Um achado
Era meia-noite. Outra vez,
era.
E quando se faz
meia-noite, e de novo se faz outra vez como todo dia isso acontece, o homem que
não dorme está sentado no escuro, no chão da sala, com as costas protegidas
pelos livros da estante.
Pode tê-las escoradas, sem
que isso o faça feliz, sequer satisfeito consigo ou com o mundo que o seu labor
fabrica e produz.
Todavia imprudente,
deixa-se levar por uma lembrança.
Pensa que dali a pouco, se
parar de pensar no tempo que custa a passar exatamente à medida que não pensa
em outra coisa, vai ouvir a mulher do prédio em frente cantar. Com alguma
alegria, ela cantará.
Naquela sua melancólica
alegria de cantar tranquilizada. Naquele tranquilizado canto de pessoa acabada
de acordar.
Por volta das seis da
manhã, virá cantar até a quem só a ouça.
Se se deixar levar, pensa
que poderá ficar sereno também lá pelas seis horas. Enfim, de alguma maneira
menos angustiante, ele mesmo deseja chegar à serenidade. Pretende ouvir alguém
cuja tranquilidade possa causar forte impressão a quem, como ele, disposto a
aceitar-se sujeito às interferências do mundo. Do mundo que vive o seu mistério
sem buscar razões para tal existência, bastando-se em existir.
Então, quando a estiver ouvindo,
talvez consiga ouvi-la cantar sem a preocupação de estar sendo inconveniente,
como se, àquela altura da noite, a solidão induzisse-o a ficar só.
E mesmo tomando café
gelado, segue só.
Provoca um desalento
qualquer ter de ficar sentado na escuridão da sala sabendo que ali perto há aquela
pessoa ocupada em viver a própria vida. Ela vive, e cantará.
Ao ouvi-la cantar, ele poderia
admitir seu contentamento de querer ouvir a outra mulher, àquela que não vive
sozinha no apartamento ao lado. Embora essa mais próxima não cante e, pelo
tanto de calmaria, sequer assobie, ela poderia compartilhar a noite imóvel.
E sem que se perceba, aquela
madrugada avança.
Sem saber lidar com este
desejo que não o faz consciente de que esta força insondável é que o faz
insone, ele masca a saliva.
E prefere ficar na
estupidez de seguir mascando o cuspe, até que possa pensar em passar o café. Na
hora certa da rotina, pensará no prazer inadiável. Como se fosse um alívio, que
tomar um gole de café acabado de passar possa pacificá-lo. Antes de pegar no
batente.
Assim, distraído de si, a
hora da alegria está mais próxima, porque se permite imaginar ouvindo a mulher
vizinha. Quem sabe ela atenda o telefone que anda tocando mais vezes do que o
normal.
Desde que tem companhia no
apartamento, o celular também tem tocado bem mais vezes. E chega a pensar que o
seu telefone parecia tocar como o da sumida que guarda distância já faz um
tempo.
Então, na alvorada que o
canto do outro lado da rua anuncia, à flor do espelho, o cara assombrado persigna-se:
poderia ter marcado sem soprar quais as suas sete dezenas da Mega da Virada.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2020.