A
irmã
Vibra de fundo, no peito. Do banal ao
extraordinário, vibra. Em ser o que pergunta. A perguntar-se, corpo que pensa no
que vibra.
Pessoa cuja existência faz-se
consciência da presença.
E se não para de questionar-se, em que
medida poderá mediar-se como intérprete de si?
Um tenso e tanto, intensifico-me ao
identificar-me com sua verve, a animalidade em sua graciosidade.
Peço licença... Você tem persona de genuína
formosura.
Invejo muitas das suas agudas virtudes;
e viro pensar nas gentes aborrecidas que se aborrecem por bem pouco.
Posso moldar-me a partir dessa sua crônica
cordialidade racional a instaurar um caminho, entre a remediada violência
despudorada e a ácida resignação civilizada, poderei?
Dizem, digo: um modelo.
Você bem sabe que o pudor impede a mim a
manifestação maior de apreço que faz da sua imagem um ídolo, que a posso imitá-la.
De primeira hora, desde que passei a envaidecer-me tê-la visto na TV.
Brioso por sentir-me incluído na
ciranda, mas o mistério não está em ficar assistindo. Há passos pra alegrar e
tumultuar alegremente o esqueleto na dança, desde que dance inteiro corpo.
E preciso voltar sempre àquele
depoimento. Nele há mal-estar, aí é que fica justificado repassar tal caminho,
refazendo a travessia pela memória como história ao ser contada. Como guloseima,
eterna.
Por um doce acaso da vida, Elisa tinha
você por irmã.
Por um doce acaso do mundo, Tanya tinha
você por irmã.
Sem nenhuma ironia, Elisa e Tanya tinham
você em comum.
Pretenso mano. Tão humano... Que muito
me engano.
Projeto-me, tenho o instinto. Protejo-me,
tenho a intuição.
Faço-me resposta às perguntas que
permaneço.
Não sossego, mobilizo-me. Anseio.
Da coisa do real à realidade da coisa?
À beleza, o amor.
Beleza é casca, ameaça de cicatrização,
ferida que age latejante, virulenta, existência tocada quando sentida, e irremediável,
cura.
Se não tem um senão?
Estava bebendo com amigos. Um deles
abriu o coração, onde tem guardada a carteira. Com contas vencidas que não
param de crescer, esse bom conhecido me convoca pra comprar-lhe uns livros.
É... Fui.
Embora impresso, bem apresentável, limpo
de nódoas pegajosas, de odor aceitável, a maioria daquilo não atraía.
E... acontece.
Todos os contos. Todas as crônicas. Todas as
cartas.
Bem poderia bancar a besta quadrada e
sair dizendo que entendo. Mas não entendo, fico perdido. Desando a pensar.
Anoto, risco. Volto a tomar nota, especulo. Palpito, e por escrito.
Queria sentir menos, mas me perco na sua
escrita. Queria mesmo não erguer mais entrelinhas na linguagem, que a repagino labiríntica.
Queria me sentir autorizado, mas seria ridícula a banalidade de dizer que a
compreendo só pela leitura.
Surto de vez. Compro os três.
Terei cópias a mais pra em mim me
cultivar um fiel leitor, pois não acredito que vou parar de comer mosca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 10 de dezembro de 2020.
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