou estar disponível ao encanto.

Vem, estou disposto, como café mantido aquecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de dezembro de 2020.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O mordomo

 

O mordomo

 

Sim, foi o mordomo.

Antes, contudo, de chegarmos ao culpado verdadeiro, façamos o percurso que começa justamente com aquele personagem que nos servirá, evidentemente, para que seja apresentada esta insofismável pergunta: quem haverá de ocupar-se a tempo do instante preciso?

Lá vai o sujeito.

Ele mantém o passo, apressado. Com contas pra pagar, mentiras pra sustentar, um estressado. Tem coisas mal postas, por resolver. E que mais ninguém meta o bedelho. É o único interessado apto a atar e desatar fatos e fotos.

Por isso, em virtude da pressa, em razão das ansiedades, tinha já motivos de sobra pra não querer que dessem palpite. Era camarada que fazia questão de disfarçar a cara enfezada, de gente atrasada.

Portanto, culpemos as bitucas e não o fumante que se livra delas.

Poderíamos culpar o cronista, porquanto ele faça entrar na crônica um parágrafo inteirinho só pra demonstrar que nada tem de centrado, com uma personalidade tola o bastante pra gracejos pueris.

Em outras palavras, vamos agir com condescendência e culpemos a cachola do escriba pelas fumaças pretensamente recreativas.

De passagem, voltemos nossa atenção para a sacola plástica, um típico veículo para transporte de mercadorias. Eis que ela está quieta na boca de um bueiro, só à espera da próxima chuva, que logo virá. Dá-se em exemplo de como barrar o fluxo pluvial, causando estrago, dor de cabeça, levando quem responsável a adiantar-se nas sinceras desculpas por transtornos prejuízos.

Destarte, menos pelo baixo custo e pela praticidade no manuseio, culpemos o polietileno pela durabilidade que torna maléfica a química industrial.

Agora, passemos a sopesar gravemente o temporal.

Empunhando sombrinha barata, discreta, sem estampa do Macho Invisível, equilibradamente em degradê ─ amarelo, laranja, vermelho; reforcemos o ponto, profundamente discreto, próprio a sutilezas.

Pessoa racional, a pedestre de tênis lilás usa a faixa de pedestres. Capaz de engolir a laranjada sem açúcar que o maninho prepara que nem café da manhã, de carimbar errada a data do futuro relatório que o chefe pede no grito, de sentar-se sozinha em ônibus vazio.

Por conseguinte, para que as palavras não rasguem cicatrizes no calçado, culpemos a flora estomacal pelo zíper na boca.

Como águas passadas só movem moinhos rio abaixo, ainda que a menor distância entre o ponto x e o ponto y seja uma reta, preferimos zanzar. Pra vir a casa a ser administrada com euforia?

Pra evitar que bagunceiros tomem a gerência, simplifiquemos, ou melhor, facilite-se a escolha: é sua.

Folgamos ouvi-lo, todavia, quando o mordomo elenca bebedores de café: os que fazem cara feia quando está frio; os que cospem na hora quando está pelando; os que pedem água natural.

Enfim, aqui ninguém falará:

─ Troque de lugar ou arrume quem assuma o figurino.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de dezembro de 2020.