quinta-feira, 3 de dezembro de 2020

O mordomo

 

O mordomo

 

Sim, foi o mordomo.

Antes, contudo, de chegarmos ao culpado verdadeiro, façamos o percurso que começa justamente com aquele personagem que nos servirá, evidentemente, para que seja apresentada esta insofismável pergunta: quem haverá de ocupar-se a tempo do instante preciso?

Lá vai o sujeito.

Ele mantém o passo, apressado. Com contas pra pagar, mentiras pra sustentar, um estressado. Tem coisas mal postas, por resolver. E que mais ninguém meta o bedelho. É o único interessado apto a atar e desatar fatos e fotos.

Por isso, em virtude da pressa, em razão das ansiedades, tinha já motivos de sobra pra não querer que dessem palpite. Era camarada que fazia questão de disfarçar a cara enfezada, de gente atrasada.

Portanto, culpemos as bitucas e não o fumante que se livra delas.

Poderíamos culpar o cronista, porquanto ele faça entrar na crônica um parágrafo inteirinho só pra demonstrar que nada tem de centrado, com uma personalidade tola o bastante pra gracejos pueris.

Em outras palavras, vamos agir com condescendência e culpemos a cachola do escriba pelas fumaças pretensamente recreativas.

De passagem, voltemos nossa atenção para a sacola plástica, um típico veículo para transporte de mercadorias. Eis que ela está quieta na boca de um bueiro, só à espera da próxima chuva, que logo virá. Dá-se em exemplo de como barrar o fluxo pluvial, causando estrago, dor de cabeça, levando quem responsável a adiantar-se nas sinceras desculpas por transtornos prejuízos.

Destarte, menos pelo baixo custo e pela praticidade no manuseio, culpemos o polietileno pela durabilidade que torna maléfica a química industrial.

Agora, passemos a sopesar gravemente o temporal.

Empunhando sombrinha barata, discreta, sem estampa do Macho Invisível, equilibradamente em degradê ─ amarelo, laranja, vermelho; reforcemos o ponto, profundamente discreto, próprio a sutilezas.

Pessoa racional, a pedestre de tênis lilás usa a faixa de pedestres. Capaz de engolir a laranjada sem açúcar que o maninho prepara que nem café da manhã, de carimbar errada a data do futuro relatório que o chefe pede no grito, de sentar-se sozinha em ônibus vazio.

Por conseguinte, para que as palavras não rasguem cicatrizes no calçado, culpemos a flora estomacal pelo zíper na boca.

Como águas passadas só movem moinhos rio abaixo, ainda que a menor distância entre o ponto x e o ponto y seja uma reta, preferimos zanzar. Pra vir a casa a ser administrada com euforia?

Pra evitar que bagunceiros tomem a gerência, simplifiquemos, ou melhor, facilite-se a escolha: é sua.

Folgamos ouvi-lo, todavia, quando o mordomo elenca bebedores de café: os que fazem cara feia quando está frio; os que cospem na hora quando está pelando; os que pedem água natural.

Enfim, aqui ninguém falará:

─ Troque de lugar ou arrume quem assuma o figurino.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de dezembro de 2020.

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