O
país que não existe
No monólogo monomaníaco monoglota, a
ladina ladainha ladravaz não dá rum na fonte nem ouvidos à zaragata das
maritacas. Dará, ao menos, em bafafá? Sei lá, camará.
Vem a norma bendizer qual normalidade?
Bem real é maldizer da realidade. Embora pense dispensável passar o tempo, passa
mal. Por idealismo, sem escassez, compensa-se com o material. E haja geleia no
miolo do pão. Afinal, nem para quieto ao fazer silêncio.
E vai fechando porta após porta, sem
pular nenhuma. Fecha-as ─ às vezes, sereno, compadecendo-se com a ciência do
ato; e noutras, espeloteado, espalhafatoso; ainda, contrariado, livrando-se.
O futuro são portas. Incômodas. Atrevidas.
Aterradoras. É desafio a quem tem mais o que desvelar. São muitas, e muito ridículas.
Abrir portas ridículas faz ridículo
quem ama abri-las no capricho. A cara de quem teme acabar se lambuzando. Aquela
fuça que deixa a gota de mel (sopa ou chope) subir pelas tabelas.
Também ridícula fica a pessoa que
despreza abrir a quem ridículo. Pra não ficar a ver navios quando o mar não
está pra peixe, não ri por último. Ainda que ultimamente nem dê pro cheiro,
torra a terra.
Põe fogo na palmeira onde cantava há
pouco um sabiá campeiro. Come poeira, pois o arroz deu no pé. Vende a alma ao diabo,
dando crédito ao miserável. Assina cheque em branco, pois tem funcionando as
digitais. Todavia, a rato empalhado cabe sorrir canhoto?
Pensa, mas pensa com ponderação.
Tratando frear o ímpeto, quer cortar o barato pela raiz. É barata, a bravata da
praga na praça.
A primeira porta? Se não está atrás
nem está vindo de frente, está no ponto de encontro, aguardando que a
retaguarda vire vanguarda.
Nem todo evento vira fato? Fumaça
queima a foto.
Onde terceiros, de primeira, jamais se
dizem de segunda?
No país que não existe.
No país que não existe, enxerga longe
quem nunca chega perto.
No país que não existe, sobra chão para
cova rasa.
No país que não existe, não mata a
sede a água que afoga.
No país que não existe, vale mais o
coice que a foice.
No país que não existe, a fome
alimenta-se dos famintos.
No país que não existe, o leviano pega
leve no pesado.
No país que não existe, a mão que
afana não abana, abona-se.
No país que não existe, demora acordar
quem anda acordado.
Com tempo de sobra para chegar atrasado,
há quem se culpe por passar do ponto ao confessar o que for preciso pra ajustar-se
à hora?
Primeiro, anote-se: foi um engano.
Segundo, aponte-se: foi um erro
terrível.
Terceiro, aporte-se: foi um pecado
horrível.
Quarto, reporte-se: foi um ato vergonhoso.
Quinto, comporte-se: foi um fato
vergonhosamente doloroso.
Sexto, reconforte-se: foi um castigo e
tanto dar legitimidade à dor que nem parece ter sentido por acaso.
De cabo a rabo?
Quando o que vem depois do final já
está decidido desde antes do começo, é melhor abrir de vez a janela
escancarada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 24 de novembro de 2020.
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