terça-feira, 15 de dezembro de 2020

A nova guerra dos traquinas

 

A nova guerra dos traquinas

 

Interrompendo a aula logo no comecinho, o alvoroço do tropel veio porta adentro. Virando rolar no taco o bolo daqueles dois menores de nove anos, naquele terceiro dos nossos anos de grupo escolar.

Outros tempos eram aqueles, uma vez que dona Marinalva tinha o poder da autoridade sobre a classe, que, por seu hipnótico silêncio, a comovia instruir-nos àquele vira-vira de água em nuvem de gelo.

Entusiastas das lições que aprendiam, alunas e alunos amávamos testemunhar a professora passar dos escritos na lousa, manuscrita só em giz branco, aos enigmas das ciências, ainda muito mais científicos quando ministrados por aquela voz deveras em riste.

Dando sequência ao imbróglio desfeito pela mão enérgica daquela mestra incontestável, Joãozinho teve de exibir o copo suficientemente parado para não molhar o chão e Zequinha virava-se para manter útil a maçaroca de algodão sob o sopro inquebrantável do ventilador.

Em outras palavras, água líquida é rio corrente que o vidro amolda enquanto não viramos beber o conteúdo refrescante, já o ar que nem se percebe que respiramos tem orvalho que céu afora condensa.

Posto perante o colosso sapiencial da diplomada catedrática, esse nosso povo, humilde humano humilhado, desejava mesmo era ficar a par do que havia levado à rusga os truculentos coleguinhas.

Uns pintas-bravas bem truculentinhos, por sinal.

Não se pense que eles chegaram atrasados, de modo algum seus pais ousariam afrontar a escola. Ambos foram prontamente desviados da sala para ir tomar bronca na diretoria, porque haviam depredado o jardim recém-plantado à entrada do prédio.

A muda de pau-brasil emplacada no dia da árvore tinha de render uma fogueirinha incrível. Todavia acabou baldada a tentativa de atear fogo ao fiapinho de madeira.

Se fossem menos criadores de caso, eles saberiam que ninguém vira incendiário usando vareta úmida de verde.

Contudo, juntos arrancaram a plantinha do chão. Para fazê-la em pedaços, o filho de um causídico consagrado na comarca, João como o pai, usou seu canivete suíço. Para que pegassem fogo de uma vez os pedaços ajuntados, o neto de um dono de posto de gasolina jogou diesel em tudo. Cada qual da duplinha dos infernos descarregou sua caixa de fósforos.

Em vão, quiseram espetáculo; por mérito, ganharam atenção.

Sob ameaça de surra, sob pito trovejante ─ ficassem espertos.

No recreio, entraram na fila da canjica doce. Tornaram a entrar só pra desrespeitar a ordem de não repetir a merenda. E fizeram a festa jogando no lixo tudo o que pegaram, sem nem lamber os beiços.

Se foram dedurados?

Houve quem não os temesse. Houve quem não ficasse com medo de seus pais. Houve quem soubesse dar valor à comida. Havia quem não tinha o que comer em casa.

A moral que dá para tirar diz que não basta pôr a mão no fogo pro angu queimar o filme.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de dezembro de 2020.

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