terça-feira, 1 de dezembro de 2020

Um achado

 

Um achado

 

Era meia-noite. Outra vez, era.

E quando se faz meia-noite, e de novo se faz outra vez como todo dia isso acontece, o homem que não dorme está sentado no escuro, no chão da sala, com as costas protegidas pelos livros da estante.

Pode tê-las escoradas, sem que isso o faça feliz, sequer satisfeito consigo ou com o mundo que o seu labor fabrica e produz.

Todavia imprudente, deixa-se levar por uma lembrança.

Pensa que dali a pouco, se parar de pensar no tempo que custa a passar exatamente à medida que não pensa em outra coisa, vai ouvir a mulher do prédio em frente cantar. Com alguma alegria, ela cantará.

Naquela sua melancólica alegria de cantar tranquilizada. Naquele tranquilizado canto de pessoa acabada de acordar.

Por volta das seis da manhã, virá cantar até a quem só a ouça.

Se se deixar levar, pensa que poderá ficar sereno também lá pelas seis horas. Enfim, de alguma maneira menos angustiante, ele mesmo deseja chegar à serenidade. Pretende ouvir alguém cuja tranquilidade possa causar forte impressão a quem, como ele, disposto a aceitar-se sujeito às interferências do mundo. Do mundo que vive o seu mistério sem buscar razões para tal existência, bastando-se em existir.

Então, quando a estiver ouvindo, talvez consiga ouvi-la cantar sem a preocupação de estar sendo inconveniente, como se, àquela altura da noite, a solidão induzisse-o a ficar só.

E mesmo tomando café gelado, segue só.

Provoca um desalento qualquer ter de ficar sentado na escuridão da sala sabendo que ali perto há aquela pessoa ocupada em viver a própria vida. Ela vive, e cantará.

Ao ouvi-la cantar, ele poderia admitir seu contentamento de querer ouvir a outra mulher, àquela que não vive sozinha no apartamento ao lado. Embora essa mais próxima não cante e, pelo tanto de calmaria, sequer assobie, ela poderia compartilhar a noite imóvel.

E sem que se perceba, aquela madrugada avança.

Sem saber lidar com este desejo que não o faz consciente de que esta força insondável é que o faz insone, ele masca a saliva.

E prefere ficar na estupidez de seguir mascando o cuspe, até que possa pensar em passar o café. Na hora certa da rotina, pensará no prazer inadiável. Como se fosse um alívio, que tomar um gole de café acabado de passar possa pacificá-lo. Antes de pegar no batente.

Assim, distraído de si, a hora da alegria está mais próxima, porque se permite imaginar ouvindo a mulher vizinha. Quem sabe ela atenda o telefone que anda tocando mais vezes do que o normal.

Desde que tem companhia no apartamento, o celular também tem tocado bem mais vezes. E chega a pensar que o seu telefone parecia tocar como o da sumida que guarda distância já faz um tempo.

Então, na alvorada que o canto do outro lado da rua anuncia, à flor do espelho, o cara assombrado persigna-se: poderia ter marcado sem soprar quais as suas sete dezenas da Mega da Virada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de dezembro de 2020.

domingo, 29 de novembro de 2020

Fatos pingados

 

Fatos pingados

 

Moro vizinho a um casal com gatos. Ali, os gatos são dois: Tales e Nina. Assim como os bichanos, tenho minhas idiossincrasias, dentre as quais ganham destaque a quietude do primeiro e o atrevimento da segunda. Observo, arrisco meus pulos. Atrevido, meço alturas só pelo olhar. Sereno, aceito testemunharem a atuação.

Se não mio nem ronrono, mostro ter garra. Feito Fabiana Murer ou João do Pulo. E vou fazendo que nem noto: salto distâncias, correndo pro abraço, sem pular obstáculos.

E gingo ao tomar impulso?

No ano do Tetra na Terra do Tio Sam, em 1994, estive em Curitiba pela primeira vez. E lá estive como quem descobre a América, que foi aí que as ruas educaram-me pra política da escuta.

Nada tinha me preparado pra tamanho impacto. Por isso venho da Rua das Flores, volto da Boca Maldita, sigo vindo desse meu primeiro ato consciente de escuta. Aprendi exercer o meu direito de escutar o que diz quem fala.

E foi naquele ponto nevralgicamente político no centro da capital paranaense que ouvi um cidadão praticar o humano desejo de pensar em voz alta. Como flor drummondiana, no meio do caminho, na praça de convites, a máquina do mundo se entreabriu a este ser faminto de seres e situações patéticas, e agora?

Há um lugar em comum, a praça.

Gosto de estar numa praça em comum, vindo da infância. Minha infância, essa não para de crescer. Segue firme no passado móvel, a torná-la novinha em folha, já uma página bem transfigurada. E posso admitir ter queda pra lugar que se faz novo a cada vez que se olha.

Tenho memória impressionável.

Se a memória convida a mergulhos terapêuticos?

Quem se joga no tanque da memória percebe que uma parte tem gosto de alga gelada e outra de carpa morta.

Com tanta ponte com tara pra viaduto, melhor boiar noutro rio?

Insisto falar da praça, do chafariz que já não há. Porque houveram por mal desfazê-la, tirar o piso e legar ao mundo um buraco. Quando a água empoça, há luta. Pra não parar, virar verde fétido? Luta-se.

Um sol firme torna insuportável recordar a fonte removida. Porque há vaidade que corrói, causa remorso, faz ferver o sentimento de não ter algo em comum com os vizinhos.

E a sociedade está dividida em pessoas com dinheiro e sem. Por sua vez, pessoas têm muito ou pouco dinheiro. E pessoas com muito dinheiro podem ter apartamento de frente pro mar do Leblon ou casa avarandada pra serra atlântica de Monte Verde. E quem tem dinheiro, muito dinheiro, não tem apenas apartamento no Leblon nem somente casa em Monte Verde, tem ambos; e embora passe pela necessidade de oito horas de sono, convive com monstros embaixo da cama.

Sim, é aterrador ter monstros em comum com gente incomum.

E lé com cré dá?

Tales e Nina não são monstros, são gatos. Há quem admire gatos, achando-os muito gatos. Há quem confunda gatice com gatunice. Pro duplo carpado apoteótico: Baggio ou Boulos?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de novembro de 2020.

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

Na maciota

 

Na maciota

 

Chamaremos democracia o trabalho contínuo de: transformar uma sociedade em uma comunidade; dar uma nação à pátria; apresentar caminhos, contraditórios ou conflitantes, à nacionalidade comum que sonha e produz a si como aos demais, sejam atalhos, sejam desvios.

Portanto, política.

Chamaremos democrata a quem deposita no voto sua esperança dessa transfiguração.

Ousemos discordar, enquanto em nosso coração houver um olho d'água a saciar ─ a tal sede fundamental, já antiga, já ancestral, que do início obscuro ao fim imponderável, tem bocas sedentas, as bocas de outros e não apenas a nossa.

Portanto, cidadã.

Pensemos por nós o que em nós temos por pensar.

Ousemos ouvir as razões de nosso coração. Tenhamos por utopia saber que pensamentos cordiais, no entanto, podem barrar o sangue, impedindo a oxigenação ali onde seja necessária a utilidade, lá onde o orgânico lixo interno natural e precisamente seja transformado.

Portanto, ética.

Assim, vivamos confluentes e afluentes ─ mente e músculos; mão e cirandas; aplausos ou barreira.

Ou haveremos de perecer, tal qual flor depositada na pedra, chuva a lavrar o mineral da jornada, morte em vida.

No entanto, não sustentemos ilusões, não queiramos que o futuro teletransporte o passado por meio da urna eletrônica.

Voto como veículo do imóvel?

É aqui que olho a hora, tiro o cavalinho da chuva. Tenho tanto pra fazer. Corro ganhar o dia. Ou seguirei metido a besta, dizendo o que sei pouco; ou, de mal a pior, ficarei enrolado quase o dia todo.

Não me ausento de mim quando admito as faltas?

Não darei adiada a ventura de um amor, que me traduza em febre a comoção de uma falta. Porque na falta inteiro-me de mim: pessoa, pelo tanto de humanidade que possa a vir completar o ser vivo que penso, pondero e delibero. E agindo em meu nome passo ao mundo a identidade das minhas vontades, umas explícitas e tantas supostas.

Portanto, admito as minhas carências.

Já o caráter ponho em meus segredos? Ou faço de conta?

Muito me escondo ao me revelar na articulação de satisfações e frustrações, pois ajo e reajo em pensamento e palavras, faço-me por lágrimas e risos, e mesmo, até e ainda, por desdéns e felicitações.

Nada disso, no entanto, impede-me de admitir cansaço.

Assumo que o fastio tira de mim o entusiasmo pelos feitos de cada dia. Das grandes e das pequenas conquistas, é por elas que a tibieza mostra-me exaurido, explorado pelo outro e por mim.

E pelas consequências dos efeitos, como público de mim, produzo expectativas. Ator a improvisar diuturnamente, ininterruptamente, sem dar ou tirar folga, de mim e a outrem.

Mas isso cansa, embota o juízo, põe desconfiança na mente e faz dos nervos corda bamba. A vida, então e assim, passa o tempo, dá o passo a seguir. A realidade criva meus os seus abismos.

Se temo um passo em falso?

Trato de trotar, portanto.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 26 de novembro de 2020.

 

 

 

 

terça-feira, 24 de novembro de 2020

O país que não existe

 

O país que não existe

 

No monólogo monomaníaco monoglota, a ladina ladainha ladravaz não dá rum na fonte nem ouvidos à zaragata das maritacas. Dará, ao menos, em bafafá? Sei lá, camará.

Vem a norma bendizer qual normalidade? Bem real é maldizer da realidade. Embora pense dispensável passar o tempo, passa mal. Por idealismo, sem escassez, compensa-se com o material. E haja geleia no miolo do pão. Afinal, nem para quieto ao fazer silêncio.

E vai fechando porta após porta, sem pular nenhuma. Fecha-as ─ às vezes, sereno, compadecendo-se com a ciência do ato; e noutras, espeloteado, espalhafatoso; ainda, contrariado, livrando-se.

O futuro são portas. Incômodas. Atrevidas. Aterradoras. É desafio a quem tem mais o que desvelar. São muitas, e muito ridículas.

Abrir portas ridículas faz ridículo quem ama abri-las no capricho. A cara de quem teme acabar se lambuzando. Aquela fuça que deixa a gota de mel (sopa ou chope) subir pelas tabelas.

Também ridícula fica a pessoa que despreza abrir a quem ridículo. Pra não ficar a ver navios quando o mar não está pra peixe, não ri por último. Ainda que ultimamente nem dê pro cheiro, torra a terra.

Põe fogo na palmeira onde cantava há pouco um sabiá campeiro. Come poeira, pois o arroz deu no pé. Vende a alma ao diabo, dando crédito ao miserável. Assina cheque em branco, pois tem funcionando as digitais. Todavia, a rato empalhado cabe sorrir canhoto?

Pensa, mas pensa com ponderação. Tratando frear o ímpeto, quer cortar o barato pela raiz. É barata, a bravata da praga na praça.

A primeira porta? Se não está atrás nem está vindo de frente, está no ponto de encontro, aguardando que a retaguarda vire vanguarda.

Nem todo evento vira fato? Fumaça queima a foto.

Onde terceiros, de primeira, jamais se dizem de segunda?

No país que não existe.

No país que não existe, enxerga longe quem nunca chega perto.

No país que não existe, sobra chão para cova rasa.

No país que não existe, não mata a sede a água que afoga.

No país que não existe, vale mais o coice que a foice.

No país que não existe, a fome alimenta-se dos famintos.

No país que não existe, o leviano pega leve no pesado.

No país que não existe, a mão que afana não abana, abona-se.

No país que não existe, demora acordar quem anda acordado.

Com tempo de sobra para chegar atrasado, há quem se culpe por passar do ponto ao confessar o que for preciso pra ajustar-se à hora?

Primeiro, anote-se: foi um engano.

Segundo, aponte-se: foi um erro terrível.

Terceiro, aporte-se: foi um pecado horrível.

Quarto, reporte-se: foi um ato vergonhoso.

Quinto, comporte-se: foi um fato vergonhosamente doloroso.

Sexto, reconforte-se: foi um castigo e tanto dar legitimidade à dor que nem parece ter sentido por acaso.

De cabo a rabo?

Quando o que vem depois do final já está decidido desde antes do começo, é melhor abrir de vez a janela escancarada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de novembro de 2020.

domingo, 22 de novembro de 2020

De fio a pavio

 

De fio a pavio

 

Sem que nada fosse dito, nem em verdade nem em justiça, o olho inquisidor pisca-piscava correções aos óculos.

Foi quando ela entrou, a mocinha. Foi pegando coisas. Foi pagar, já visível na lousa mental o produto de seus cálculos.

Alterava a ordem dos fatores de propósito, saboreando a diversão de seu domínio dos jogos aritméticos. Bem querendo podê-los dispor do modo como os arranjava, prazerosamente lúdica naquilo.

Ou seja, não se negava o prazer de sentir-se em plenitude com a vida, o mundo e consigo. Bom era estar sem rancores, numa boa.

Como gostava de sentir-se viva. Praticante da sabedoria que nem cobrava consciência de tudo, vezeira nas infidelidades a manuais pra tudo. Era pessoa cuja criatividade da existência estava em viver sua humanidade com a paixão pelo razoavelmente ilógico, fortuitamente incontrolável e insuportavelmente alegre. Porque a alegria de agir era sua febre de viver enquanto vivia, a viver-se intensa, vivíssima.

E veio desenvolta, certa de si, solta assim.

Foi bacana tê-la visto pegar suas notas e moedas, pondo certinho o valor da sua compra. Somou dez com dez, em duas notas, e juntou mais cinco, compondo cinquenta e cinco centavos com uma de vinte e cinco mais três de dez, destarte usando quatro moedinhas.

Foi aqui que retirou a tal moeda desta história, a de um real.

De fato. Que cabeça ligeira para tantos noves fora.

Quando a pessoa cobiça inventar o que não tem, fazendo-se obrar pelo intento, perde-se ao cobrar tal prêmio. Na ponta do lápis, o êxito azeda em fracasso. Incomoda honrar quem mereça o aplauso, que a vez pede pigarro grave, ouvidos moucos. Por distração cínica: presa à prenda da habilidade, a pessoa vira escrava a serviço do trabalho.

E não o contrário, logo se vê.

Vivo, logo... Logo? Logo nada.

De repente, nada acontecia. Nunca tinha feito nada, portanto ficou perdido. E perdido continuaria, querendo de novo fazer nada para dar jeito naquele nada. Porém nada acontece como esperado. Assim, fica renovada a esperança de conseguir hostilizar desejos, sem que nada o impeça de querer livrar-se daquele nada. É como se nada pudesse ser feito sem que nada fosse mesmo um nada.

E nada de mais? Talvez a resistência da existência ou a existência da resistência. E por que existe a criatividade que resiste?

Oito minutos sob mira lupina; tinha incólume a respiração. Achava nojento aquele ar de aprovação. Tinha que podar o constrangimento; já pegajoso o sorriso. E era o caso.

“Precisa a sola birrenta palmilhar o solo barrento... Ninguém desce ladeira íngreme sem ter subido costado agreste... Pendurado num ipê florido, pouco importa cadarço novo em tênis velho.”

Tornado odioso pela flagrante presença, o safado há de ficar sem a última palavra. Ela diz, uma vez que faz questão de ostentá-lo pelo devido, e definidor, calão:

─ Babaca.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de novembro de 2020.

quinta-feira, 19 de novembro de 2020

Tem cada uma

 

Tem cada uma

 

Acordei e fui gestar o meu desassossego, comprando bugigangas. Mas a gastança não melhorou meu espírito, de astral insidiosamente negativo. Queria muito me desconvencer de que estava pro gasto.

De repente, estou na seção de laticínios, com a sua rica variedade de derivados, em toda forma e teor de gordura. Mas encarar iogurtes e margarinas em nada contribui pra me alegrar. Decididamente, estou fora da família feliz que os comerciais mostram tão amistosa.

Mesmo à beira do abismo, pensarei. Pessoas afortunadas cantam e dançam; lembram-se de... Entre a dor e a cicatriz, há quem celebre. Como a memória cutuca, volto ao abismo. Estará a me fixar relapso?

Quando a mão alcança a porta da geladeira, palpito. Olho marcas. Quero uma que não tenha sal. Confiro preços. Chego a salivar, tenho escolha. Por isso, dou as costas. Sorrio.

Sorrindo, vou ao último item: pizza.

Quero calabresa ou muçarela. Sorrindo, pego uma de cada.

Assim como artesão que sabe das coisas de sua arte, aquele que trabalha a madeira pra moldá-la ícone ou cadeira, hei de gozar.

Quem precisa dormir pra sonhar dá-me ganas de pegá-lo à unha.

Seguro o cuspo. Por falso hipócrita, ou cínico.

A ânsia não cria rio algum. Há rio cuja vazante faz matar castores, embora o estágio da lua não favoreça ou convenha ao azo.

Um dos olhos me irrita. Embora pouco explique ou nem se aplique ao caso: há cantores que compõem; há compositores que bailam; há bailarinos que cantam. Juro, não estou febril.

Queria comer em paz. Tenho razão, até poderia.

Durante a partida entre Fortaleza e São Paulo no último sábado, a pizza foi comida e o refrigerante, bebido. Se desde o princípio a pizza estava fria, adoravelmente o guaraná continuou gelado.

Antes de soltar o sono, precisei gargarejar. A boca pedia.

O espelho não fez nenhuma pergunta problemática, permaneceu fiel ao propósito de refletir: quem não o encafifa, a querer solução pra perplexidade desnorteante?

Não quero pensar no sorriso que me acompanha. Se pensasse, ia acabar por me condenar à vulgaridade, à tolice, à banalidade de ter o entendimento de mim como outro bobalhão às vésperas da eleição.

O fio que limpa o vão entre os dentes bem pode suportar o desafio de dar trânsito da beirada à outra. Do abismo de pular da margarina ao abismo de engolir as palavras muito úteis ─ a luz não pisca.

Com traços de insânia, meus olhos me desprezavam. E pelo quê? Vi a torneira aberta, escutei o fluxo da água e deixei corrente a água que não sei quanto custa. Cometo desperdícios relevantes.

Vou salvar o dia? Irei votar. Acenarei pro vizinho que acenar. Vou sorrir. Preciso aparentar moderação. Irei votar mantendo a prudência: com a máscara e a justiça socialmente apropriadas.

Só agora, meia-noite, meu estômago diz que teria sido melhor um miojinho?

O sorriso arisco não amansa nem com sal de fruta.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 19 de novembro de 2020.


terça-feira, 17 de novembro de 2020

Pequena anotação bárbara

 

Pequena anotação bárbara

 

Boçal, fingindo entender o recado da sua apreensão, tira a cara do gibi com aqueles balões onomatopaicos, delineadores apropriados do embaraço, de uma estupidez violenta e sua, expressamente sua. E é estúpida, sim, por não aparentar articulação lógica.

Nesse momento, é o que o imbeciliza dentro da normalidade dos fatos não relacionados, entre si e consigo. Mesmo? Pode se esforçar, mas não se controla. Aturdido, irritado, acachapado pela realidade. A vida segue sendo uma porta aberta. Como se o convite à passagem o livrasse da estupidez de sentir aquilo, o mundo que o circunscreve na pessoa que reage a estímulos desafiadores. Diante do retrato, preso ao que vê, sente-se minúsculo, apequenado, e reduzido ao barro que articula grunhidos, murmurante riacho que só sabe murmurar quando espantado. E o mundo espanta. Diacho, como vive se espantando.

Então? O demiurgo projeta a represa. O engenheiro, ciente de sua empresa, traz seus gravetos e toras. Assim? O poeta pesca palavras, calmo e melancólico no bote que flutua. São águas ora amenas, ora conflituosas. Manchas que não param. Hein? O mensageiro acena da margem, precisa entregar às lembranças um pensamento que reative nas brasas aquele fogo, que já anda abrigado na rotina que acalenta quem cansado, distraído nas tarefas de tarrafas de traíras plenas de vísceras e escamas. Porém o vento não demora, e passa. Os cabelos da amada voltam ao sono, que há noite. E havendo? Lembra e chora, o pescador flutuando no meio do cansaço. A brotar, a manchar.

A nota não perde o seu mistério, de segredo compartilhado. O tal segredo compartilhado não deixa de ser um segredo, uma vez que o entendimento das sensações não alcança a compreensão total. Que a totalidade é absoluta; e o absoluto, por mais que haja esforço e por mais que se acalme, é incomunicável. A incomunicabilidade, portanto, estimula a produção de ruídos. Portanto, o ruidoso sucumbe à própria algaravia, aos ruídos de sua alegria, de seu maravilhamento, de uma incontestável emoção, tão patético. Pateticamente, notando-se.

No fundo, bem lá no fundo, mais além do sondável, no fundo mais fundo do admissível, aí as águas trabalham, e burilam, concentram, e fazem esférica, polida e bela a criatura.

Ser que aflora na lama pressionada nas águas do fundo?

O substantivo é concreto. A realidade, adensada. O abstrato é que se materializa. Como objeto direto; sujeito determinado.

Quando esse desejo molda essa coisa.

Há quem prenda a respiração em mergulho tão intenso. Há quem prefira afogar-se nas fraldas da imaginação.

Vislumbrante, a imagem que reluz obscurece.

Talvez nem fosse preciso, embora se faça indispensável dizê-lo: o transparente e o cristalino adornam-se um ao outro, feito pérola.

Qual pérola?

Nem anulando o recado das urnas redunda nulo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 17 de novembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 15 de novembro de 2020

Santa utilidade

 

Santa utilidade

 

O caso em tela pede uma criança. Sem pensar duas vezes, topo o escrutínio. Querendo minha a sua curiosidade que tem olhos longos sobre o que se avizinha ao alcance da contemplação que tem mãos audazes sobre o que se afigura promissor ao seu engenho que tem palavras de menos para dar sentido ao que se apresenta suscetível à sua verve investigativa, voluntarista, de menino que tem borbulhante a mente com mais perguntas que respostas que a sua empresa está em conhecer um tanto do mundo em que vive.

Com a finalidade de tomar partido, e como gosto de espernear por nada, toco bater perna.

À porta da lotérica e da farmácia, o que se vê?

Se tem evento que me deixa feliz da vida, é fila. Ficar esperando a minha vez é coisa louca a quem, como eu, disposto a ganhar o dia só fazendo isso, esperando. Afinal de contas, a pessoa que espera sabe bem o que lhe espera. E põe-se em guarda, apesar das adversidades que testam a sua fibra de manter-se fiel a si mesma, como dona do próprio compromisso com o futuro. O futuro, a ela, a essa pessoa que vislumbra eventos graves, enfadonhos ou banais, o negócio é enfiar o voto na urna.

O encanto do intelecto está em produzir a beleza? Depende. Se a palheta está afiada, resulta nos Caprichos; se não está, ignoro-me.

Entrar na fila gera bobagens? Corrijo-me com pitacos de amor.

Entretanto, cuidado com o amor, que ele pode se revelar insidioso, persuasivo e renitente; com: artimanhas que falseiam táticas que não admitem falhas; estratégias que não incorporam dúvidas; lógica que não incentiva quem hesita; teia que não camufla armações; e aranha que enreda mosca que morre sem notar a afobação.

Sem assédio moral, posso acatar sugestões?

Vamos lá! Mesmo que nem consiga vencer, luto. Que o amor pede vitórias. Que alcançar êxito faz o vencedor. Que o sucesso faz bem a quem não escamoteia ou se ilude. Fraquejar diante da crueldade não dispensa as falácias; posso gozar das empulhações, mas não mereço o êxtase de atingir o topo. Fujo da raiva que o ressentimento provê.

Louco manso não abusa nas predileções?

A Muralha da China, uma das maravilhas do mundo, não teria se tornado visível na Lua se um simples tijolo não tivesse sido assentado por um anônimo pedreiro.

Conheço gente que não banaliza o amor que a qualifica triunfante, honrada e conquistadora de meritórios. Também abomino a pressa, por isso tenho valorizado cada passo.

Sei, a eleição eletronicamente digital facilita a vida de todo mundo. Então, escolhi antecipar-me ao buchicho. Às seis da manhã, tomei o meu lugar junto ao portão da escola onde teria de votar. Mal a seção abriu, a urna cantou.

Como a festa da democracia celebra indevassável a consciência, compute-se apenas que fui, votei e voltei.

Ainda bem que pude ganhar tempo com o santinho que encontrei jogado à saída da Matriz. Só tive o trabalho de digitar.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de novembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 12 de novembro de 2020

Ataque fulminante

 

Ataque fulminante

 

Passado o choque, dá pra contar o que houve.

Se tem um troço que me deixa enfezado é ser pego de calças na mão, justamente quando a realidade apronta das suas sem avisar de antemão que vai puxar o tapete, tirando de mim a estabilidade física, da psíquica nem falo. Tamanho o susto, que tanto emociona a ponto de suar frio ainda agora, uma semana depois do transcorrido. Tendo vivido evento visceral, fico arrepiado ao lembrar tê-lo testemunhado.

Ainda destroçado... O que foi que houve?

Ouvir uma sabedoria que comove, a mim não me ocorre condição parecida quanto à reação sentida de imediato. E é preciso ser muito fraco da ideia para negar o tranco forte que me embaraça a vista.

O pasmo é planta daninha que cresce voraz, pouco importando o solo, que põe as energias na eclosão para fora do emparedado. É por instinto que se apõe ao agreste do terreno petrificado, lutando vicejar robusta, com raízes furando o concreto. A querer-se vistosa, é árvore do conhecimento a dar ciência: que é sem medo de dizer à verdade a beleza da leveza como verdade a ser dita que se diz viver sem medo. Pulsando, o coração disparatado opõe-se a escutar-se disparado.

Esse tanto: fazendo-me surdo, ouço os outros.

Comovido como o diabo, ajeito os fundilhos na cadeira, me junto à assembleia para que me seja computada a aleluia, sem meia palavra.

Sei dizer não quando é hora de dizer não.

E digo não, porque o resto é nada, algo tão desprezível que nem é atirado aos porcos.

Embora verossímil, servindo como passagem em porta interposta no caminho do sangue pelas veias do pensamento, a bocarra diz seu desespero aflitivo. E sem ditar à audácia a voracidade, focinho contra focinho. Até porque nem todo porco come lavagem.

E sábio não grita; faz-se ouvir pela voz altaneira, sobranceira, que paira acima de quem a leva realmente em consideração, a sério. Sim, o sábio que fala sem medo sabe por que o medo nega garrafa, copo, a boca que engole a cerveja toda. Certamente, é sábio quem sacia a sede sem negar que vai ter sede tão logo o corpo venha a sentir que tem faltando algo. Sua voz é potente o bastante para manter o corpo à disposição das necessidades.

Ainda que fique bêbado por emendar um gole no outro?

É preciso resistir. É obrar pela escuta que ensurdeça. É manter-se atento, até quando o copo comece a falar.

Tonto de tanta gritaria?

De algum modo, lá pelas tantas, recuperei a altivez.

Já era hora?

Talvez fosse o momento de ficar espantado com a ideia de doido que me veio do nada. O que foi aquilo de ficar bebendo no culto?

Sim, senhor, o boteco acabou virando igreja. O discurso furibundo entortou o estômago. Então, fiz bem em sair dali. Estava incomodado, sobrando. Sim, senhor, foi tanta cervejinha quente, tanto torresmo.

Diante de ataque fulminante, não basta sentir-se culposo, o jeito é reportar-se passivelmente lúcido.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 12 de novembro de 2020.

terça-feira, 10 de novembro de 2020

Outro começo

 

Outro começo

 

É preciso começar do zero?

Hoje os tempos são outros, as promessas não se conformam aos candidatos que se apresentam em busca de algum acolhimento ético ─ menos politiqueiras, por conseguinte. Sim, amiga, a veracidade da coisa toda, quando se trata de eleições, está realisticamente filtrada, pois agora a risonha esperança, que ainda sorri quando adulada por gesto amanteigado ou muxoxo almiscarado, entra a gargalhar frente a truques digitalmente pragmáticos. Sim, amigo, uma vez posta frente a rostinhos mais apropriados às certezas polarizadas, a última a luzir do ventre de Pandora já pode mais sobre o que menos digere. Vê-se que a verdade mais autêntica pede à origem que não camufle classe ao falar em público, gênero ao tratar o público ou publicidade ideal.

Sob medida, num mundo polarizado é assim que a conta fecha: há atributos desagradáveis a quem projetado inimigo.

Ou seja, nesta área de preservação social, tanto fantoches quanto marionetes que estão retirados a passatempos de caixas-eletrônicos, cuja fluidez desinibe a ingestão legítima de essências tóxicas que dão sutilíssimas alterações hepáticas, renais e pancreáticas, são os que, pelo consumo cívico de Royal Salute, justamente eles estão curados.

Em resumo, farta de celebridades sóbrias, a política anda capenga de notoriedades dionisíacas. O que torna um porre assistir ao horário eleitoral obrigatório televisivo, porque o mercado anda pedindo caras novas, tornadas novíssimas a fundo perdido. Ostensivamente a grana e a paciência? Perdidas. Mas ambas? Só as nossas, óbvio.

Misericórdia! Que não desejamos castração de nenhum candidato. Sejamos críticos, porque somos mesmo pela democracia que atenda aos interesses do povo, e que ainda nem os sabe interessantes.

Por favor, por piedade, escondam de mim o copão de groselha.

Pois é da glória da esperança viver arisca no encalço dos que não foram: as multidões de homens felizes, com suas mulheres felizes.

Quê? Sem diversidade, há igualdade.

É gastando sola sem sapato, endurecendo a moleira sob sol, indo por aí afora como se levasse o mapa do tesouro no fundo da cachola, é assim que ninguém sai do lugar.

Afinal, há mudanças que não ajudam em nada; aliás, só pioram o que vai péssimo. Tempos difíceis de engolir? Saltam pela goela.

Em dias de atualidade perturbadora, fiquemos sentados ao menor sinal de vertigem. Pateticamente, enrolemos. Recusemos dos gestos o obsceno. Não queiramos tirar do sério quem sorri. Queiramos sorrir do nosso modo, com os dentes que dispomos e não com a dentadura alheia ou por maxilar de outrem.

Se podemos?

Tiremos o rabo da cadeira e entremos na dança que sentimos seja nossa. Que alegria! De mais a mais, bailemos e cantemos.

Agora é hora? Sim, que bem agora se retome a recontagem...

Um mais um façam sempre mais que dois.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 10 de novembro de 2020.

 

domingo, 8 de novembro de 2020

Uma questão em aberto

 

Uma questão em aberto

 

Na primeira temporada em que esteve ali, no passado de aclives e declives de topônimos familiares, andava engatinhando nos mistérios da realidade, não sabia que teria inteira uma infância pra saber como o local irmanava os heróis de nata investidos no brasão do renome.

Do derradeiro colégio, de onde se viu encaminhado pros labirintos da parte paulista do planeta, via Etapa da Frei Caneca, com o famoso Raul Seixas, de pijama, bebendo pinga, ao meio-dia, na esquina, com a Matias Aires, era outra época, ainda nem tinha sido seduzido pela fortuna pra ir fazer ECA, na USP sob Goldemberg. Disso tudo que se lembra, o mais engraçado é que foi do Maria Angerami, o tal colégio de Ibiúna, pro bandejão do CRUSP sem nunca antes ter ouvido falar que a ANATEL era adversária da reforma agrária do ar, proposta pela rádio Xilique, que emitia, em FM, as suas revoluções de comunicação comunitária, desde Perdizes, da Monte Alegre, da PUC.

E estará cobrando ao tempo que relaxe os fios reatados?

Todavia ei-lo buscando conhecer-se, achando-se perdido, tocando pelas estradas da lida, fora da escola primária, do grupo secundário, de faculdades mentais avaliadas genericamente ansiosas, trazido de volta aos ventres da família, pra talvez daqui, de dentro, nesta fala do mundo, poder romper tantas desinformações, pospondo umas outras. Mais que mentiras, honoráveis histórias.

Um retornado?

Encorpado nos tecidos moles, maduro nos pelos grisalhos, quase bom no papo ─ pois assim: responsável por manter-se sóbrio.

Um sujeito ausente que se viu materializado em plena crise. Veio, já agora, licenciado careca. Voltou, por agora, mais lento. Depois de dezessete anos na Baixada Santista, vivendo os rigores pandêmicos do regime agridoce da peste, eis essa pessoa sobrecarregada.

E impregnado de medos, apurado dos ouvidos, impressionado nas retinas, pouco senhor de si, por tantas mágoas casuais, por lágrimas surdas, topando os amigos da velha guarda, virtualmente próximo de quem conheceu abraços, retribuiu beijos, desmereceu-lhe as falhas.

Pessoa reconhecível a quem a reconheça. Gente que geme, goza, segura a verba, solta o verbo; e ignora o que foi feito, memoriza o que vai fazendo e escritura o que deseja para outra hora.

Se não há túmulo que suma com os ossos, há singularidades que somam praças, mudas de trevos e dissimuladas capelas. Porque toda alteridade perde a razão quando pensa a autoridade que não tem.

Embora pressinta a mão da noite no sonho de ir aonde nem sabe em que lugar anda brotando o paradeiro dessa saudade balanceada: o ibiunense, o paulista, o brasileiro e terráqueo?

O ser que diz não ter sentido o que tem sentido tempera-se com o sal da terra. E como tem dentes esta sua boca escancarada...

Onde terá deixado o juízo para morder com tanto gosto a semente da goiaba?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de novembro de 2020.

quinta-feira, 5 de novembro de 2020

Nos bailes da vida

 

Nos bailes da vida

 

Cruzando com você, por acaso, numa tarde de meio de primavera, com uma tempestade de fim de tarde já bem anunciada, a pandemia rolando solta por ruas e praças, ocorreu de repente perguntar-lhe: e a cabeça como vai? E sonso incontrolável, soltei: como tem passado?

Nem o escutei. Já meio que desistindo de ir ao festival, que soube tem lotado o estacionamento do Belas Artes/Memorial. Acabarei indo aonde a pirraça me guiar; comigo é assim: com opções, topo outra.

Sabe como é, burro véio emenda ir sem pressa. Pra tirar da mente minhas ideias de bocó, quero vedada a lateral, assim olho fixo o chão da estradinha esburacada, cheia de pedras.

Queria pensar, e penso um roteiro.

De que trataria o filme? Pergunta difícil. Então, para uma resposta simples, que apresente o conteúdo sem desmerecer o modo da sua encenação. Sendo razoável, a ficção trataria da junção de um Fuscão Preto com uma Lambreta azul, com vistas a um patinete com sorriso ortodôntico. Relações essas que se dão nos ambientes de trabalho e domésticos. Haveria um consultório de dentista, onde ele receberia a segunda das mulheres, a mais velha delas. Claro, haveria a casa em que o homem desempenharia as suas funções de marido. Crescidos próximos desde o primário, filhos da terrinha boa pra se viver, de cujo clima não se há de ter senões, pelos invernos bastante frios e pelas chuvas torrenciais de fins de março, conforme o figurino subtropical, e de montanha.

E o caso em foco?

O marido reforça a presença com umas delicadezas, no cotidiano instituído entre o quintal e a garagem. Não bebe mais que o usual a quem levemente cachaceiro, já ocupado em orientar a debutante que valsa de público a indignação com os comedores de proteína animal.

A amante, uma senhora trintona já com discretíssimas correções ao redor dos olhos, busca satisfazer seu companheiro abrindo a ele o mundo de vinhos refinadamente caros e crepúsculos fulminantemente românticos, e sempre a dinheiro.

Porém, quando se fala em dinheiro, há desavenças. Muitas.

E uma vez desabrochada a separação dos vícios das virtudes?

A vergonha enoja a filha, que não suporta ouvir da esposa traída as comiserações esperadas de madames quatrocentonas. Que acinte escutar os lamentos da provedora de seus genes, e mantenedora de um lar asqueroso, tão recatadamente mortiço.

Inquieta, e movida e comovida pela indignação espiritual, a moça suplica à mãe que se erga da tumba. Que ela venha pro sol, e ganhe a musculatura da mulher atual, moderna em sua liberdade de ser.

Na cena final, vê-se uma vitrola, o disco de vinil está parado, sem que se possa ler o selo, as manchas parecem de bolor, e um risco no lado A forma a letra M, de Maria ou Marta? De Madalena é que não é!

E afora isso aí?

Com todo um passado pela frente, no centro do telão, projeta-se em letras escarlates:

SEGUE O BAILE.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 05 de novembro de 2020.

 

terça-feira, 3 de novembro de 2020

Amor de casa

 

Amor de casa

 

Contemplado com uma vinda inesperada, ô de casa!, seria o caso de desopilar o fel? Diante de braços tão efusivos, segura o passo um instante; mas demorar-se vai decepcionar, pode até causar irritação. Pra guardar-se diante da visita, destrava o cenho.

É pessoa que morde a língua pra cuspir sangue? Não é canalha, sabe sorrir. Está em casa.

É preciso dar o primeiro passo, como exemplo. Que se ampare no amor, para que se compare aos melhores. Pra não ficar na aparência, e traga ao mundo a contribuição verdadeiramente exemplar, tem suas tramoias abonadoras. Portanto, abre o sorriso.

Ainda que venham exuberantes as novidades, mantém a máscara no lugar. Pela consciência de estar no seu lugar, mantém a calma de figura que sabe de si como anfitriã instagramável.

Ainda que esteja na posição orgulhosa de defesa, faz o que pode para não dar com a língua nos dentes. Quer-se invisível, por isso sorri a quem se ajeita na inveja. Diante de alguém cuja segurança está em falar à toa, diz por gestos comedidos que está mesmo em casa.

Quando se deixam comparar, essas pessoas que invejam são as que fingem mal algum amor. E há tanto amor em quem inveja.

Trazem o fracasso de quem não consegue dominar-se, ainda mais quando na presença de gente centrada. Na convivência com alguém que se comporta condignamente, o amor intoxica.

E que futuro há de se projetar da ciumeira vil de quem sofre com a felicidade facilmente percebida? É bile brotando nos tontos.

Como têm em alta conta as pessoas que os desprezam, os tontos sofrem de ansioso desejo de aceitação. Vivem querendo sentir-se em paz, fazendo hora em casa alheia.

Pouco à vontade, extrapolam-se. Por amor.

O amor sabe desviar os olhos, prender as lágrimas. Não se deixa recuar de portas relutantes. Não se revela na dor que enrijece a nuca, entorta a boca e seca os olhos.

Como esses sofredores sabem sorrir?

Há lares no mundo que ignoram a retribuição. Fechados, isolados, negam-se a acolher. Não dispensam frivolidades e nem banalidades, só não servem café com bolinhos de chuva. Enoja ter intimidades, daí mascaram o cenário: preconceitos são cortinas; nojos são tapetes; as orquídeas vívidas, retratos patentes do desprezo.

Admitem-se tão sedutores?

Administram-se adoradores do amor ao próximo.

Respeitam-se e pedem respeito; ainda mais em ambiente privado. Como gente antiga, deixam evidente o direito de amar do jeito antigo, como aprenderam em casa, com a família. Fazem questão do amor à antiga.

Já o outro amor, de fora, de gente estranha?

Melhor evitar.

Afinal, quem chega da rua que bata da roupa o vírus da diferença. Quem entra no recesso do amor que recebe não fique exibindo uma alegria exagerada da vinda. Trate de ajustar-se.

Assim, preservando o mínimo de respeito, ao abrir o portão, indica aceitar que os cotovelos se toquem. É o amor sorrindo.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 03 de novembro de 2020.

domingo, 1 de novembro de 2020

O mágico

 

O mágico

 

Esta é uma crônica sentida, uma vez que James Randi morreu. Aí, sem tirar pelo em ovo, você emenda que sabe quem é Uri Geller, mas não quem seja esse daí. Tudo bem, é do jogo querer saber o que não se sabe. Então, o que O MÁGICO, o título, sugere?

Se a primeira ideia que lhe ocorre é esperar algo burlesco, com a típica música de circo ao fundo, de reconhecível alegria, mais aquele cheirinho de pipoca, se for, pare aqui.

No entanto, se a segunda ideia é a de se deixar surpreender pelos truques de profissional gabaritado, de renome na praça, então, tendo desejos de saber como está sendo feita a mágica, assim, continue.

Mas aqui entra o alerta: não se frustre com o que está vindo, pode ser que você esteja depositando no que está sendo escrito uma coisa mais sua do que propriamente do texto.

A hora é esta.

Deixe fluir. Mesmo que se perceba afogando, prossiga. É indo em frente que se deixa fluir o que lhe está sendo oferecido; como alguma engenhoca líquida, uma consciência sensível aos elementos que não travam nem estorvam o movimento. Fluente, seguindo em correnteza, é isso que faz movimentar o que precisa mesmo prosseguir. O que dá vida à existência.

Ou seja, ao fim e ao cabo, é feito rio. E tem a corrente: mais rápido ou mais lento, depende do prazer, da ansiedade, do divertimento.

Isso, isso. Alcance a diversão de seguir lendo. Portanto leia, opte continuar a leitura.

Afinal, pode ser que a surpresa esteja na transparência, às claras, quando a prestidigitação ocorre bem diante de seus olhos.

E dizem: o grande mágico causa o maior impacto na audiência; é quem fala o que está por fazer; quem faz enquanto fala, provocando o pasmo de afirmar o surpreendente, escondendo o objetivo da ação no próprio ato de revelar o ato.

A grande sacada está em continuar, despreparando para o truque. Ainda que tenha ensaiado a espontaneidade da reação; ainda que se policie; siga comprometido com o número. A cartada está em oferecer o encenado como algo novo; outra vez como novidade, para que seja novamente algo transformador, arrebatador, entusiasmante, causador do frisson. Sabendo-se que virá da maneira que tem de vir a tornar-se outro, rompendo minimamente com o ato de sempre, porque o mundo pede mais, pede coraçãozinho no alho e não apenas mortadela.

Então, um imprevisto moderado pode muito bem temperar o arroz e feijão de cada dia. Daí, sem mostrar a forma da forma, vem o futuro como uma iguaria diferente, nem batida nem requentada.

Só pra variar? Há palmas que nem precisam de mãos.

Assim, quando menos se espera, mesmo com o lenço trazendo o lenço trazendo o lenço, mesmo assim, da cartola ordinária, acaba-se, na ponta do último lenço, não com a moeda tirada do nariz, mas com uma flor, flor que tira o ar, arrepia, faz aplaudir, tal o arrebatamento. É flor que não petrifica, que arredonda o êxito num sonoro: óóóó.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de novembro de 2020.


quinta-feira, 29 de outubro de 2020

Direitos reservados

 

Direitos reservados

 

No intuito de preservar a intimidade, conservando o teor medíocre de minhas circunstâncias de homem do povo, penso seja necessário adotar as seguintes providências.

Primeiro...

Muito me constrange vir a público tomar o partido da verdade, que deveria bastar-se pelo alcance de seu valor, dispensando terceiros da reiteração dessa amplitude, por acintosa desnecessidade. Por isso, e tão somente por isso, reafirme-se: a verdade é, ou será falsidade a se passar o que não é pelo que seja.

Depois...

Em defesa da inocência fulcral de minhas moralidades, assumo de público a culpa de ter consciência das consequências de meus atos. Fiz, portanto mereço responder por meus feitos. Disse, assim nego o que disse. Ofendi, então que me acuse quem se atreva à recíproca. Saibam, por conseguinte, que hei de defender minhas prerrogativas, uma vez que ainda tenho guarda da minha imagem, porque estou em perfeitas condições de controlar discursos, direitos e diplomas a meu respeito. Logo, lucrarei o que for possível com o êxito da empreitada, a fim de preservar-me visível às invasões de outrem. Afinal, eu posso. Se posso, terei poder. Se tenho poderes, é porque os exerço com a plenitude de minhas posses. E que país ordinário seria o Brasil se em suas fronteiras não imperassem a moral, a decência e a virtude, ou, em suma, não houvesse a liberdade do controle. Se me quero limpo, ordeno a higidez. Se me vejo puro, coordeno a honradez. Se atesto o incólume, faço entender o que me apresento honrado, inocente, bem capaz de manter o que todas e todos desta sociedade brasileira hão de compreender, desde que estejam aceites as minhas mais sinceras desculpas, ainda que doa em mim acusar quem me confronta. Sei de mim pelos meus defeitos, mas não recuo diante das liberdades, a de outro e a minha. E assim, não julgo, mas digo, afirmo e confirmo: são infelizes; e por infelizes, semeiam infelicidades. Como não me basta a mim sobreviver infeliz, vou cobrar aos justos a reparação das minhas justiças. Por que aviltam calúnias e mentiras? Pelas veracidades no que espalham. Se menti, menti em causa própria. Se digo que menti, faço-o em nome da honestidade da minha defesa. E se, porventura, há danos enquanto me defendo, irei mesmo perseverar em minhas integridades física, psíquica, ética, social e econômica. Uma vez que almejo multiplicado pelo justo o investimento empregado por mim nas salvaguardas da minha honra, a minha única e íntima honra.

Enfim...

Terei atendido meu pedido de obscuridade a me proteger da fama que degrada como mais um na praça, enoja como outro a lucrar com o fácil, e amaldiçoa como pessoa condenada a censuras do vulgo, ou isso ou apelarei à estupidez das ilicitudes, dado o meu desespero.

Sem mais, ciente de que dá fé ao que está escrito, subscreve com o vigor da personalidade,

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de outubro de 2020.