quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Tem cada uma

 

Tem cada uma

 

Acordei e fui gestar o meu desassossego, comprando bugigangas. Mas a gastança não melhorou meu espírito, de astral insidiosamente negativo. Queria muito me desconvencer de que estava pro gasto.

De repente, estou na seção de laticínios, com a sua rica variedade de derivados, em toda forma e teor de gordura. Mas encarar iogurtes e margarinas em nada contribui pra me alegrar. Decididamente, estou fora da família feliz que os comerciais mostram tão amistosa.

Mesmo à beira do abismo, pensarei. Pessoas afortunadas cantam e dançam; lembram-se de... Entre a dor e a cicatriz, há quem celebre. Como a memória cutuca, volto ao abismo. Estará a me fixar relapso?

Quando a mão alcança a porta da geladeira, palpito. Olho marcas. Quero uma que não tenha sal. Confiro preços. Chego a salivar, tenho escolha. Por isso, dou as costas. Sorrio.

Sorrindo, vou ao último item: pizza.

Quero calabresa ou muçarela. Sorrindo, pego uma de cada.

Assim como artesão que sabe das coisas de sua arte, aquele que trabalha a madeira pra moldá-la ícone ou cadeira, hei de gozar.

Quem precisa dormir pra sonhar dá-me ganas de pegá-lo à unha.

Seguro o cuspo. Por falso hipócrita, ou cínico.

A ânsia não cria rio algum. Há rio cuja vazante faz matar castores, embora o estágio da lua não favoreça ou convenha ao azo.

Um dos olhos me irrita. Embora pouco explique ou nem se aplique ao caso: há cantores que compõem; há compositores que bailam; há bailarinos que cantam. Juro, não estou febril.

Queria comer em paz. Tenho razão, até poderia.

Durante a partida entre Fortaleza e São Paulo no último sábado, a pizza foi comida e o refrigerante, bebido. Se desde o princípio a pizza estava fria, adoravelmente o guaraná continuou gelado.

Antes de soltar o sono, precisei gargarejar. A boca pedia.

O espelho não fez nenhuma pergunta problemática, permaneceu fiel ao propósito de refletir: quem não o encafifa, a querer solução pra perplexidade desnorteante?

Não quero pensar no sorriso que me acompanha. Se pensasse, ia acabar por me condenar à vulgaridade, à tolice, à banalidade de ter o entendimento de mim como outro bobalhão às vésperas da eleição.

O fio que limpa o vão entre os dentes bem pode suportar o desafio de dar trânsito da beirada à outra. Do abismo de pular da margarina ao abismo de engolir as palavras muito úteis ─ a luz não pisca.

Com traços de insânia, meus olhos me desprezavam. E pelo quê? Vi a torneira aberta, escutei o fluxo da água e deixei corrente a água que não sei quanto custa. Cometo desperdícios relevantes.

Vou salvar o dia? Irei votar. Acenarei pro vizinho que acenar. Vou sorrir. Preciso aparentar moderação. Irei votar mantendo a prudência: com a máscara e a justiça socialmente apropriadas.

Só agora, meia-noite, meu estômago diz que teria sido melhor um miojinho?

O sorriso arisco não amansa nem com sal de fruta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de novembro de 2020.


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