Fatos
pingados
Moro vizinho a um casal com gatos. Ali,
os gatos são dois: Tales e Nina. Assim como os bichanos, tenho minhas
idiossincrasias, dentre as quais ganham destaque a quietude do primeiro e o
atrevimento da segunda. Observo, arrisco meus pulos. Atrevido, meço alturas só
pelo olhar. Sereno, aceito testemunharem a atuação.
Se não mio nem ronrono, mostro ter garra.
Feito Fabiana Murer ou João do Pulo. E vou fazendo que nem noto: salto
distâncias, correndo pro abraço, sem pular obstáculos.
E gingo ao tomar impulso?
No ano do Tetra na Terra do Tio Sam, em 1994,
estive em Curitiba pela primeira vez. E lá estive como quem descobre a América,
que foi aí que as ruas educaram-me pra política da escuta.
Nada tinha me preparado pra tamanho
impacto. Por isso venho da Rua das Flores, volto da Boca Maldita, sigo vindo desse
meu primeiro ato consciente de escuta. Aprendi exercer o meu direito de escutar
o que diz quem fala.
E foi naquele ponto nevralgicamente
político no centro da capital paranaense que ouvi um cidadão praticar o humano desejo
de pensar em voz alta. Como flor drummondiana, no meio do caminho, na praça de
convites, a máquina do mundo se entreabriu a este ser faminto de seres e
situações patéticas, e agora?
Há um lugar em comum, a praça.
Gosto de estar numa praça em comum, vindo
da infância. Minha infância, essa não para de crescer. Segue firme no passado
móvel, a torná-la novinha em folha, já uma página bem transfigurada. E posso admitir
ter queda pra lugar que se faz novo a cada vez que se olha.
Tenho memória impressionável.
Se a memória convida a mergulhos
terapêuticos?
Quem se joga no tanque da memória percebe
que uma parte tem gosto de alga gelada e outra de carpa morta.
Com tanta ponte com tara pra viaduto, melhor
boiar noutro rio?
Insisto falar da praça, do chafariz que
já não há. Porque houveram por mal desfazê-la, tirar o piso e legar ao mundo um
buraco. Quando a água empoça, há luta. Pra não parar, virar verde fétido? Luta-se.
Um sol firme torna insuportável recordar
a fonte removida. Porque há vaidade que corrói, causa remorso, faz ferver o
sentimento de não ter algo em comum com os vizinhos.
E a sociedade está dividida em pessoas
com dinheiro e sem. Por sua vez, pessoas têm muito ou pouco dinheiro. E pessoas
com muito dinheiro podem ter apartamento de frente pro mar do Leblon ou casa
avarandada pra serra atlântica de Monte Verde. E quem tem dinheiro, muito
dinheiro, não tem apenas apartamento no Leblon nem somente casa em Monte Verde,
tem ambos; e embora passe pela necessidade de oito horas de sono, convive com
monstros embaixo da cama.
Sim, é aterrador ter monstros em comum
com gente incomum.
E lé com cré dá?
Tales e Nina não são monstros, são
gatos. Há quem admire gatos, achando-os muito gatos. Há quem confunda gatice
com gatunice. Pro duplo carpado apoteótico: Baggio ou Boulos?
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 29 de novembro de 2020.