terça-feira, 24 de novembro de 2020

O país que não existe

 

O país que não existe

 

No monólogo monomaníaco monoglota, a ladina ladainha ladravaz não dá rum na fonte nem ouvidos à zaragata das maritacas. Dará, ao menos, em bafafá? Sei lá, camará.

Vem a norma bendizer qual normalidade? Bem real é maldizer da realidade. Embora pense dispensável passar o tempo, passa mal. Por idealismo, sem escassez, compensa-se com o material. E haja geleia no miolo do pão. Afinal, nem para quieto ao fazer silêncio.

E vai fechando porta após porta, sem pular nenhuma. Fecha-as ─ às vezes, sereno, compadecendo-se com a ciência do ato; e noutras, espeloteado, espalhafatoso; ainda, contrariado, livrando-se.

O futuro são portas. Incômodas. Atrevidas. Aterradoras. É desafio a quem tem mais o que desvelar. São muitas, e muito ridículas.

Abrir portas ridículas faz ridículo quem ama abri-las no capricho. A cara de quem teme acabar se lambuzando. Aquela fuça que deixa a gota de mel (sopa ou chope) subir pelas tabelas.

Também ridícula fica a pessoa que despreza abrir a quem ridículo. Pra não ficar a ver navios quando o mar não está pra peixe, não ri por último. Ainda que ultimamente nem dê pro cheiro, torra a terra.

Põe fogo na palmeira onde cantava há pouco um sabiá campeiro. Come poeira, pois o arroz deu no pé. Vende a alma ao diabo, dando crédito ao miserável. Assina cheque em branco, pois tem funcionando as digitais. Todavia, a rato empalhado cabe sorrir canhoto?

Pensa, mas pensa com ponderação. Tratando frear o ímpeto, quer cortar o barato pela raiz. É barata, a bravata da praga na praça.

A primeira porta? Se não está atrás nem está vindo de frente, está no ponto de encontro, aguardando que a retaguarda vire vanguarda.

Nem todo evento vira fato? Fumaça queima a foto.

Onde terceiros, de primeira, jamais se dizem de segunda?

No país que não existe.

No país que não existe, enxerga longe quem nunca chega perto.

No país que não existe, sobra chão para cova rasa.

No país que não existe, não mata a sede a água que afoga.

No país que não existe, vale mais o coice que a foice.

No país que não existe, a fome alimenta-se dos famintos.

No país que não existe, o leviano pega leve no pesado.

No país que não existe, a mão que afana não abana, abona-se.

No país que não existe, demora acordar quem anda acordado.

Com tempo de sobra para chegar atrasado, há quem se culpe por passar do ponto ao confessar o que for preciso pra ajustar-se à hora?

Primeiro, anote-se: foi um engano.

Segundo, aponte-se: foi um erro terrível.

Terceiro, aporte-se: foi um pecado horrível.

Quarto, reporte-se: foi um ato vergonhoso.

Quinto, comporte-se: foi um fato vergonhosamente doloroso.

Sexto, reconforte-se: foi um castigo e tanto dar legitimidade à dor que nem parece ter sentido por acaso.

De cabo a rabo?

Quando o que vem depois do final já está decidido desde antes do começo, é melhor abrir de vez a janela escancarada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de novembro de 2020.

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