Os
haveres
Havia na casa dois relógios, nenhum
deles inaugurado com banda tocando dobrado. Havia um par de gatos. Havia esses
felinos felizes, porque os relógios da casa não tinham aquela batida chatíssima
dos movidos a corda. Havia duas vasilhas pra água. Havia duas tigelinhas pra
ração. Havia duas caixinhas de areia, que os bichos usavam sem que fosse
preciso pedir-lhes que usassem. Havia duas caminhas, que os gatos ocupavam
quando bem queriam. Havia o tempo das novelas na TV bem como o tempo pra miados
fora de hora, embora regulados pelo foro íntimo lá deles, de gatos familiarizados.
Havia muitas tarefas a impelir os humanos à desmedida desatenção às necessidades
dos bichanos. Havia buliçosas confusões que nem modernas psicologias podiam aclarar,
embora pessoas vivendo sob aquele teto carecessem de amparo, ou desabariam na pinga
ou largadas no sofá, sujeitas que estavam ao bom funcionamento do controle
remoto ou a destemperos de barriga vazia. Havia tal compulsão de manter
carregadas as pilhas dos aparelhos comedores de pilha. Havia de conservar a lucidez
sem o sono que vivia perdendo. Havia certa dor de cabeça, que a falta de sonho ardia
pela mágica acachapante dos analgésicos tão preferidos. Havia a cara amassada
de ficar virando de lado, em implicâncias com travesseiro, meias, cobertas.
Havia tanto que descansar. Havia pouco pescara. Havia, sensivelmente
implacável, o despertador a despachar outra das noites do barulho.
Há madrugadas que surtam de cio. Há gatos
que adoram telhado. Há a ordem natural que as coberturas mais seguras põem
abaixo. Há machos que piram na batatinha quando têm um formigueiro no rabo. Há
fêmeas que não sossegam o facho mesmo quando embaraçadas. Há que se ater aos fatos.
Há que se fixar no acasalamento animal. Há de ter juízo pra coisa não desandar
num saco de gatos. Há de ter-se o cuidado de lembrar-se de que até gato
escaldado roça a língua em lata de sardinha. Há muito azar mesmo ao se cortar.
Há que lavar as mãos pra tirar o cheiro de peixe. Há lixeiras que castram a satisfação
garantida. Há gatos que ficam doidos só de ouvir falar em banho.
Haverá de acordar no horário. Haverá de
ajustar-se pelo incômodo dos desajustes. Haverá de aprimorar-se quando o
adiantado da hora andar acelerado. Haverá de dar os passos indispensáveis à
frente tão logo o atraso sinta-se abrigado no que vigora. Haverá de trocar o
leite nas tigelinhas. Haverá de cuidar da saúde dos gatos, dando-lhes paz.
Haverá de pensar na vida. Haverá de ter respeito pelos gatos da vida. Haverá de
considerar a dignidade dos animais, assim como pensa na vizinha que ama poodles.
Haverá de amar quem se entrega a banho, tosa, remédios, comidinhas. Haverá justa
festança se as calendas da ciência não datarem víveres outras agendas.
Haja o que houver, havendo haveres por
haver-se, reaja.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 20 de dezembro de 2020.
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