Nos
bailes da vida
Cruzando com você, por acaso, numa
tarde de meio de primavera, com uma tempestade de fim de tarde já bem anunciada,
a pandemia rolando solta por ruas e praças, ocorreu de repente perguntar-lhe: e a cabeça como vai? E sonso
incontrolável, soltei: como tem passado?
Nem o escutei. Já meio que desistindo
de ir ao festival, que soube tem lotado o estacionamento do Belas
Artes/Memorial. Acabarei indo aonde a pirraça me guiar; comigo é assim: com
opções, topo outra.
Sabe como é, burro véio emenda ir sem
pressa. Pra tirar da mente minhas ideias de bocó, quero vedada a lateral, assim
olho fixo o chão da estradinha esburacada, cheia de pedras.
Queria pensar, e penso um roteiro.
De que trataria o filme? Pergunta
difícil. Então, para uma resposta simples, que apresente o conteúdo sem
desmerecer o modo da sua encenação. Sendo razoável, a ficção trataria da junção
de um Fuscão Preto com uma Lambreta azul, com vistas a um patinete com sorriso
ortodôntico. Relações essas que se dão nos ambientes de trabalho e domésticos. Haveria
um consultório de dentista, onde ele receberia a segunda das mulheres, a mais
velha delas. Claro, haveria a casa em que o homem desempenharia as suas funções
de marido. Crescidos próximos desde o primário, filhos da terrinha boa pra se
viver, de cujo clima não se há de ter senões, pelos invernos bastante frios e
pelas chuvas torrenciais de fins de março, conforme o figurino subtropical, e de
montanha.
E o caso em foco?
O marido reforça a presença com umas delicadezas,
no cotidiano instituído entre o quintal e a garagem. Não bebe mais que o usual
a quem levemente cachaceiro, já ocupado em orientar a debutante que valsa de
público a indignação com os comedores de proteína animal.
A amante, uma senhora trintona já com
discretíssimas correções ao redor dos olhos, busca satisfazer seu companheiro
abrindo a ele o mundo de vinhos refinadamente caros e crepúsculos fulminantemente
românticos, e sempre a dinheiro.
Porém, quando se fala em dinheiro, há
desavenças. Muitas.
E uma vez desabrochada a separação dos
vícios das virtudes?
A vergonha enoja a filha, que não
suporta ouvir da esposa traída as comiserações esperadas de madames
quatrocentonas. Que acinte escutar os lamentos da provedora de seus genes, e mantenedora
de um lar asqueroso, tão recatadamente mortiço.
Inquieta, e movida e comovida pela
indignação espiritual, a moça suplica à mãe que se erga da tumba. Que ela venha
pro sol, e ganhe a musculatura da mulher atual, moderna em sua liberdade de
ser.
Na cena final, vê-se uma vitrola, o
disco de vinil está parado, sem que se possa ler o selo, as manchas parecem de
bolor, e um risco no lado A forma a letra M, de Maria ou Marta? De Madalena é
que não é!
E afora isso aí?
Com todo um passado pela frente, no centro
do telão, projeta-se em letras escarlates:
SEGUE O BAILE.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 05 de novembro de 2020.