quinta-feira, 17 de dezembro de 2020

Campeão de Araque

 

Campeão de Araque

 

No começo era só uma desconfiança, que mal dava dorzinha na barriga. Se bem que, por prevenção, passou a tomar um caldinho de galinha antes de detonar qualquer opinião pública.

Como quem troca de camisa pra manter limpa a imagem, as suas palavras sempre deveriam ser usadas para contrariar quem quer que fosse. E como lutava pra acabar feio na foto.

E já podia exibir um álbum cheinho de melhores momentos, todo repleto de sucessivos sucessos. Que ninguém é de ferro se for audaz polivalente, um verdadeiro herói de ouro justo pelos pés de barro.

Pra não cair na real de estar alijado do teatro do mundo, inventava laços de família, distribuía sangue do próprio sangue em quem viesse dar-lhe tapões nas costas. Suas catarradas não eram só um tique.

A coisa notável era sair falando pelos cotovelos que sabia mais do que falava, pois sua língua jamais seria trapo pra passar o pano.

Embora não tivesse nenhuma generosidade genérica, poderia ter ouvidos moucos aos quatro ventos, que não dava um dó para afinar a dor de si que não tinha nada.

Não que fosse incapaz de alimentar segredos de polichinelo. Não que deixasse mofar o pomo da discórdia em cada palavra trocada em miúdos. Talvez até soubesse que parar de falar era para ouvir poucas e boas sem fazer caras e bocas.

Queijo, queijo?

Vida boa é para viver de peito leve.

Sem medo de ser feliz?

Porque de perto todo mundo tem aquela mistureba de louco e de artista que é um mamão com açúcar a quem faz suas contas de viver de mentirinha as mentiras que deveras conta.

Se hão de chamá-lo pão bolorento?

Como nunca entrega os pontos antes da chegada, precisa apostar o que tem, pedindo a lambujem da vitória moral, querendo vencer por qualquer preço, pesando nos custos, pedalando os prejuízos.

Quando o chamarem na chincha?

Como quem empurra o rei com a barriga nua, é sábio beber até a dose pro santo. Uma vez que santo de barro, que tem a cara de pau de ser oco, não engole a seco quando molha a mão de quem cobra o cobre do seu quinhão.

Se sempre é tarde para admitir os próprios erros, fácil é tapar o sol com a peneira quando desencana soltar o verbo sobre os ventos que traz encanados na mente.

De tanto comer ovo cozido?

Nem tanto ao cão nem tanto ao gato. Talvez no meio do barco que boia no meio do rio que corre pro meio do oceano. Se vai e não vai, é pra marcar o lugar que lhe cabe no mapa.

Por ficar refazendo planos, sabe maravilhar-se com o próprio rabo na fotomontagem que traz por rosto o ventre alerta que pisca quando massageado.

Não dando no pé nem rindo da própria sombra, gosta de agir feito mula sem cabeça. Dado a fumar lascas de ipê em cachimbo de prata, pula todo bobo quando atira bolinhas de gude em telhado de vidro de lapidário falido.

De olhar tapado e mãos de pirata, é maluco o bastante para tatuar na testa: IMBATÍVEL.

No Reino de Araque, é campeão quem não perde pra ninguém.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de dezembro de 2020.

 

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário