O
mordomo
Sim, foi o mordomo.
Antes, contudo, de chegarmos ao culpado verdadeiro,
façamos o percurso que começa justamente com aquele personagem que nos servirá,
evidentemente, para que seja apresentada esta insofismável pergunta: quem
haverá de ocupar-se a tempo do instante preciso?
Lá vai o sujeito.
Ele mantém o passo, apressado. Com
contas pra pagar, mentiras pra sustentar, um estressado. Tem coisas mal postas,
por resolver. E que mais ninguém meta o bedelho. É o único interessado apto a
atar e desatar fatos e fotos.
Por isso, em virtude da pressa, em razão
das ansiedades, tinha já motivos de sobra pra não querer que dessem palpite. Era
camarada que fazia questão de disfarçar a cara enfezada, de gente atrasada.
Portanto, culpemos as bitucas e não o
fumante que se livra delas.
Poderíamos culpar o cronista, porquanto
ele faça entrar na crônica um parágrafo inteirinho só pra demonstrar que nada
tem de centrado, com uma personalidade tola o bastante pra gracejos pueris.
Em outras palavras, vamos agir com
condescendência e culpemos a cachola do escriba pelas fumaças pretensamente recreativas.
De passagem, voltemos nossa atenção para
a sacola plástica, um típico veículo para transporte de mercadorias. Eis que
ela está quieta na boca de um bueiro, só à espera da próxima chuva, que logo virá.
Dá-se em exemplo de como barrar o fluxo pluvial, causando estrago, dor de
cabeça, levando quem responsável a adiantar-se nas sinceras desculpas por
transtornos prejuízos.
Destarte, menos pelo baixo custo e pela
praticidade no manuseio, culpemos o polietileno pela durabilidade que torna maléfica
a química industrial.
Agora, passemos a sopesar gravemente o
temporal.
Empunhando sombrinha barata, discreta,
sem estampa do Macho Invisível, equilibradamente em degradê ─ amarelo, laranja,
vermelho; reforcemos o ponto, profundamente discreto, próprio a sutilezas.
Pessoa racional, a pedestre de tênis lilás
usa a faixa de pedestres. Capaz de engolir a laranjada sem açúcar que o maninho
prepara que nem café da manhã, de carimbar errada a data do futuro relatório
que o chefe pede no grito, de sentar-se sozinha em ônibus vazio.
Por conseguinte, para que as palavras não
rasguem cicatrizes no calçado, culpemos a flora estomacal pelo zíper na boca.
Como águas passadas só movem moinhos rio
abaixo, ainda que a menor distância entre o ponto x e o ponto y seja uma reta, preferimos
zanzar. Pra vir a casa a ser administrada com euforia?
Pra evitar que bagunceiros tomem a
gerência, simplifiquemos, ou melhor, facilite-se a escolha: é sua.
Folgamos ouvi-lo, todavia, quando o
mordomo elenca bebedores de café: os que fazem cara feia quando está frio; os
que cospem na hora quando está pelando; os que pedem água natural.
Enfim, aqui ninguém falará:
─ Troque de lugar ou arrume quem assuma o
figurino.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 03 de dezembro de 2020.