terça-feira, 29 de dezembro de 2020

Semancol

 

Semancol

 

Sorrateiramente, a minha cabeça joga comigo sem que eu perceba que estou sendo manipulado. Diante do tumulto do mundo, com tanta história rolando ao mesmo tempo, paro para arrumar uma saída.

E como fazer para achá-la sem maiores complicações?

Para fazer bem feito, faço uma coisa de cada vez. Portanto, preciso priorizar. No entanto, a dedicação a algo pede o empenho da atenção à prioridade estabelecida. Assim, é questão de hierarquia. Mantenho o foco, procuro ficar alheio a distrações secundárias.

Entretanto, por estes dias, o meu poder de concentração da mente está baixo, fragilizado pela exposição a tanta barbaridade.

Haja calamidade sobre calamidade.

Ora, se ponho em dúvida a capacidade que não ando conseguindo exercer direito, a habilidade do autocontrole, isso pede mudança.

Certo, depende de mim o pensamento sadio.

Pra estar positivamente bem preciso de uma boa noite de sono.

Roncar eu ronquei, posso afirmar pela minha garganta seca que me condiciona a pigarros expectorantes. Toda vez que fico neste estado é evidente que dormi a sono largado. É sono que não troco por maratona alguma de seriadinho nórdico com assassinatos em série.

Rumino outras iluminações? Sei lá, pode até ser que seja isso.

Talvez por sugestão dessa palavra que vim a tomar conhecimento de repente, enfiada no meio de um texto que estava lendo pouco antes do almoço.

Qual fora o termo apresentado? Ruminol.

Ao ouvir a palavra, de imediato, gostei da sonoridade. Ao repeti-la, num átimo, engatei significados.

Parece uma bola, soa redonda, quica no chão e, depois de chutada com precisão, vira gol, um golaço. Com ruminol rimando com Gabigol.

É claro que pode sair coisa muito melhor.

Se tem um crime que ainda está sem culpado, aplique-se a química daquele Spray CSI e a luz negra confessa a eficiência científica de sua técnica. Sim, a polícia tem recursos que trazem justiça ao mundo.

Será possível?

Conforme fui investigando a semântica da coisa, o buscador foi me informando, pondo abaixo as minhas hipóteses. Adeus, fabulações.

Ou seja, ruminol não é bola nem aquele treco que permite realçar o sangue no escuro. Pois os peritos usam luminol.

Pela ordem natural das coisas, tiro a realidade do formol.

Então, feita a descoberta do significado, que ruminol é sinônimo de avalanche, poderei comer tranquilo, mastigando com calma, engolindo a comida sem outras preocupações.

De olho na hora, apago o fogo, faço o prato, sento pra almoçar. Só que, errando na dose, o miojo passou do ponto, está um grude.

Muito simples!

Pra não ter remorso pelo desperdício, papo a papa.

Sem complexo de simplificação, evito transformar uma ideia ridícula num pensamento estúpido, portanto não cometo a imbecilidade de dar como solucionado o mistério todo numa frase de efeito: viver fica difícil quando a vida não facilita.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

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