domingo, 13 de dezembro de 2020

O caso da casa viva

 

O caso da casa viva

 

Havendo a vela acesa no quarto, que pinte o provável.

O que tem o chão? A concretude do mundo? A certeza da vida ao alcance dos sentidos? O chão parece mesmo estar fugindo?

Percebe um formigamento subindo desde a planta do pé. A coisa ganha o corpo mantendo a velocidade, passa pelo calcanhar. Segue arvorando-se, vai pela canela. Quando articula dobrar-se, galgando o joelho, morde uma polegada a mais. Bem na coxa, transfigurando-se sublimado, o clandestino aninha-se. Assim à tripa-forra, traz à luz sua morada ─ a mente em eclipse.

Como o quê, um espectro a sentir-se em casa?

Talvez aí resida o mistério.

Por que está acesa? Não poderia estar apagada? Assopra.

Só não usa a saliva no pavio apagado.

No escuro, acha melhor tê-la acesa. Onde pôs os fósforos? Anda esquecido. Por que terá deixado de pegá-los? Nem dá tempo, a vela acende por conta.

Terá enlouquecido do nada? Se não crê que possa, talvez esteja.

Já que fantasma existe apenas em universo paralelo, quem sabe a autocombustão aristotélica passe a servir de explicação.

Sim, já leu em algum canto: a insanidade faz alterada a percepção do corpo. Que parece diferente, já incapaz de medir distâncias. Ou as quinas dos móveis passaram a brincar.

Sonso, não estão a caçá-lo. Estão definindo o ambiente.

Pra experimentar o espaço, arreia os braços. Acuado no breu, não alcança tocar nada. Entretanto, cercado nas quinquilharias, as tantas topadas ilustram a sua falta de tato.

A casa como refúgio? O conforto do lar?

O caso é sério. Ou está inventando.

Quão perturbador viver em mundo novo de outro padrão.

Está terrivelmente só? Só se não contarem os hematomas...

As mãos estão cegas. Cego está o juízo que não ilumina sequer a vela que está resolvida a não ser afligida por dedos desgovernados.

Fácil dizer que está cego; mas que não vê, simples. Portanto, não conseguir ver não é o mesmo que cegueira.

Haja felicidade de não falar coisa com coisa, falando.

Não se lamenta por ater-se ao nó? Tchau, simplicidade.

Talvez pudesse chorar sem pensar nas circunstâncias; devesse a vela agir direito.

A luz da vela volta a minguar-se; o medo dobra o escuro.

Terá exagerado no macarrão à bolonhesa? Nem jantou.

Teria sono? Estava dormindo quando o jogo começou.

Desce da cama. A um palmo da porta, bate o joelho na folha.

Dispensada do calço, a folgada está entreaberta. Ora, e não venta nem ventou. Ora, pensando bem, nem precisa encontrar a razão.

Passado o afã de medir a empatia pela simpatia desprendida, não enfrentou responder se caberia à paixão calibrar o contrassenso pelo dissenso.

Haja realidade? Haja excesso de consumo de realidade.

Como vem dando mancada feito bobo, cabe alegar ter bebido uma caipirinha a mais... Ou pode ser loucura.

Sem nenhum motivo aparente, pegou-a.

Já na hora de ir?

Revelando-se noturno, o mundo canta os seus galos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2020.

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