quinta-feira, 10 de dezembro de 2020

A irmã

 

A irmã

 

Vibra de fundo, no peito. Do banal ao extraordinário, vibra. Em ser o que pergunta. A perguntar-se, corpo que pensa no que vibra.

Pessoa cuja existência faz-se consciência da presença.

E se não para de questionar-se, em que medida poderá mediar-se como intérprete de si?

Um tenso e tanto, intensifico-me ao identificar-me com sua verve, a animalidade em sua graciosidade.

Peço licença... Você tem persona de genuína formosura.

Invejo muitas das suas agudas virtudes; e viro pensar nas gentes aborrecidas que se aborrecem por bem pouco.

Posso moldar-me a partir dessa sua crônica cordialidade racional a instaurar um caminho, entre a remediada violência despudorada e a ácida resignação civilizada, poderei?

Dizem, digo: um modelo.

Você bem sabe que o pudor impede a mim a manifestação maior de apreço que faz da sua imagem um ídolo, que a posso imitá-la. De primeira hora, desde que passei a envaidecer-me tê-la visto na TV.

Brioso por sentir-me incluído na ciranda, mas o mistério não está em ficar assistindo. Há passos pra alegrar e tumultuar alegremente o esqueleto na dança, desde que dance inteiro corpo.

E preciso voltar sempre àquele depoimento. Nele há mal-estar, aí é que fica justificado repassar tal caminho, refazendo a travessia pela memória como história ao ser contada. Como guloseima, eterna.

Por um doce acaso da vida, Elisa tinha você por irmã.

Por um doce acaso do mundo, Tanya tinha você por irmã.

Sem nenhuma ironia, Elisa e Tanya tinham você em comum.

Pretenso mano. Tão humano... Que muito me engano.

Projeto-me, tenho o instinto. Protejo-me, tenho a intuição.

Faço-me resposta às perguntas que permaneço.

Não sossego, mobilizo-me. Anseio.

Da coisa do real à realidade da coisa?

À beleza, o amor.

Beleza é casca, ameaça de cicatrização, ferida que age latejante, virulenta, existência tocada quando sentida, e irremediável, cura.

Se não tem um senão?

Estava bebendo com amigos. Um deles abriu o coração, onde tem guardada a carteira. Com contas vencidas que não param de crescer, esse bom conhecido me convoca pra comprar-lhe uns livros.

É... Fui.

Embora impresso, bem apresentável, limpo de nódoas pegajosas, de odor aceitável, a maioria daquilo não atraía.

E... acontece.

Todos os contos. Todas as crônicas. Todas as cartas.

Bem poderia bancar a besta quadrada e sair dizendo que entendo. Mas não entendo, fico perdido. Desando a pensar. Anoto, risco. Volto a tomar nota, especulo. Palpito, e por escrito.

Queria sentir menos, mas me perco na sua escrita. Queria mesmo não erguer mais entrelinhas na linguagem, que a repagino labiríntica. Queria me sentir autorizado, mas seria ridícula a banalidade de dizer que a compreendo só pela leitura.

Surto de vez. Compro os três.

Terei cópias a mais pra em mim me cultivar um fiel leitor, pois não acredito que vou parar de comer mosca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2020.

 

 


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