quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Na maciota

 

Na maciota

 

Chamaremos democracia o trabalho contínuo de: transformar uma sociedade em uma comunidade; dar uma nação à pátria; apresentar caminhos, contraditórios ou conflitantes, à nacionalidade comum que sonha e produz a si como aos demais, sejam atalhos, sejam desvios.

Portanto, política.

Chamaremos democrata a quem deposita no voto sua esperança dessa transfiguração.

Ousemos discordar, enquanto em nosso coração houver um olho d'água a saciar ─ a tal sede fundamental, já antiga, já ancestral, que do início obscuro ao fim imponderável, tem bocas sedentas, as bocas de outros e não apenas a nossa.

Portanto, cidadã.

Pensemos por nós o que em nós temos por pensar.

Ousemos ouvir as razões de nosso coração. Tenhamos por utopia saber que pensamentos cordiais, no entanto, podem barrar o sangue, impedindo a oxigenação ali onde seja necessária a utilidade, lá onde o orgânico lixo interno natural e precisamente seja transformado.

Portanto, ética.

Assim, vivamos confluentes e afluentes ─ mente e músculos; mão e cirandas; aplausos ou barreira.

Ou haveremos de perecer, tal qual flor depositada na pedra, chuva a lavrar o mineral da jornada, morte em vida.

No entanto, não sustentemos ilusões, não queiramos que o futuro teletransporte o passado por meio da urna eletrônica.

Voto como veículo do imóvel?

É aqui que olho a hora, tiro o cavalinho da chuva. Tenho tanto pra fazer. Corro ganhar o dia. Ou seguirei metido a besta, dizendo o que sei pouco; ou, de mal a pior, ficarei enrolado quase o dia todo.

Não me ausento de mim quando admito as faltas?

Não darei adiada a ventura de um amor, que me traduza em febre a comoção de uma falta. Porque na falta inteiro-me de mim: pessoa, pelo tanto de humanidade que possa a vir completar o ser vivo que penso, pondero e delibero. E agindo em meu nome passo ao mundo a identidade das minhas vontades, umas explícitas e tantas supostas.

Portanto, admito as minhas carências.

Já o caráter ponho em meus segredos? Ou faço de conta?

Muito me escondo ao me revelar na articulação de satisfações e frustrações, pois ajo e reajo em pensamento e palavras, faço-me por lágrimas e risos, e mesmo, até e ainda, por desdéns e felicitações.

Nada disso, no entanto, impede-me de admitir cansaço.

Assumo que o fastio tira de mim o entusiasmo pelos feitos de cada dia. Das grandes e das pequenas conquistas, é por elas que a tibieza mostra-me exaurido, explorado pelo outro e por mim.

E pelas consequências dos efeitos, como público de mim, produzo expectativas. Ator a improvisar diuturnamente, ininterruptamente, sem dar ou tirar folga, de mim e a outrem.

Mas isso cansa, embota o juízo, põe desconfiança na mente e faz dos nervos corda bamba. A vida, então e assim, passa o tempo, dá o passo a seguir. A realidade criva meus os seus abismos.

Se temo um passo em falso?

Trato de trotar, portanto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de novembro de 2020.

 

 

 

 

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