O caso da casa viva
Havendo a vela acesa no quarto, que
pinte o provável.
O que tem o chão? A concretude do mundo?
A certeza da vida ao alcance dos sentidos? O chão parece mesmo estar fugindo?
Percebe um formigamento subindo desde a planta
do pé. A coisa ganha o corpo mantendo a velocidade, passa pelo calcanhar. Segue
arvorando-se, vai pela canela. Quando articula dobrar-se, galgando o joelho, morde
uma polegada a mais. Bem na coxa, transfigurando-se sublimado, o clandestino aninha-se.
Assim à tripa-forra, traz à luz sua morada ─ a mente em eclipse.
Como o quê, um espectro a sentir-se em
casa?
Talvez aí resida o mistério.
Por que está acesa? Não poderia estar
apagada? Assopra.
Só não usa a saliva no pavio apagado.
No escuro, acha melhor tê-la acesa. Onde
pôs os fósforos? Anda esquecido. Por que terá deixado de pegá-los? Nem dá
tempo, a vela acende por conta.
Terá enlouquecido do nada? Se não crê
que possa, talvez esteja.
Já que fantasma existe apenas em universo
paralelo, quem sabe a autocombustão aristotélica passe a servir de explicação.
Sim, já leu em algum canto: a insanidade
faz alterada a percepção do corpo. Que parece diferente, já incapaz de medir
distâncias. Ou as quinas dos móveis passaram a brincar.
Sonso, não estão a caçá-lo. Estão
definindo o ambiente.
Pra experimentar o espaço, arreia os
braços. Acuado no breu, não alcança tocar nada. Entretanto, cercado nas
quinquilharias, as tantas topadas ilustram a sua falta de tato.
A casa como refúgio? O conforto do lar?
O caso é sério. Ou está inventando.
Quão perturbador viver em mundo novo de
outro padrão.
Está terrivelmente só? Só se não
contarem os hematomas...
As mãos estão cegas. Cego está o juízo
que não ilumina sequer a vela que está resolvida a não ser afligida por dedos
desgovernados.
Fácil dizer que está cego; mas que não
vê, simples. Portanto, não conseguir ver não é o mesmo que cegueira.
Haja felicidade de não falar coisa com
coisa, falando.
Não se lamenta por ater-se ao nó? Tchau,
simplicidade.
Talvez pudesse chorar sem pensar nas circunstâncias;
devesse a vela agir direito.
A luz da vela volta a minguar-se; o medo
dobra o escuro.
Terá exagerado no macarrão à bolonhesa?
Nem jantou.
Teria sono? Estava dormindo quando o
jogo começou.
Desce da cama. A um palmo da porta, bate
o joelho na folha.
Dispensada do calço, a folgada está
entreaberta. Ora, e não venta nem ventou. Ora, pensando bem, nem precisa encontrar
a razão.
Passado o afã de medir a empatia pela
simpatia desprendida, não enfrentou responder se caberia à paixão calibrar o
contrassenso pelo dissenso.
Haja realidade? Haja excesso de consumo
de realidade.
Como vem dando mancada feito bobo, cabe
alegar ter bebido uma caipirinha a mais... Ou pode ser loucura.
Sem nenhum motivo aparente, pegou-a.
Já na hora de ir?
Revelando-se noturno, o mundo canta os seus
galos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 13 de dezembro de 2020.
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