Marcante
Não sei se era para acontecer do jeito
que foi, sem ventania nem trovoada. E começou assim, comigo perdido numa
estrada em Goiás, comigo lá sentado no asfalto molhado pela garoa.
Do que me lembro, era domingo. Ou
melhor, havia em plenitude o lusco-fusco do crepúsculo desse domingo anoitecendo.
Era pra ter vindo o fim de um dia que
tinha transcorrido agradável, de cervejinha com riachinho, chegando às raias do
aprazível. Comigo indo da chácara, um sítio na periferia de Aparecida, pra
Goiânia.
Foi quando se deu, o que avalio como o primeiro
daqueles erros: a recriminação de estar perdendo o jogo da final da Copa
América, que foi resultado aquele 3 a 1 do Brasil sobre o Uruguai.
Depois, o segundo dos erros, foi ter
contado piadas inapropriadas, porque, dos três no caminhão, não houve quem
topasse recontá-las.
Então, e finalmente, o terceiro engano: como
acidente.
Dele, do evento com o caminhão-baú,
saímos mais inteiros.
Nos meus óculos não houve danos. Em nenhum
osso de ninguém abriu fissura. Na morte próxima, nem rimos.
Pensando bem, conto deste modo que vou tentando
me lembrar, e com a ajuda do fígado. Mesmo agora, e já bem alegrinho.
Desviando da pirraça, retomo do ponto acima,
que retira do relato um qualquer ardil sem graça ꟷ quando me vi aterrado, já no
chão.
Deixemos o caminhão enfiado mato
adentro, naquela beira da que me escapam topografia, localização e a sintonia da
cabine.
Assentava bem feio aquilo, comigo mais
magoado pela ignorância do andamento do jogo do que pelas dores nas costelas e
na minha lateral esquerda, do ombro ao calcanhar.
Fosse lá o que fosse que dera por
perdido, menos acidentado que meio abobado pelo ocorrido, pôde tal presença.
Fez-se no ato.
Tirou o cigarro que trazia na orelha
esquerda. Descalçou a botina do pé esquerdo. Troçando-me abestado, coçou-se
todo como destro. Acocorado defronte, me fez conhecer o malcheiroso bafo do charuto.
Bem na minha cara, foi.
Sem que palavra fosse dita, entendi qual
mensagem.
Pois entendido, tremi. Porque pude instantaneamente
entendê-lo. Temi pela sanidade, dado alcançar o hediondo no escandaloso.
O sujeito veio que apareceu, sei não
para onde foi. Aquela pessoa descida até mim, que ela bem poderia ter ido a mais
fundo do que a minha compreensão suportasse. Aquela figura, caricatura de homem,
de chapelão de boiadeiro dos Confins, de dentro a dentro, desavinda.
Foi o que me fez. Pelo tanto, trouxe ao perturbado;
por muito forte, ao conturbado. Todavia torto cegueta.
Por suposto, e então, e nunca fora desse
instante.
Terá mesmo acontecido aquilo que aconteceu?
O medo que provém do medo deixa a
sequela do desastre. Diz o rastro do tornado visível pela ânsia do pouco visto,
no muito sentido.
Nunca mais retornei à Goiânia, lá
ficando ainda mais, que nunca ri a quem àquele mais ousasse pedi-lo em procuração.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 27 de dezembro de 2020.
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