quinta-feira, 24 de dezembro de 2020

Notícia do cão do mundo

 

Notícia do cão do mundo

 

Neste nosso planeta abarrotado de distâncias abissais, uma pulga pode pouco. Menos ainda essa aí que, naturalmente condicionada à sobrevivência, passa aos saltos por entre as mesas protocolarmente espaçadas. No presente histórico da alimentação desse nosso inseto, deselegante relatar que a sorte esteja ao nosso lado por nos abreviar à seguinte passagem:

Prefiro julgar a pintura pelas paredes que vejo, disse o homem.

Por tê-lo ouvido, a mulher fechou a cara.

Tanto ouviu que tratou de rechaçar com firmeza, dizendo que um estranho não permaneceria um dia a mais dentro da sua residência.

Por sua vez, educado ao ouvi-la, o provável marido destacou que o cidadão cometera o deslize de ir trabalhar cheirando a álcool; mas pela ressaca, não que estivesse bêbado.

Insistiu a suposta esposa na interdição do tal sujeito irresponsável; ficasse ele com o vício, bem longe dos vulneráveis filhos. Que fosse prestar os préstimos onde o aceitassem, por ignorância ou leniência. Ela tinha princípios e fazia questão de dar-lhes o crédito da prioridade sobre o que não punha fé. Portanto, exigia que as integridades física e moral, suas e as de seus filhos, fossem ambas respeitadas; e ponto final, posto que as duas eram inegociáveis.

O senhor de óculos, tirou-os, limpou-lhes as lentes com o paninho tirado do estojo próprio. Não se deixaria derrotar, porque via o mundo de olho nos resultados. Então, se as paredes estavam bem pintadas, sem emendas e sem apresentar camadas desiguais na espessura de tinta, por que, diabos, haveria de ficar caceteando o pobre coitado?

Pintura de parede não é a Santa Ceia, amada minha.

Por isso, vamos abrir mão do pincel de São Francisco? Meu bem, se acontecer alguma coisa, não quero saber de lamentações.

O quê? Meu anjo, espero me fazer entender... A nossa inestimável casa ficará agradável aos olhos, habitável como nova, boa de morar.

E se o desgraçado fumar um dos seus afamados charutos?

Não vou bater cinzeiros à cata de restos de algum Montecristo.

Santo Deus, não poderá o senhor ao menos dar-se ao trabalho de pensar como deve, como pai de suas crianças?

Amanhã cedo, amantíssima, antes mesmo que o dito cujo adentre nosso lar, e dou como sagradas as minhas palavras, farei a gentileza de checar os odores do homem. Isso lhe parece aceitável?

Constatada a embriaguez, faça o favor de barrar-lhe o acesso.

Em pleno Natal, Maria Aparecida?

Não seja covarde de usar o Natal como desculpa, José Augusto.

Cacilda!

Não abusemos da ingestão das atualidades, uma vez que os fatos caem indigestos pela sanidade das Festas.

Assim, dando pinceladas de realismo isolante, face estarmos bem próximos a tamanho abominável desamor, que em nossa pulga nem lhe faz ferver o sangue frio, celebremos sem desprezo.

Menos cínicos, apuramos o olfato ao buscarmos outro cão.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de dezembro de 2020.

Nenhum comentário:

Postar um comentário