domingo, 22 de novembro de 2020

De fio a pavio

 

De fio a pavio

 

Sem que nada fosse dito, nem em verdade nem em justiça, o olho inquisidor pisca-piscava correções aos óculos.

Foi quando ela entrou, a mocinha. Foi pegando coisas. Foi pagar, já visível na lousa mental o produto de seus cálculos.

Alterava a ordem dos fatores de propósito, saboreando a diversão de seu domínio dos jogos aritméticos. Bem querendo podê-los dispor do modo como os arranjava, prazerosamente lúdica naquilo.

Ou seja, não se negava o prazer de sentir-se em plenitude com a vida, o mundo e consigo. Bom era estar sem rancores, numa boa.

Como gostava de sentir-se viva. Praticante da sabedoria que nem cobrava consciência de tudo, vezeira nas infidelidades a manuais pra tudo. Era pessoa cuja criatividade da existência estava em viver sua humanidade com a paixão pelo razoavelmente ilógico, fortuitamente incontrolável e insuportavelmente alegre. Porque a alegria de agir era sua febre de viver enquanto vivia, a viver-se intensa, vivíssima.

E veio desenvolta, certa de si, solta assim.

Foi bacana tê-la visto pegar suas notas e moedas, pondo certinho o valor da sua compra. Somou dez com dez, em duas notas, e juntou mais cinco, compondo cinquenta e cinco centavos com uma de vinte e cinco mais três de dez, destarte usando quatro moedinhas.

Foi aqui que retirou a tal moeda desta história, a de um real.

De fato. Que cabeça ligeira para tantos noves fora.

Quando a pessoa cobiça inventar o que não tem, fazendo-se obrar pelo intento, perde-se ao cobrar tal prêmio. Na ponta do lápis, o êxito azeda em fracasso. Incomoda honrar quem mereça o aplauso, que a vez pede pigarro grave, ouvidos moucos. Por distração cínica: presa à prenda da habilidade, a pessoa vira escrava a serviço do trabalho.

E não o contrário, logo se vê.

Vivo, logo... Logo? Logo nada.

De repente, nada acontecia. Nunca tinha feito nada, portanto ficou perdido. E perdido continuaria, querendo de novo fazer nada para dar jeito naquele nada. Porém nada acontece como esperado. Assim, fica renovada a esperança de conseguir hostilizar desejos, sem que nada o impeça de querer livrar-se daquele nada. É como se nada pudesse ser feito sem que nada fosse mesmo um nada.

E nada de mais? Talvez a resistência da existência ou a existência da resistência. E por que existe a criatividade que resiste?

Oito minutos sob mira lupina; tinha incólume a respiração. Achava nojento aquele ar de aprovação. Tinha que podar o constrangimento; já pegajoso o sorriso. E era o caso.

“Precisa a sola birrenta palmilhar o solo barrento... Ninguém desce ladeira íngreme sem ter subido costado agreste... Pendurado num ipê florido, pouco importa cadarço novo em tênis velho.”

Tornado odioso pela flagrante presença, o safado há de ficar sem a última palavra. Ela diz, uma vez que faz questão de ostentá-lo pelo devido, e definidor, calão:

─ Babaca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de novembro de 2020.

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