Semancol
Sorrateiramente, a minha cabeça joga
comigo sem que eu perceba que estou sendo manipulado. Diante do tumulto do
mundo, com tanta história rolando ao mesmo tempo, paro para arrumar uma saída.
E como fazer para achá-la sem maiores
complicações?
Para fazer bem feito, faço uma coisa de
cada vez. Portanto, preciso priorizar. No entanto, a dedicação a algo pede o
empenho da atenção à prioridade estabelecida. Assim, é questão de hierarquia. Mantenho
o foco, procuro ficar alheio a distrações secundárias.
Entretanto, por estes dias, o meu poder
de concentração da mente está baixo, fragilizado pela exposição a tanta
barbaridade.
Haja calamidade sobre calamidade.
Ora, se ponho em dúvida a capacidade que
não ando conseguindo exercer direito, a habilidade do autocontrole, isso pede
mudança.
Certo, depende de mim o pensamento sadio.
Pra estar positivamente bem preciso de
uma boa noite de sono.
Roncar eu ronquei, posso afirmar pela minha
garganta seca que me condiciona a pigarros expectorantes. Toda vez que fico
neste estado é evidente que dormi a sono largado. É sono que não troco por
maratona alguma de seriadinho nórdico com assassinatos em série.
Rumino outras iluminações? Sei lá, pode
até ser que seja isso.
Talvez por sugestão dessa palavra que
vim a tomar conhecimento de repente, enfiada no meio de um texto que estava
lendo pouco antes do almoço.
Qual fora o termo apresentado? Ruminol.
Ao ouvir a palavra, de imediato, gostei
da sonoridade. Ao repeti-la, num átimo, engatei significados.
Parece uma bola, soa redonda, quica no
chão e, depois de chutada com precisão, vira gol, um golaço. Com ruminol
rimando com Gabigol.
É claro que pode sair coisa muito melhor.
Se tem um crime que ainda está sem
culpado, aplique-se a química daquele Spray CSI e a luz negra confessa a
eficiência científica de sua técnica. Sim, a polícia tem recursos que trazem
justiça ao mundo.
Será possível?
Conforme fui investigando a semântica da
coisa, o buscador foi me informando, pondo abaixo as minhas hipóteses. Adeus,
fabulações.
Ou seja, ruminol não é bola nem aquele
treco que permite realçar o sangue no escuro. Pois os peritos usam luminol.
Pela ordem natural das coisas, tiro a
realidade do formol.
Então, feita a descoberta do
significado, que ruminol é sinônimo de avalanche, poderei comer
tranquilo, mastigando com calma, engolindo a comida sem outras preocupações.
De olho na hora, apago o fogo, faço o
prato, sento pra almoçar. Só que, errando na dose, o miojo passou do ponto, está
um grude.
Muito simples!
Pra não ter remorso pelo desperdício,
papo a papa.
Sem complexo de simplificação, evito
transformar uma ideia ridícula num pensamento estúpido, portanto não cometo a
imbecilidade de dar como solucionado o mistério todo numa frase de efeito:
viver fica difícil quando a vida não facilita.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de dezembro de 2020.
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