De
fio a pavio
Sem que nada fosse dito, nem em
verdade nem em justiça, o olho inquisidor pisca-piscava correções aos óculos.
Foi quando ela entrou, a mocinha. Foi
pegando coisas. Foi pagar, já visível na lousa mental o produto de seus cálculos.
Alterava a ordem dos fatores de
propósito, saboreando a diversão de seu domínio dos jogos aritméticos. Bem
querendo podê-los dispor do modo como os arranjava, prazerosamente lúdica
naquilo.
Ou seja, não se negava o prazer de
sentir-se em plenitude com a vida, o mundo e consigo. Bom era estar sem
rancores, numa boa.
Como gostava de sentir-se viva. Praticante
da sabedoria que nem cobrava consciência de tudo, vezeira nas infidelidades a
manuais pra tudo. Era pessoa cuja criatividade da existência estava em viver
sua humanidade com a paixão pelo razoavelmente ilógico, fortuitamente incontrolável
e insuportavelmente alegre. Porque a alegria de agir era sua febre de viver
enquanto vivia, a viver-se intensa, vivíssima.
E veio desenvolta, certa de si, solta
assim.
Foi bacana tê-la visto pegar suas
notas e moedas, pondo certinho o valor da sua compra. Somou dez com dez, em
duas notas, e juntou mais cinco, compondo cinquenta e cinco centavos com uma de
vinte e cinco mais três de dez, destarte usando quatro moedinhas.
Foi aqui que retirou a tal moeda desta
história, a de um real.
De fato. Que cabeça ligeira para tantos
noves fora.
Quando a pessoa cobiça inventar o que
não tem, fazendo-se obrar pelo intento, perde-se ao cobrar tal prêmio. Na ponta
do lápis, o êxito azeda em fracasso. Incomoda honrar quem mereça o aplauso, que
a vez pede pigarro grave, ouvidos moucos. Por distração cínica: presa à prenda
da habilidade, a pessoa vira escrava a serviço do trabalho.
E não o contrário, logo se vê.
Vivo, logo... Logo? Logo nada.
De repente, nada acontecia. Nunca
tinha feito nada, portanto ficou perdido. E perdido continuaria, querendo de
novo fazer nada para dar jeito naquele nada. Porém nada acontece como esperado.
Assim, fica renovada a esperança de conseguir hostilizar desejos, sem que nada o
impeça de querer livrar-se daquele nada. É como se nada pudesse ser feito sem
que nada fosse mesmo um nada.
E nada de mais? Talvez a resistência
da existência ou a existência da resistência. E por que existe a criatividade
que resiste?
Oito minutos sob mira lupina; tinha incólume
a respiração. Achava nojento aquele ar de aprovação. Tinha que podar o
constrangimento; já pegajoso o sorriso. E era o caso.
“Precisa a sola birrenta palmilhar o
solo barrento... Ninguém desce ladeira íngreme sem ter subido costado agreste...
Pendurado num ipê florido, pouco importa cadarço novo em tênis velho.”
Tornado odioso pela flagrante presença,
o safado há de ficar sem a última palavra. Ela diz, uma vez que faz questão de ostentá-lo
pelo devido, e definidor, calão:
─ Babaca.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 22 de novembro de 2020.
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