terça-feira, 22 de dezembro de 2020

A cereja do Natal

 

A cereja do Natal

 

Como assim, sentir-se péssimo não faz ninguém pessimista?

 

Ora, ora, ora. Tão logo o verão chegasse, viria o Natal.

Vindo, quando nem parecia que cumpriria com sua palavra, tanto aguardada, a alegria, mais humana que propriamente cristã, o tchan contagiante do Natal, trazendo-se em festa, chega.

Mas vindo como nunca, por conta do ano transfigurado pela peste, terá de ter espaço na agenda pra correr atrás dos presentes.

Oxe.

Sentado já faz algum tempo, sem sequer ter pedido seu expresso com pão na chapa, trazia explícita a última noite. Toda ela passada a lutar consigo, a noite anterior doía como uma chaga.

Atestam-no aquelas rugas do cenho, aqueles pigarros rançosos e umas malditas agulhadas no lado posterior direito do pescoço. Isto é? Como osso tenso a mordê-lo, o bicho pegou-o de jeito e ainda seguia ativamente cravado nas suas carnes, de ser indigente a suplicar que a sua condição flagelante não fosse visualizada.

De certo, porém: dera conta do dia.

Cuidou se virar com umas poucas das habilidades das quais podia assegurar-se de tê-las como úteis no dia que vivera. E àquela altura da manhã, quase sete, queria dele ver-se livre, queria que aquele seu ontem estivesse encerrado.

Mas o cansaço, não somente o físico, minava a ideia da entrega muscular e emocional ao que era de sua responsabilidade, o instante desse momento, ao qual teria de voltar-se, ocupar-se, preocupar-se.

O que trazia da véspera?

O lençol foi do varal pro colchão, nem bem tinha voltado do banco, onde quis em ordem as pendengas dos boletos, indignantes boletos.

O pijama foi enjeitado. Pelo tombo de boca aberta, ficara de cueca babando de roncar, num espetáculo grotesco.

A roupa do corpo era a que vestira anteontem. Haja perfume.

Algo feio de sentir e, pior, bem pior, uma pantomima tenebrosa de presenciar. Sem dúvida, parecia um espantalho, espantalhadérrimo.

Fútil negar que precisava parar, até pra refletir direito.

E sentara.

Adiantado lá bem quase uma hora, que viera dar ali sem se notar à inércia dos negócios. Com as suas dobras, exposto à alma cheia de vínculos com uma realidade tão perturbadora quanto intraduzível.

Como ideia lógica: poderia o luxo de ter tempo pra desperdiçá-lo.

O tempo, essa coisa selvagem, um lobo astuto, caninos abstratos a tentá-lo à discrição, tecendo-o invisivelmente, a desfiá-lo cordato.

Sua maneira de lidar com desassossegos insidiosos que o querem preso aos embates contemporâneos?

Tem muitos compromissos, muita coisa pra fazer, por isso espera impaciente que, na maior xícara assentada perfeitamente no maior pires da cafeteria, o fumegante do cafezinho dissipe-se de todo. Para beber num gole, precisa que o café esteja frio, frio.

 

Talvez você possa concordar com os pensadores rigorosos que já bolaram que ninguém alcança libertar-se de si mesmo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de dezembro de 2020.

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