Tem
cada uma
Acordei e fui gestar o meu
desassossego, comprando bugigangas. Mas a gastança não melhorou meu espírito,
de astral insidiosamente negativo. Queria muito me desconvencer de que estava pro
gasto.
De repente, estou na seção de
laticínios, com a sua rica variedade de derivados, em toda forma e teor de
gordura. Mas encarar iogurtes e margarinas em nada contribui pra me alegrar.
Decididamente, estou fora da família feliz que os comerciais mostram tão
amistosa.
Mesmo à beira do abismo, pensarei.
Pessoas afortunadas cantam e dançam; lembram-se de... Entre a dor e a cicatriz,
há quem celebre. Como a memória cutuca, volto ao abismo. Estará a me fixar relapso?
Quando a mão alcança a porta da
geladeira, palpito. Olho marcas. Quero uma que não tenha sal. Confiro preços. Chego
a salivar, tenho escolha. Por isso, dou as costas. Sorrio.
Sorrindo, vou ao último item: pizza.
Quero calabresa ou muçarela. Sorrindo,
pego uma de cada.
Assim como artesão que sabe das coisas
de sua arte, aquele que trabalha a madeira pra moldá-la ícone ou cadeira, hei
de gozar.
Quem precisa dormir pra sonhar dá-me
ganas de pegá-lo à unha.
Seguro o cuspo. Por falso hipócrita, ou
cínico.
A ânsia não cria rio algum. Há rio
cuja vazante faz matar castores, embora o estágio da lua não favoreça ou convenha
ao azo.
Um dos olhos me irrita. Embora pouco
explique ou nem se aplique ao caso: há cantores que compõem; há compositores
que bailam; há bailarinos que cantam. Juro, não estou febril.
Queria comer em paz. Tenho razão, até
poderia.
Durante a partida entre Fortaleza e
São Paulo no último sábado, a pizza foi comida e o refrigerante, bebido. Se
desde o princípio a pizza estava fria, adoravelmente o guaraná continuou
gelado.
Antes de soltar o sono, precisei
gargarejar. A boca pedia.
O espelho não fez nenhuma pergunta
problemática, permaneceu fiel ao propósito de refletir: quem não o encafifa, a
querer solução pra perplexidade desnorteante?
Não quero pensar no sorriso que me
acompanha. Se pensasse, ia acabar por me condenar à vulgaridade, à tolice, à
banalidade de ter o entendimento de mim como outro bobalhão às vésperas da
eleição.
O fio que limpa o vão entre os dentes
bem pode suportar o desafio de dar trânsito da beirada à outra. Do abismo de pular
da margarina ao abismo de engolir as palavras muito úteis ─ a luz não pisca.
Com traços de insânia, meus olhos me
desprezavam. E pelo quê? Vi a torneira aberta, escutei o fluxo da água e deixei
corrente a água que não sei quanto custa. Cometo desperdícios relevantes.
Vou salvar o dia? Irei votar. Acenarei
pro vizinho que acenar. Vou sorrir. Preciso aparentar moderação. Irei votar mantendo
a prudência: com a máscara e a justiça socialmente apropriadas.
Só agora, meia-noite, meu estômago diz
que teria sido melhor um miojinho?
O sorriso arisco não amansa nem com
sal de fruta.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 19 de novembro de 2020.
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