terça-feira, 8 de dezembro de 2020

Coração noturno

 

Coração noturno

 

A noite está vigorando. O homem não sabe nem quer saber quais leis regem aquele funcionamento. Deitado no escuro do quarto, finge que sonha. Enquanto for sonhando, a noite seguirá intocável.

Sonhando, o homem pode ocupar-se com afazeres intermináveis, inadiáveis, incontornáveis. Em vez de delirar com maravilhas, o nosso homem, coitado, nem liga explicar os mecanismos do seu fastio.

Cada sonho traz dormências às suas angústias. E nenhum sonho se parece com outro. Embora possa haver confusão, tal essência não doma a realidade.

Sonhando que está acordado, o coitado nem percebe que emenda sonho em outro. Contraditório, o desânimo estimula-o a querer mais.

Tanto está viciado em sonhar que a sua vida já começa a perder o limite do que é real. Ou melhor, já está há tempos fora do pão, pão da vida que nem tem consciência do quanto de chão já tem andado.

Na rua, o lunático zanza mesmo pelo mundo da lua.

E porque curte viver acordado de olhos baços, o cidadão relapso pisa fundo num buraco. Pelo contratempo irritante, põe reparo que a chuvarada sugere ter algo errado no planeta.

Quando tira os pés daquela incongruência, bate a lama com tanta confiança que nem controla a mão frenética sem tempo pra tapar um buraco. E logo esse tão real?

Como toma a sério as opiniões, até ficar doente, prefere roncar. É por isso que nem especula sobre torcicolo, ou ronco.

Sua, e suado precisa dar um jeito.

Não irá deitar sem banho tomado. Porém, vai ingerir a janta bem devagar. E a TV será degustada prodigamente.

Naturalmente, não sendo médico nem ilusionista, dormirá.

Consegue; o quanto o corpo aguenta na posição única, de bruços.

Ainda estava escuro quando acordou. Viu-se incomodado pela dor na nuca. Todavia manteve os olhos fechados mesmo com ferroadas, e tantos sentimentos difusos.

Se não teria de acordar cedo, por que acabou deitando errado?

Queria ter o radar de andorinhas, pardais e maritacas, que sabem, com autonomia absurda, da alvorada desgarrando-se da noite.

Viria? Virá.

Ainda que pouco soubesse dos engenhos do universo, o homem que acorda tendo a si mesmo como um condenado ansioso suava em profusão.

Que coisa chata, suando no escuro. Cansativo.

Se a noite tem vez na ordem do universo, o corpo desconhece. As pupilas ignoram fronteiras, passaportes. Cansadas, as pálpebras não desdenham nem ironizam, querem mais sono. Precisam de sono.

Assim, o corpo suporta a passagem pra face diurna da vida.

Assim, a mente acorda o homem de mente que não dorme.

O homem tem razão de acordar abatido. Ignorante, nada sabe das necessidades simétricas, de longitudes e latitudes. O mundo erguido pela lógica talvez tenha sentido. Mas ele não se ouve.

Incompreensível ao homem que acordou na hora de sempre, feito relógio atento ao absurdo de saber-se operando no escuro, ele pensa que sonha, mas vive.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

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