domingo, 27 de dezembro de 2020

Marcante

 

Marcante

 

Não sei se era para acontecer do jeito que foi, sem ventania nem trovoada. E começou assim, comigo perdido numa estrada em Goiás, comigo lá sentado no asfalto molhado pela garoa.

Do que me lembro, era domingo. Ou melhor, havia em plenitude o lusco-fusco do crepúsculo desse domingo anoitecendo.

Era pra ter vindo o fim de um dia que tinha transcorrido agradável, de cervejinha com riachinho, chegando às raias do aprazível. Comigo indo da chácara, um sítio na periferia de Aparecida, pra Goiânia.

Foi quando se deu, o que avalio como o primeiro daqueles erros: a recriminação de estar perdendo o jogo da final da Copa América, que foi resultado aquele 3 a 1 do Brasil sobre o Uruguai.

Depois, o segundo dos erros, foi ter contado piadas inapropriadas, porque, dos três no caminhão, não houve quem topasse recontá-las.

Então, e finalmente, o terceiro engano: como acidente.

Dele, do evento com o caminhão-baú, saímos mais inteiros.

Nos meus óculos não houve danos. Em nenhum osso de ninguém abriu fissura. Na morte próxima, nem rimos.

Pensando bem, conto deste modo que vou tentando me lembrar, e com a ajuda do fígado. Mesmo agora, e já bem alegrinho.

Desviando da pirraça, retomo do ponto acima, que retira do relato um qualquer ardil sem graça ꟷ quando me vi aterrado, já no chão.

Deixemos o caminhão enfiado mato adentro, naquela beira da que me escapam topografia, localização e a sintonia da cabine.

Assentava bem feio aquilo, comigo mais magoado pela ignorância do andamento do jogo do que pelas dores nas costelas e na minha lateral esquerda, do ombro ao calcanhar.

Fosse lá o que fosse que dera por perdido, menos acidentado que meio abobado pelo ocorrido, pôde tal presença.

Fez-se no ato.

Tirou o cigarro que trazia na orelha esquerda. Descalçou a botina do pé esquerdo. Troçando-me abestado, coçou-se todo como destro. Acocorado defronte, me fez conhecer o malcheiroso bafo do charuto.

Bem na minha cara, foi.

Sem que palavra fosse dita, entendi qual mensagem.

Pois entendido, tremi. Porque pude instantaneamente entendê-lo. Temi pela sanidade, dado alcançar o hediondo no escandaloso.

O sujeito veio que apareceu, sei não para onde foi. Aquela pessoa descida até mim, que ela bem poderia ter ido a mais fundo do que a minha compreensão suportasse. Aquela figura, caricatura de homem, de chapelão de boiadeiro dos Confins, de dentro a dentro, desavinda.

Foi o que me fez. Pelo tanto, trouxe ao perturbado; por muito forte, ao conturbado. Todavia torto cegueta.

Por suposto, e então, e nunca fora desse instante.

Terá mesmo acontecido aquilo que aconteceu?

O medo que provém do medo deixa a sequela do desastre. Diz o rastro do tornado visível pela ânsia do pouco visto, no muito sentido.

Nunca mais retornei à Goiânia, lá ficando ainda mais, que nunca ri a quem àquele mais ousasse pedi-lo em procuração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 


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