quinta-feira, 31 de dezembro de 2020

Coisa boa

 

Coisa boa

 

Você está cansado daquelas respostas que sempre ignoram suas perguntas? Não estará a solução em ficar sem perguntar mais nada? Quem sabe se passar a fazer de conta que fica feliz da vida toda vez que fica sem resposta alguma? Quem não pergunta nada sabe que tem muito que não sabe? Será que não ter respostas faz o Google as encontrar? Quem formula perguntas tem a fórmula pra responder? Se dispõe de recursos mais rápidos e muito mais lógicos, não frustraria a felicidade usando a própria cachola?

Com estrondo misturado a algazarra, foi preciso uma intervenção efetiva. Por isso, deixou aquelas quireras metafísicas no quentinho da cama e foi inteirar-se da alvoroçada situação.

Mal a porta que dá pro quintal rangeu, voou de cima do telhado da lavanderia a maritaca agredida por outra, que correu tagarelar do alto, a uns sete metros acima do local do impacto.

Nos caibros sob as telhas, naturalmente em pânico, naturalmente piando como loucas, certamente alucinadas com a batalha declarada entre as querelantes, as andorinhas testemunhavam as manobras da caótica fuzarca aérea.

Ressabiadas, mas transtornadas?

Embora frágeis, houvesse um confronto, obviamente imprevisível, com as maitacas assanhadas, as moradoras mais antigas do pedaço escancaravam seus temores quanto à conservação daquele cômodo porto a ninhadas e ninhadas de indivíduos da sua espécie.

Assim como a Terra gravita ao redor do Sol a 30 Km por segundo, sem pesar as palavras, com dedos adestrados pra furiosa digitação, e repórter das coisas do mundo, particularmente tangíveis à vidinha de pessoa atenta aos desconcertantes acontecimentos do cotidiano, ele tinha, mesmo, que compartilhar a gravação que acabara de fazer.

Logo choveram as carinhas de aprovação, os gestos de estímulo, as beijocas animadas. Que lhe davam a certeza de estar motivando a alegria geral com estripulias de maritacas.

Ainda mais porque postara sem truques sentimentaloides.

Sentia que sua real essência nunca esteve presa a futilidades. De forma cristalina, punha a maior honestidade em cada ato. Tinha sem obrigação o prazer da sensação alcançada.

Algo bem natural.

A mãe, que tomava notas de uma receita da TV, largou tudo pra ir conferir com os próprios olhos. Como conseguiu chegar a tempo de pegar a bicharada em polvorosa, aproveitou pra postar outro vídeo.

Menos de um minuto depois, veio a irmã juntar-se a eles. Certa de que poderia coisa muito melhor, ela empunhou seu novíssimo celular como quem dispõe de um drone espetacularmente sensível, de lente absurdamente precisa.

Feito virose, decorridos uns dez minutos, àquele ponto acanhado acorreram a mãe, uma prima por parte de pai, a irmã mais velha, os siameses entediados e o modesto autor do registro inédito.

Causara tanto barulho?

E que notícia boa fazer a vida rodar o mundo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 31 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

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