domingo, 6 de dezembro de 2020

Em fogo brando

 

Em fogo brando

 

De novo, que sentido pode dar validade ao que uma pessoa faz?

Frustração neurótica, a isso não a mobiliza dar atenção, pois será especulação vulgar, com fundamentos no banal.

E banalidades matam. Ainda que orientem suspiros, podem matar poeticamente.

Poeticamente, a ponto de abandonar-se ao equívoco de não parar de insistir nessa aventura. De seguir sem notar que os caminhos que se bifurcam são os mesmos nós que prendem a paralisia.

Paralisam, sem petrificação. Pois tanto perturbam.

Então, o mal está na razão. E talvez esteja.

Assim, o perturbador está em delimitar até onde a razão alcança.

Posto que alcança, sustenta. E ampara, acolhe. Dá domicílio a si, à razão proporcional ao propositado. E se?

Mesmo que leve ao exagero, à loucura do desmedido, ao colapso da energia concentrada, é abismo que sorri, canta, a dançar.

O que a maioria das pessoas teme, assim mesmo, é que pede por aplauso ou vaia em quem arrisca, aposta e perde.

A brincadeira alegra e contenta precisamente por que está perdida desde o princípio?

Vem, compartilhe comigo a ternura que tenho esquecida em mim quando os momentos de angústia tocam a morte.

Hei de lembrar qual a chave para abrir a porta, dando franquia aos pensamentos fracos, que em meus instantes de desonestidade digo pertencerem a outro, a mais alguém, talvez àquele anônimo distraído em tremores. Pessoa que passa no lugar errado, na hora errada.

Trago na boca a alegria sem sorriso, já engessada pela dor, talvez me recorde do balanço ao lado da capela onde minhas faltas ficavam sérias, maiores que minha infância.

Vem, ando precisando de um ombro forte, firme, que me permita ver o mundo além das fotografias. Quero que me sustentem por mais um segundo, enquanto abro os olhos para a beleza de amar.

Ainda que muito me engane, não me quero um poeta sem poema, ou cão fechado no sufoco.

Diante da dor do filho enterrado, há esperança sem misericórdia?

Ainda disperso poderei pedir por mais ar, ainda assim terei portas abertas. Não porque a chave, o instrumento que mais preciso, venha de todo ser-me inútil por perdida, ou por jamais fabricada.

Algo além de mim faz-me abri-las. Mesmo que me falte o alívio de tê-las abertas, darei em igual medida amor ao desespero.

Vem, peço ao sol da solidão o menos abrasivo, o menos tórrido, o mais humano, o mais sustentável. Suportável e digno.

Vem, que a hora triste passe. Ainda que rasteje, passará.

Vem, embora espinhos firam-me a mão, quero oferecer a rosa que vou ainda colher.

Vem, o pouco que ofereço é-me do amor fonte singela.

Vem, que não dou por mim o melhor. Por melhor, o possível.

Vem, a hora é agora, bem na hora em que estou ficando pronto. E não prometo que estarei pronto, mas asseguro que poderei estar.

Vem, sigo acreditando que vou estar disponível ao encanto.

Vem, estou disposto, como café mantido aquecido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de dezembro de 2020.

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