domingo, 20 de dezembro de 2020

Os haveres

 

Os haveres

 

Havia na casa dois relógios, nenhum deles inaugurado com banda tocando dobrado. Havia um par de gatos. Havia esses felinos felizes, porque os relógios da casa não tinham aquela batida chatíssima dos movidos a corda. Havia duas vasilhas pra água. Havia duas tigelinhas pra ração. Havia duas caixinhas de areia, que os bichos usavam sem que fosse preciso pedir-lhes que usassem. Havia duas caminhas, que os gatos ocupavam quando bem queriam. Havia o tempo das novelas na TV bem como o tempo pra miados fora de hora, embora regulados pelo foro íntimo lá deles, de gatos familiarizados. Havia muitas tarefas a impelir os humanos à desmedida desatenção às necessidades dos bichanos. Havia buliçosas confusões que nem modernas psicologias podiam aclarar, embora pessoas vivendo sob aquele teto carecessem de amparo, ou desabariam na pinga ou largadas no sofá, sujeitas que estavam ao bom funcionamento do controle remoto ou a destemperos de barriga vazia. Havia tal compulsão de manter carregadas as pilhas dos aparelhos comedores de pilha. Havia de conservar a lucidez sem o sono que vivia perdendo. Havia certa dor de cabeça, que a falta de sonho ardia pela mágica acachapante dos analgésicos tão preferidos. Havia a cara amassada de ficar virando de lado, em implicâncias com travesseiro, meias, cobertas. Havia tanto que descansar. Havia pouco pescara. Havia, sensivelmente implacável, o despertador a despachar outra das noites do barulho.

Há madrugadas que surtam de cio. Há gatos que adoram telhado. Há a ordem natural que as coberturas mais seguras põem abaixo. Há machos que piram na batatinha quando têm um formigueiro no rabo. Há fêmeas que não sossegam o facho mesmo quando embaraçadas. Há que se ater aos fatos. Há que se fixar no acasalamento animal. Há de ter juízo pra coisa não desandar num saco de gatos. Há de ter-se o cuidado de lembrar-se de que até gato escaldado roça a língua em lata de sardinha. Há muito azar mesmo ao se cortar. Há que lavar as mãos pra tirar o cheiro de peixe. Há lixeiras que castram a satisfação garantida. Há gatos que ficam doidos só de ouvir falar em banho.

Haverá de acordar no horário. Haverá de ajustar-se pelo incômodo dos desajustes. Haverá de aprimorar-se quando o adiantado da hora andar acelerado. Haverá de dar os passos indispensáveis à frente tão logo o atraso sinta-se abrigado no que vigora. Haverá de trocar o leite nas tigelinhas. Haverá de cuidar da saúde dos gatos, dando-lhes paz. Haverá de pensar na vida. Haverá de ter respeito pelos gatos da vida. Haverá de considerar a dignidade dos animais, assim como pensa na vizinha que ama poodles. Haverá de amar quem se entrega a banho, tosa, remédios, comidinhas. Haverá justa festança se as calendas da ciência não datarem víveres outras agendas.

Haja o que houver, havendo haveres por haver-se, reaja.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de dezembro de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário