Na
maciota
Chamaremos democracia o trabalho
contínuo de: transformar uma sociedade em uma comunidade; dar uma nação à
pátria; apresentar caminhos, contraditórios ou conflitantes, à nacionalidade
comum que sonha e produz a si como aos demais, sejam atalhos, sejam desvios.
Portanto, política.
Chamaremos democrata a quem deposita no
voto sua esperança dessa transfiguração.
Ousemos discordar, enquanto em nosso
coração houver um olho d'água a saciar ─ a tal sede fundamental, já antiga, já
ancestral, que do início obscuro ao fim imponderável, tem bocas sedentas, as
bocas de outros e não apenas a nossa.
Portanto, cidadã.
Pensemos por nós o que em nós temos por
pensar.
Ousemos ouvir as razões de nosso
coração. Tenhamos por utopia saber que pensamentos cordiais, no entanto, podem
barrar o sangue, impedindo a oxigenação ali onde seja necessária a utilidade,
lá onde o orgânico lixo interno natural e precisamente seja transformado.
Portanto, ética.
Assim, vivamos confluentes e afluentes ─
mente e músculos; mão e cirandas; aplausos ou barreira.
Ou haveremos de perecer, tal qual flor
depositada na pedra, chuva a lavrar o mineral da jornada, morte em vida.
No entanto, não sustentemos ilusões, não
queiramos que o futuro teletransporte o passado por meio da urna eletrônica.
Voto como veículo do imóvel?
É aqui que olho a hora, tiro o cavalinho
da chuva. Tenho tanto pra fazer. Corro ganhar o dia. Ou seguirei metido a
besta, dizendo o que sei pouco; ou, de mal a pior, ficarei enrolado quase o dia
todo.
Não me ausento de mim quando admito as
faltas?
Não darei adiada a ventura de um amor,
que me traduza em febre a comoção de uma falta. Porque na falta inteiro-me de
mim: pessoa, pelo tanto de humanidade que possa a vir completar o ser vivo que
penso, pondero e delibero. E agindo em meu nome passo ao mundo a identidade das
minhas vontades, umas explícitas e tantas supostas.
Portanto, admito as minhas carências.
Já o caráter ponho em meus segredos? Ou
faço de conta?
Muito me escondo ao me revelar na
articulação de satisfações e frustrações, pois ajo e reajo em pensamento e
palavras, faço-me por lágrimas e risos, e mesmo, até e ainda, por desdéns e
felicitações.
Nada disso, no entanto, impede-me de
admitir cansaço.
Assumo que o fastio tira de mim o
entusiasmo pelos feitos de cada dia. Das grandes e das pequenas conquistas, é
por elas que a tibieza mostra-me exaurido, explorado pelo outro e por mim.
E pelas consequências dos efeitos, como
público de mim, produzo expectativas. Ator a improvisar diuturnamente,
ininterruptamente, sem dar ou tirar folga, de mim e a outrem.
Mas isso cansa, embota o juízo, põe
desconfiança na mente e faz dos nervos corda bamba. A vida, então e assim,
passa o tempo, dá o passo a seguir. A realidade criva meus os seus abismos.
Se temo um passo em falso?
Trato de trotar, portanto.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 26 de novembro de 2020.
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