terça-feira, 27 de outubro de 2020

Via oral

 

Via oral

 

Como ficaria o primeiro parágrafo?

Embora estivesse fazendo uso ─ pleno ─ de balde, pano e rodo, a mulher seguia aturdida por aquelas vozes carcomidas, de paradoxos estrábicos, ensurdecidos e tartamudos. Coisa que uniformiza aquelas gentes estruturalmente anônimas, restando à operadora manual obrar por resoluções outras que validassem as prerrogativas tão brasileiras quanto às da maioria, a faminta de obrigações entendidas mas nunca atendidas. E como faz água, tão salgada, nesta pele, no ombro, neste ser sapiente, no vozerio animal de língua disseminadora de bruma.

O pernilongo tirou a concentração. Em vez de entrar uma torneira?

Sem dúvida, há benefício quando se honra a defesa do legítimo. Sem honra, há legitimidade que beneficia apenas a certeza que se defende da dúvida. Sem lucro algum, há alma que se vende quando a consequência vira causa bem no meio do papo.

Desconversando, a estupidez cava o fosso para que a água brote. E quanto mais fundo, mais denso; quanto mais denso, mais obscuro; quanto maior a obscuridade, maior a tensão. Abreviando pro absurdo, muito maior terá a pusilanimidade de haver-se; como não hão de vir ao mundo, inventam-se explicações: imbecis, que alegram corações afobados; e inúteis, que tornam leve o peito cavado arenoso. E seco, próprio à vilania dos resignados, devotos de infâmias.

Seco, diz o poço o seu abismo; deserto vertical como mortalha da humanidade falhada, fracasso imperdoável.

Queria perdão, mas não engenha a cura. Algum unguento, alguma drágea, algum invento químico que dominasse as entranhas de uma péssima memória, dessas tão cruéis, insuportavelmente incapazes de pôr um pano na mão que o torça.

O zunido perturba. A concentração se esvai.

No entanto? O que se ouve, quando é possível ouvir com atenção, não passa de mixórdia de recordações, de palavras em frangalhos, a perda de uma felicidade ─ temporã e pouco ancestral.

É evidente o embaraço com a falta de coesão entre as partes, fios soltos que sequer se enovelam, dando em um nó.

Que ânsias são essas que dispensam a coerência?

Falta algo. O que fosse lógico, imprescindível, tomasse as rédeas da mente. Que não levasse ao tombo. Algo normal, impetuosamente normal. Há queda, pois as pessoas têm paixões.

Há que se pensar em causa própria? Há.

E como há urgência em conhecer-se, em tomar a iniciativa de pôr razões à frente da noite perdida, então, que a mente perturbada dite quais razões são a fonte da perdição.

Humilhe-se? Perceba-se humilhado.

Mas a falta de sono atordoa, confunde, desequilibra.

Um pernilongo, só um; e a madrugada, travada, alucina.

A colcha cobre a cabeça; o som passa assim mesmo.

Pouco importa. Uma pessoa sem dormir pouco espera que o texto derrube jacas, enfureça marimbondos e espicace tatus.

E há de haver quem faça o fogo usando só dois parágrafos.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.


domingo, 25 de outubro de 2020

E ponto final

 

E ponto final

 

Agenda apertada? Tinha consulta no oculista dali a dez minutos, e todavia uma rua fora do caminho atravessou de repente. Convidado a desviar-se, topou a parada. Pois a isca era irresistível: um gato. Todo pimpão, o bichano estava arisco ─ tinha algo à frente.

Entrou pela rua que não lhe serviria para segurar ponteiro algum. E sabendo que atrasaria, acelerou os passos? Viu o bicho partir para cima de uma maritaca. Era o objeto da cobiça: um pássaro colorido e barulhento que estranhamente agia diferente, como uma rolinha.

Hein?

Havia aquela maritaca dando sopa na calçada. Ela nem aí para as pessoas passando rente.

Ao que parece... Coisa real demais?

Só que tinha mesmo esta situação. Não há invenção nenhuma.

Mas, estando no limite do atraso, apertou mais ainda a passada e isso fez correr o gato no encalço da maritaca pedestre? Nada.

Por uma questão de princípios, não se alegue influência direta de um evento sobre outro.

Dali a um segundo, a maritaca voou. Talvez o motivo seja simples: voou pela sobrevivência. No entanto, teria voado pelo sexto sentido, que, de tão profundo, todo animal nem percebe que tem?

Sabe-se lá. Viu-se que voou e ponto final. Só isso.

E o que liga maritaca, gato e a pessoa que os interligava?

O tempo certo para fazer a coisa certa.

De olho na hora, com a cadeira do médico esfriando, tocou rápido para chegar a tempo. Ô alívio ─ chegou.

Tudo resolvido. De posse da receita, foi atrás do preço das lentes.

Levado pelo sorriso da moça estrategicamente à porta da óptica vizinha à clínica de olhos, entrou e recebeu por escrito o orçamento.

Saiu. Andou rua acima, rua abaixo. E buscou outras ruas.

Assuntaram materiais? Informaram qualidades?

Venderam o peixe.

O peixe que nenhum gato ataca, preferindo maritacas.

E veio mais uma? Essa surgiu à porta da última loja visitada.

Outra rolinha em pele de maritaca? Tal e qual.

Algo incrível.

Tratou de ajeitar a câmera do celular, focou. Quis parar de tremer. Procurou prender a respiração. Até usou a mão esquerda pra segurar o aparelho com maior estabilidade, que se sacudia como vara verde por estar com falta de álcool no sangue.

E no que estava pronto pro disparo, o bicho surtou de vez. E foi-se embora, juntando-se a um bando que passava a dez metros do chão.

Chão? Um troço sujo, salpicado de bitucas, coberto de santinhos.

Ouviu um miado. Será possível?

Era. Justamente ele, o mesmo miau do começo desta história.

Tocou o celular. Era o alarme pro remédio da pressão. Tinha de ir, e foi. Voltou pra casa.

Assim que entrou, desabou aquela chuva. Pois é: no que engoliu o comprimido, caiu o mundo.

Caraca! A constatação de ter escapado por pouco o tirou do sério, que até se esqueceu de ter atirado um tchau ao gato.

Se tivesse dado atenção às condições do tempo, certamente teria tomado água na careca, que vira criança quando chapinha chuva.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.

quinta-feira, 22 de outubro de 2020

O intervalo

 

O intervalo

 

Como posso querer acordar a aurora?

Não depende de mim que o sol venha sorrindo, tão radiante, cioso das promessas que a manhã enfeixa como agenda por um dia, por mais este dia. Irei cumpri-la, com a tranquilidade dos que dão crédito ao discernimento de não ter muito controle. Fio-me na confiança de me sair bem, de alguma forma.

E esses pardais... Nem me deixam despertar direito.

Farei do modo que sei. Como aprendi, ou pelos exemplos que me deram ou pela cara quebrada por mim mesmo. Na correria, indo de ação em ação. Torcendo para que o amanhã possa vir como ontem veio, e como hoje.

Sim, o futuro tem a necessidade de um primeiro passo; e que me seja firme, seguro, sem o abuso de ser maior que as minhas pernas, sem exigir de mim o que meus pés e meus joelhos, já passados dos cinquenta anos, não têm como medir.

Os músculos são couraça, mas com um ponto falível, o humor. A reação orgânica do corpo influencia na eficiência das carnes moles. O gesto brusco, o lapso que tonteia, a paralisia momentânea.

Procuro a calma, transpiro constrangimentos.

A moral dita ao esqueleto a dança cotidiana.

O vexatório aflora no rosto enrubescido? Sob carga estressante, vêm cãibras às pernas? O pescoço duro faz ridículo o cumprimento?

Como foi torto o meu sono.

Ou seja, a vaidade domina o ser; faz gato e sapato da alma gentil que entra frouxa na dividida com o mundo. Daí que o mundo já nem contabiliza mais as vitórias. De antemão, seja admitida a debilidade e o enfrentamento da realidade seja dado como perdido.

Sem que o pé desnudo toque o chão frio ao lado da cama? Sem.

A consciência é barquinho frágil no mar aberto. Mesmo que diga o contrário? Que tenha esperanças? Ê cabeça de papel.

Que vergonha fugir da raia pela esperança.

E não tem jeito?

Culparei o diabo pelas coisas humanas que me fazem um verme. Cuidarei de encontrar a desculpinha mais esfarrapada que sirva de açúcar no café da manhã. Pedirei bisnaguinha com leite morno. Nem vou me chamar à razão ─ bastará a justiça de apontar um culpado.

Que alegria permanecer incompetente, mas em paz.

De humor recuperado, posso tirar onda. Até penso dar conselhos a quem nem me sabe um guru. Embora míope e calvo? Guru.

O que é isso, seu Rodrigues? Humorismo?

Vamos! Colabore. Escolha um futuro repleto de façanhas.

De manhã, lave roupa, passe o cheirosinho no chão dos quartos e da sala. E a cozinha? Depois do almoço; depois de lavar, enxugar e guardar pratos, panelas e talheres, só então faça florescer o jasmim no piso. Mas o banheiro? Após ter dado com a porta do guarda-roupa no dedão da esquerda, sinta a quentura da frigideira com o dedão da destra. Sua besta de meia-tigela, faça direito ou soltará os cachorros. E, por favor, pare de querer que a noite prometa o que não pode.

Dez da noite? Deite. Seis da manhã? Levante.

Entre um e outro, pra salvar a humanidade dela própria? Sonhe.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 22 de outubro de 2020.

terça-feira, 20 de outubro de 2020

O cru dos outros

 

O cru dos outros

 

O barco? À deriva. A tripulação? De primeira viagem. A situação? De mal a pior. O futuro? Catastrófico. A lição que fica? Muitas são as traves irremovíveis.

Líquido e certo? Um dia depois do outro. Ou não levaria por nome que bem define o imbróglio todo: realidade.

E que não fique o não dito pelo que não se disse? É por ouvir falar que poderia ter acontecido, mas, com prova em contrário, está vindo. Portanto, é de fato um acontecimento promissor e tanto. Com o tanto pondo as manguinhas de fora, dizendo-se: interpretação.

A interpretação de terceiros? Que conste nos autos, pois analisam os pratos limpos do que não tem pra comer. O que tem de sujo? Com a inteligência de quem vive sem pôr bois à frente do carro, algo forte. Com a sensibilidade de filho agora pai de outro pai? Picanha no alho. Com a agudeza da filha agora mãe de outra mãe? Cocada dura.

Sonha a esperança mais profunda? Que arde se rir. A pimenta ou o dólar? Nada de repolho nem feijão.

Assim a banda passa? O povo apupa. Enquanto a matilha cresce? Enquanto o barranco desbarranca. Tem coisa errada? Como sempre. E sempre resta tanto por fazer? Pra podermos deixar pra amanhã. Se não for sábado? Nem feriado.

Enfim? A caravana chega.

Do lombo, descem as mulheres suas crianças.

A simplicidade põe canecas ao fogo. Pra coar o café é preciso que a água esteja fervida, com aquela fumacinha de ainda quente.

A simpatia traz um banquinho, e na falta, espalha almofadas. Para bem acomodar quem anda carente de carinho, aconchego, abraço.

A sinceridade sorri, acolhe. Diz a essência de sua jovialidade por gestos espontâneos, no imediato que vem de berço.

A sincronicidade ganha um rosto, sem os disfarces de pessoa que só faz o que faz pensando na troca, no que vai obter pelo mérito.

Qualquer que seja a causa? Sob medida, ou o peito chia. Chiando consegue mudar alguma coisa? Do vinho pro vinagre. Tomando além da conta? Pra dormir o sono dos morgados. Mão pra toda obra? Pela metade, já que precisa de aditamento, e mais outro.

Assim, o oásis seca? Os camelos não passando de uns pangarés. As tâmaras? Uvas passas. As palmeiras? Coqueirinhos de jardim.

Então, qual deveria ter sido o pedido quando a lâmpada pifou?

Vez ou outra, a gente podia ter pensado com cuidado, sem que as bocas da fome se lembrassem de pedir a cabeça de quem vive para bailar a valsa dos que só lambem o osso.

É aqui que entram os amestrados? O circo tá bombando. Puseram fogo nas argolas? Passa o palhaço. E a criançada ri sem parar? Com os pais já meio grogues de tanta eucaristia improvisada. Como? Sem solução. E acha o quê? Um caminho.

Tem quem condene? Outros condenados. Pode acabar por aqui? Só se tiver coisa importante pra esconder. Se dá jeito? Nem depende do santo forte, da reza brava, da chave na porta.

Quem se importa? Quem se dana. Quem não mama? A mama.

Afinal, mãe é mãe. E vice-versa?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 20 de outubro de 2020.

domingo, 18 de outubro de 2020

Reserva moral

 

Reserva moral

 

Era o primeiro dia, já que se decidira. Tomada a decisão, todavia, que fosse definitiva, não houvesse a mínima hesitação. Convicto da deliberação, entraria de queixo erguido, apresentaria olhar inabalável, a voz de pessoa que iria incorporar o modelo exposto na vitrine sem precisar se explicar a vendedor ou abelhudos aquém do balcão. Para radicalizar de vez, mostraria ao mundo que mudara de fato.

Seria o começo da fase nova. Deixaria de agradar a quem nunca prestou atenção na sua transparência nata. Daria início a essa etapa que haveria de prolongar-se até o fim dos seus dias, estava certo de que conseguiria manter-se reto. Queria que a vida fosse de vencedor, de alguém disposto a ter seus direitos respeitados, de quem conhece maneiras de demonstrar tal consciência.

Sendo o princípio de uma transformação revolucionária, ao menos passara a pensar assim no exato instante em que o manequim da loja parisiense surgiu diante dele, logo no primeiro dia de sua temporada na capital francesa, como bolsista de filosofia estética.

Portando cabeça revolucionariamente íntegra, de quem dispensa qualquer divã, mesmo o do doutor Freud, a cujo objeto fotogênico até deu atenção quando visitou a casa inglesa do adorador de puros.

Como completava mais um ano de vida nesse dia, associou a data da morte do analista com o do seu renascimento em vida.

Esquisito era sentir um travo libertário, com ideias atrevidas, sem saudades do Ipiranga, fora da Pauliceia que desencaminha para bem encaminhar.

Não vamos pedir ao aniversariante maior infelicidade, pois as suas tristezas gostavam dele, tanto que viviam apegadas a tudo que fazia. Tão novo, recém-formado, já professor de graduação, já ocupado em avançar outro degrau, o do mestrado.

Ousemos concordar com o sujeito: realizasse o desejo.

E mesmo assim, melancólico?

Embora boamente orgulhoso, positivo, andava cabisbaixo, a medir os passos no calçamento da avenida, uma Champs Élysées que não o sabia fortificando-se a cada palmo.

Cumpria, naquela data, sob sol ameno de setembro, mais um ano de fidelidade a um sentimento difuso, informe, certa dormência, algo despregado da precisão do comovente.

Cumpria a experiência saboreando um belíssimo naco do sanduba de presunto cru com pasta de amêndoa, quitute que foi apresentado pela mãe de sua mãe quando era um menino de cinco anos. Ou seja, teve de passar ingredientes e montagem ao rapaz de um bistrô, bem simpático, polido, e, evidentemente, reconhecido com uns bons euros além do preço tabelado, já que tivera o capricho acatado.

Recorda-se?

Sobrevindos vinte e um anos desde que entrara um e saíra outro ─ aparecido em preto: dos sapatos ao chapéu de aba mole; o terno, a gravata estreita, a camisa de manga longa ─ e, de familiar, mantivera só uma peça, a cueca branca com bolinhas verdes.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 18 de outubro de 2020.

quinta-feira, 15 de outubro de 2020

A maldição

 

A maldição

 

Ficar reto na cama. Com o travesseiro baixinho à nuca, as pernas esticadas, sem meia nos pés, os braços ao longo do corpo; e a mente notívaga crescendo o mau jeito. Tem sol pegando forte.

Dói dormir o domingo até mais tarde? Dói.

Ficar torto no sofá. Com o sono atravessando o almoço, mantendo o copo d’água vazio entre almofadas largadas no chão. Quer saída a preguiça. Já a barriga manifesta fome, querendo macarrão ao sugo e guaraná sem gelo.

Cansa construir castelos no ar? Cansa.

No plano ou no obtuso, o corpo padece.

Fica a pensar que as paredes não pedem nada, só oferecem. E o que oferecem sem pedir nada em troca?

Dor ou cansaço... Ambos.

Há momentos de lucidez; outros de imbecilidade.

À direita e à frente de quem entra na sala, a memória ameaça com a incomunicabilidade de vivências extraordinárias, a quem as viveu. E pode-se apreciar, ou desprezar, desenhos, quadros e fotografias que estão distribuídos, geometricamente espalhados, aguardando olhares curiosos, de visitantes casuais.

Já à esquerda, do outro lado do cômodo, uns metros a mais, na diagonal hipotenusa do quadradão da sala, só tem perpendicular um vazio, retângulo branco, propondo o espaço propício à meditação. Se for pra remediar o que não tem muito que remediar, há consciência.

Agora, atrás do sofá, passa um gato, zanza também uma gatinha, e ali no encontro das costas do caminho estreito detrás do móvel com o mural do silêncio ─ tem parede desnuda de formas, mas faminta de espantos quando examinada de perto ─ aí é que brota um nada.

Caso se pense na dor ou no cansaço? Parece mesmo, um nada.

Então, o domingo cresce de dentro pra fora, com o fermento que o tédio dá a entender que não esconde nenhuma angústia. Embora aja o mal-estar, azedando o olhar. Como gordurinha localizada nas partes pudendas que a cueca amolda do que jeito que pode. O esteta tem a boca cogitando o pudim de leite e o pacotão de polvilho.

Então, o domingo pede uma anca ampla, ampliada pela sofrência do indeterminado. É dia flácido, de esparramar sem medo, tomando o guaraná de dois litros; mais e mais; com panetone fora de época, tem que ir tomando e comendo pouco a pouco; curtindo como quem está no controle da azia, do avanço do tic-tac; como quem desconfia que a convicção de estar obcecado a satisfazer-se pelo instinto é ilusória.

Come por amar-se? Come pra sofrer? Empanturra-se.

E daí vem o que nem era segredo.

Pega a emburrar, do nada. Não sente frio nem calor. Permanece a ideia idiota de permanecer como está. Cresce o estupor estúpido de afundar a bunda no sofá. Percebe engatinhando certa vontade, esse estranho convite que falha; e vontade contrafeita provoca algo.

E os olhos nem tchum?

Sem ter como ignorar o ambiente, desliga a TV. Pra não levantar, nem apaga a luz.

Paredes, suas danadas, com tanta concretude ao redor, a pessoa acaba em prostração.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 15 de outubro de 2020.

terça-feira, 13 de outubro de 2020

Madeira de lei

 

Madeira de lei


Há assuntos irrelevantes. Há assuntos que me deixam indiferente. Há maneiras odiosas de abordar determinados assuntos. Há ideias que desviam o foco quando se aborda um assunto. Há confusão de sentidos quando determinadas palavras me deixam bem perplexo ao pensar um assunto candente, daqueles que puxam, sacodem e dão um tranco, ou seja, pegam daquele jeito. Há muito assunto à espera de uma palavrinha que lhe abra caminho neste mundo de labirintos, encruzilhadas e becos sem saída.

Uma ponte ajuda. E como.

Assim, com isso na cabeça, tomo o rumo de juntar gravetos. Faço um dique. Abandono a construção. Poderia melhorá-la, porém o outro lado acaba submerso onde deveria estar à tona, e firme. Nem sei se posso falar que estou na margem oposta, pois, de fato, estou perdido. E bem cansado de fazer coisas inúteis. Como ir a milhão atrás do que fazer sem a mínima ideia do que fazer, apenas pelo impulso de agir.

Preciso começar a trabalhar com a mentalidade dos práticos, dos que fazem tudo com um objetivo, de quem, tendo a meta em mente, não perde tempo e ganha um dinheirinho. Afinal, leva tempo ganhar dinheiro, ainda mais com alguma coisa trabalhosa, cheia de detalhes, algo que valha a pena desde o princípio, e justamente pela canseira. Contudo, um guindaste, de tão pesado, afunda na lama da beira, fica impraticável sua movimentação e é preciso largar. Puxa vida, não foi desta vez, de novo.

Então, puxo o ar, paro, olho as condições, calculo ângulos, levanto os problemas, estudo com paciência as circunstâncias, vai dar certo. Dará certo: desde que aquilo funcione assim; aqui pode ser a base contanto que ali siga sendo assado; então, fico a par do que existe, do mais necessário, do que pode fugir ao riscado, do que vai pedindo correções enquanto vai sendo realizado, do que serve mesmo à coisa toda lá no fim da trabalheira. Oba. Desta feita, o que tinha de ser feito está de pé, funcionando que é uma beleza.

Olho a obra realizada, a produção imprescindível. Sorrio, ô glória.

Problema encontrado e solução implementada?

Como tudo que é humano, chega um momento, este momento, o instante em que o jeito é encarar a realidade. Mudanças ocorrem com ou sem planejamento, tendo previsibilidade ou fora do esperado, por acaso, pelo componente precário que nós humanos trazemos dentro da gente. Todavia, isso quer dizer...

Significa que inteligente é ter guardado os ensinamentos, não só do que deu certo. É preciso ter cabeça, pesar os prós e os contras. E daí bolar um dique, uma balsa, um bote, uma jangada, uma pinguela, uma boia, um colete, uma ponte, um submarino amarelo.

Só fica uma maçada se sair juntando palavra depois de palavra, ir assoreando o riozinho apenas para exibir o orgulho de ter vencido, ter chegado, finalmente, aonde queria.

Taí, bom mesmo é não bancar saúva com bico de tungstênio.


Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 13 de outubro de 2020.

domingo, 11 de outubro de 2020

Coisa besta

 

Coisa besta

 

Conheço quem tenha tarântula ou leitoa como membro integrante da família, o que não consola da solidão, mas permite conversações em que não há contrariedades fúteis de modo algum. No entanto, vou contar meu caso: em vez de bicho exótico, ou tradicionalmente aceito à mesa de jantar como um coelho ou hamster, adotei um friozinho na barriga.

Peguei carinho, que nem sei o que seria de mim sem ele.

Percebo a geada anunciando a madrugada, já emendo um pigarro no outro para enfatizar que estou respirando com a desenvoltura da minha estabilidade emocional. Entendo ter alguém pulando o muro do vizinho, pisco os olhos como se uma lágrima apagasse a gatunagem. E antes do gole de café quando em visita da amiga diabética que põe melado só para um agrado, logo a mim que aprecio beberagens sem sequer um minúsculo grão de açúcar.

E lá vem o danadinho pôr as caras.

A língua estuda o gosto, e desgosto. Sinto areia na garganta, que nem arrisco palavras. Subo espuma rasa pra maré dos olhos. Ajeito o esqueleto pro suor a me esgotar de tanta esperança abatida.

Sem o desespero dos hiperbólicos, contudo, trato de me confortar. Assim, não digo que ando certo de que posso vir a sofrer um colapso dos nervos. Acalanto o friozinho como quem cuida de pessoa inválida das pernas, mas que ainda conserva a cabeça funcionando dentro do razoável. Ou seja, pelo bê-á-bá da aritmética sentimental, a soma de um mais um continua dando dois.

Então, não vou exagerar que me arrepio inteiro.

Que sorte administrar o faniquito com a discrição dos tímidos, que sou mesmo bem reservado. Talvez seja falha minha pensar que sorte dá em quem tenha mérito, e nada do que faço me enquadra.

Vivo a vidinha dos destinados a pagar suas contas no prazo posto no boleto, comer meu pãozinho com presunto magro no café das três e roncar diante da TV antes de ir fazê-lo na cama.

Sem drama, minha rotina tem muito pouco do que imagino a quem merecedor de destaque na comunidade.

Dia a dia, calo a calo, durmo bem. Eleição depois de eleição, gripe a gripe, como bem. De lua a lua, no morde e assopra, a minha mente suporta uns trancos.

Embora um joelho inche quando corro atrás do ônibus que preciso pegar pra ir pra longe, tão longe, que topo atravancar o corredor com a minha máscara lavada.

Agora, estando no sofá de casa, de camiseta e bermuda, dispenso o rigor dos protocolos. Comendo maçã, e que delícia de carne macia, aguada, nutritiva. Isso me convém; convencido, permaneço a comer fatia a fatia. Tomara o geladinho da fruta não traga dor de dente.

Fecho os olhos, a dor que não sinto vai atrás de mim. Na torre da igreja, estou badalando os sinos. Quero acordar quem sonha. Mas os pardais não se compadecem. Tem chão até a alvorada. Na pracinha, tem cães dormindo. Com gente querendo ficar junto.

Não está doendo, mas poderia. A ideia nem mexe comigo.

O caso é sério, doutor?

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 11 de outubro de 2020.

quinta-feira, 8 de outubro de 2020

Um sol pra cada um

 

Um sol pra cada um

 

Tem feito calor, muito. Se as condições me permitem adiar meus compromissos, faço-o que nem disfarço o sorriso. Ficar em casa tem preferência em dias de sol de rachar. Há vários dias, por sinal, tenho ficado no quarto. Longe do sol, mas não do suor, do esgotamento, do cansaço úmido. Certamente, há quem veja alguma vantagem em ficar em casa a maior parte do tempo. Se consigo resolver o que preciso, então, o dia está salvo. Como, no entanto, as quatro paredes não me protegem da temperatura elevada, nem mesmo a careca está isenta do suor. Nem preciso falar do ar parado, terrivelmente abafado.

A inclemência? Seca-me a boca. Tomo muita água, fazer o quê.

Reclamo da situação do planeta; a que ponto a civilização levou a Terra. Há no ar um panorama de fim dos tempos. Mas não é por isso que bebo água. Tenho: sede; tendência a ter pedras nos rins; e gosto de molhar a garganta antes de ralhar contra a sociedade de bípedes, mamíferos, seres habilitados a usar a dupla polegar e indicador como ferramenta. Duvido muito que tal uso tenha origem natural, pode bem ser que tenhamos copiado de algum bicho mais esperto. Logo, vítima de nossa barbárie, que a cobiça e a ganância nos mobilizam a querer dar a nossa cara a tudo que tocamos. Achando que somos o rei, daí que destruímos em nome de progresso, bem-estar, como se o mundo fosse nosso.

Reinamos? Sinto que estou pegando fogo. Sinto as queimadas do Pantanal, da Amazônia e da Mata Atlântica. Tenho pescoço, e minha nuca fica suada. Dia e noite, sinto-me suado, pegajoso. Da nuca para baixo, suarento. Contrariado com a realidade.

Os dedos sob os raios do sol também suam. E conferem a pele do pescoço. E sabem que fico chato quando não durmo direito. Ponho a tamborilar por qualquer motivo. Todos os motivos são um só, dar um basta ao calorão que aborrece, impacienta e tanto irrita. Tanto pego a batucar que mais fico suado, deveras aborrecido.

A neve preta denuncia a devastação. De resto, é preciso recolher a cinza que o vento traz. País afora, o vento espalha.

Como queria que o calorão acabasse em água. Mas não chove.

Então, as águas evaporam, viram nuvens e vão inundar Sampa? Então, é assim que os céus compensam a minha prostração? Chover só em São Paulo?

Vai chover longe daqui. Isso nada tem que ver com a intensidade que meus vizinhos atribuem ao calor. Vai chover por aí, e sentimos o termômetro frustrando nossos desejos. De que chova aqui também, a dar alívio ao mormaço que gruda na pele, ensopa as roupas, e acaba criando micose.

Estou confuso; leio o que vim escrevendo. Dou por encerrado. O cérebro diz que está bom. E a consciência? O cérebro ignora-a.

Quero honrar a educação que recebi.

Quero água.

Quero um final feliz, um bem bacana.

E como quero.

Com dez graus a menos, a minha sapiência ficaria evidente. Mole, mole. Todavia fritos, os neurônios impedem-me.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 08 de outubro de 2020.


terça-feira, 6 de outubro de 2020

Meio intolerante

 

Meio intolerante

 

Os olhos estão cansados, e a realidade, que poderia dar uma boa colaborada, continua no lugar de sempre. Sob tensão. Indisposta com o sofrimento que a gente anda passando. Então, o jeito é pedir com entusiasmo, pondo ênfase nas palavras mágicas: xô, corona!

Neca.

Claro. É óbvio que o mundo não vai ouvir desejos. Por mais que a pessoa tenha fé, autorize os céus a intervirem no cotidiano restrito de movimentos ou queira falar de outros assuntos que não sejam vírus e política. Sei, sei. É crueldade da vida ficar batendo nas mesmíssimas teclas dia sim, outro também.

Por ingenuidade ou ignorância, a miopia não deixa ler a vida nem com a praticidade dos realistas nem com o desagrado dos utopistas. Melhor selar a luz das coisas com as retinas afeitas à resignação.

Veja só, uma garça passa crocitando no começo da noite. Talvez ali por volta das oito, comigo lendo na cama. Já as pálpebras tecendo o peso nas letras, que viram uma mancha, com tendências a taturana a percorrer um tanto. Nem um palmo, uns milímetros. Só pra dificultar a leitura; portanto, prontamente interrompida. Seja pelo som do bicho que passa, seja pelo cansaço de todo um dia de tarefas.

Comprar a lâmpada da sala e trocá-la. Decepção, que coisa louca o soquete ou um fio oxidado. Sei lá. Mexo, mexo, até que acenda.

Consigo dominar a saliva, embora o pé force na escadinha.

Ainda de manhã, ida ao supermercado. Sem perda de tempo. Item por item, tudo pego. E toca voltar ao setor de frutas e legumes, pois a pesagem deveria ter sido feita antes da carantonha da caixa.

O sangue dobra a língua, encorpa o pqp. Escapa mentalmente.

Cultivo um mundo circulando dentro de mim. Visita os rins, e bebo água. Mais de quatro copos, é pra não enfurecer de cólica. Divulga a insuficiência do fígado quando há exagero de gordura. Contrafilé tem rebarbas de banha que dão gosto à carne, e nem só de sal vive este carnívoro. Puxa vida.

Como se vê, minhas neuroses clamam pela escuridão sem lua. Vá dormir, seu infeliz. É preciso encaixar seu esqueleto entre o sono que já está vindo e a orelha sem pulgas do ronco largado.

O amanhã mais próximo não é sábado. Terá negócios outra vez. Terá outra renovada agenda de afazeres. Trate de domesticar-se pra enfrentar a feira dos dias. Como se o horário comercial seguisse por umas horinhas a mais. Caramba.

Por curiosidade, atiçado pelas minhoquinhas da moringa, acendo o abajur. Fuço no celular na cabeceira da cama.

Descubro...

Garças gazeiam; quem crocita é o corvo.

Sinceramente, percebo alguma bondade formigando?

No sacro, à direita de mim, em pé ou deitado, há um desvio. Como bom desviante, curto uma dorzinha bem sacana. Ajuda tirar de mim o mel de outro mundo, aquele mais belo, cheio de garça crocitante.

Não quero nem saber da placidez como virtude.

Ou os fatos fazem as pazes comigo ou vou piorar, na ranhetice.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 06 de outubro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

domingo, 4 de outubro de 2020

Dando linha

 

Dando linha

 

Sempre firme, o horizonte mantendo distância confortável da vista serpejante de rios e montanhas, assim há espaço pro azul aquietado, embora inquietante a quem ainda o quer bem bonito. Meteoro arisco, explode a ideiazinha diabólica de que ele possa um dia vir a sumir do mapa, varrido pros abismos da Terra, onde prosperam os humanos a comer, insaciáveis, as entranhas da sua face, e nosso lar já infernal.

Quando entro a pensar na postura da espécie à qual estou ligado por genética travessa, tonteia-me sabê-lo. Uma vez que como e bebo com a agonia dos inconformados, passando palavras amáveis sobre a hipocrisia, na torcida pra que a demão edulcore-a.

Meio pueril de minha parte, admito.

Sempre firme, no propósito de sustentar-me mais equilibrado, sigo trabalhando pro próximo e para mim. Ainda que os calos doam-me as mãos, as costas sintam o suor da carga morro acima, trabalhando. Já o riso, já a lágrima, os preservo não tão exagerados e reservo-os pros instantes de sua manifestação, menos pândego.

Assim, parado um instante na laje de casa, sentado numa cadeira de vime que acomodou o meu avô, olho estupidamente pra tarde que nada me diz das suas vontades.

O mistério do mundo está no sensato.

De repente, a criançada fora da escola solta pipas. O céu ganha o alarido daqueles volteios, fica tingido de esperanças desconcertantes a quem um dia irá soltá-las da linha 10, e mantém-se lúcido, que nem o bando de maritacas que passa ignorando a loucura da guerra aérea por varetas, sedas e metros e metros da tal linha.

Até numa brincadeira, somos vorazmente carniceiros.

Pra não desabar num mau humor que afete meu estômago, deixo que as nuvens contem histórias, movendo e removendo formas. Dali a pouco, a face horrenda da bruxa dos desenhos de meus nove anos. Depois, um bicho, elefante virando cachorro virando camelo.

Olho, e sinto o que vejo.

O sadio do meu coração espia o céu. Brilhando desafiador, há sol. Topo deitar no cimentado da laje. Além dos muros de casa, há esta cidade que envolve. O entorno tão vivo convida a sentir o corpo como objeto de prazer, e gozo, outro dos “irresponsáveis trabalhando”.

Tiro tênis e meias. Tiro a camiseta. E meus óculos.

Estico as pernas. Pouso os calcanhares no chão. Passo os braços sob a nuca. Sinto-me flertando com a vida azul daquele céu. Falta um silêncio de mosteiro no alto da montanha. Tudo bem, o Monte Athos fica longe, bem longe de onde estou, mas estou numa boa, curtindo a folga do apocalipse. Quero uns minutinhos.

Sem um real a mais no salário ─ calço as meias, preciso cortar as unhas dos pés; calço os tênis, que pedem água com urgência; e visto a camiseta encardida, desbotada, bem surrada.

A coisa aperta. Há em mim esse sentimento que pouco se parece com satisfação, que já não tem pastel de palmito na rua onde a gente andou de bicicleta pela primeira vez.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 04 de outubro de 2020.

quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O intermediário

 

O intermediário

 

Era aniversário do pai. E tudo contribuía pra felicidade geral, dele próprio com as devidas expansões, afinal sentia-se bem, com os seus ossos bem dormidos, os seus pulmões bem arejados e a cabeça boa pra cálculos improvisados. A data pedia mesmo um sujeito apto às verdades, que a realidade não o constrangesse a negar-se felizardo. Embora surgisse aquela coceirinha danada em algum lugar da massa cinzenta, louco pra contrariar-se, sabotar-se, desapontar-se. Sentindo a autoestima em ótimo estágio, percebia-se no comando de si, mas a vaidade moderadamente mal-intencionada...

Nem bem sentara à mesa, passou a elogiar-se. Antecipou-se aos problemas, que lamentavelmente não atinariam com seu momento de confraternização efusiva.

O mundo inteiro sabe que basta falar e as desgramadas das dores de cabeça estragam o estrogonofe, azedam os pavês, fazem aquele estrago. Pode ir dando adeus à nuvenzinha levemente hidratante de neurônios exaustos; tchau, paz de espírito.

O grande homem, porém, não esmorece com facilidade.

O grande homem se reconhece pela espiritualidade, de gente que conta com suas moedas para negócios de pequena monta, como ir comprar cigarros na esquina depois da novela. Mesmo que não fume, vai num trago e volta num pigarro. Senta-se já alegrinho na roda das crianças pra ouvir-lhes os bonecos no salvamento do dia.

Quando sóbrio, o homem honrado nem repara no que vai fazendo. Tão logo tenha escovado os dentes, apaga a luz do banheiro; saindo, dá uma olhadinha rápida pra torneira bem vedada.

Capaz de idolatrias, preocupadíssimo com família, até telefona pra namoradinhas do colegial, cobrando boletins dos ocorridos. Que não lhe escondam nada ─ nem caxumba e nem virose.

Brilha na TV um ícone do jornalismo, alguém que há tempos dizia o que segue dizendo só que em outro contexto: a favor da mudança política, que a maioria fosse ouvida por meio do voto. O voto sofresse as cirurgias éticas precisas, pra ver-se livre de cabrestos coronéis.

A pessoa de fibra não se entristece; agradece ao recusar a última fatia de bolo de carne; dispensa comentar os chavões que pululam a torto e a direito. Não entra na ciranda contra os dias correntes, que as minorias tremulem aos quatro ventos as suas agendas.

Você enaltece o homem quando as pessoas, sem parentesco com o dito cujo, dizem dele maravilhas. E muito mais gente, sem usufruir do café da manhã na cama com o fulano, destaque nele as virtudes e as capacidades práticas que dão inveja. Assim como muitíssimos não franzem a testa nem fazem bico, nem mesmo pelas costas, você quer apoderar-se dessa alma, imitá-la.

Enfim, com uma autonomia que dá gosto, o seu surrado fígado faz a ponte entre a consciência natural do mundo e a carapaça agitadora da realidade; e a besta só tem que voar baixo pro sanitário em plena alvorada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


terça-feira, 29 de setembro de 2020

Galo aberto

 

Galo aberto

 

A janela era pequena, parecia menor que um metro. Não bastasse o tamanho minúsculo, desproporcional à face de pedra em que se via incrustrada, uma das suas metades, do centro pra direita, exibia uma cortina abreviando-lhe a abertura.

E poderíamos ir além do pano coberto de figuras. Reparando bem, uns pequenos beija-flores, pretos sobre fundo laranja. Algo relevante, de imagem sóbria.

Fixemos a nossa atenção na parte nua. Mais, tenhamos a audácia de ir pela fenda. Há luz, provavelmente de uma vela.

Mesmo que não haja quem nos dê permissão expressa de sondar o seu derredor, imaginemos o que possa estar iluminando.

Que coisa. Por algum motivo, recuamos.

Um gato miando na vizinhança? Um bêbado proclamando pragas?

Uma distração.

Ainda que a curiosidade com aquele recanto parcialmente exibido por meio metro de visibilidade funcione como ímã, a nós outros que aqui estamos observando, prefiramos calar quanto às relações dos seres vivos com os objetos do recinto.

Mantenhamos a cautela de não saborearmos outros dissabores.

Temos nossas obrigações históricas e políticas; no entanto, que a nossas fabulações não extrapolemos, que isso nos impeça de supor o que não ouvimos dali, além da janelinha simples sobre o caos.

Fiquemos nessa presença. De uma distinção acusatória.

Não sei quanto a você, mas me desgosta tomar alguma correção pelo constrangimento do dedo levantado como se algum limite tivesse sido desrespeitado. Vindo o pito, acabrunho-me, dá-me um calor, fico vermelho; vendo o efeito, quem pensa corrigir a falha com o gesto de autoridade cutuca a ferida, como se adviesse um aprendizado besta.

Mas a pessoa bestificada, bestificada ela fica.

Onde a linha imaginária foi cruzada? Se imaginada, invisível. Se a mim não me serve de barreira a não ser transposta, como evitá-la?

Pessoa comum, como qualquer que enfrenta os problemas com a dignidade dos tranquilos, posso presumir que me julgam prejudicado de algum modo pelo juízo, incapaz de avaliar a minha falta, já que a cometi metendo o nariz onde não deveria.

Respiro fundo. Olho a janela. E a luz ignora o mundo de cá, fora.

Como isso me atordoa.

E penso: antigamente era ainda um instante querendo tornar-se o passado perfeito, só que não passava. E, perdurando, segue sendo a escuridão que meus braços cegos não medem o suficiente para evitar a testa no batente.

Acidental, o presente que continua a se tornar insuperável por não distinguível do corpo que sinto; lugar em que me vejo circunstanciado por sensações, e abstrações correlatas.

É óbvio: canta latejante o galo, querendo gelo.

No aturdimento da ideia, o oxigênio escasseia, o sangue engrossa e os joelhos pedem o chão. Seguro a lágrima, que não descarregaria a vergonha do engano, do cálculo que não muda a porta um palmo.

Aliás, galos abrem as manhãs, não janelas.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 29 de setembro de 2020.

domingo, 27 de setembro de 2020

Precisão

 

Precisão

 

Há prazeres civilizados que prosperam com maior facilidade nas pessoas que separam o joio do trigo só pelo faro. Experientes de tal forma que as condições de cada estação entram a orientar o sentido de sua estada no mundo sem pânicos nem desesperos. Satisfeitas da vida, mais acentuadamente com a passagem da seca do inverno pra umidade da primavera, sorriem feito ipês amarelos, roxos, vermelhos, azuis, uma palheta de irradiações tão esplendorosas que a realidade oferece a quem esteja perceptivo a tamanhos maravilhamentos.

A sabedoria vem pela atenção às coisas da vida. Geralmente, nas pressas disso agora e daquilo pra ontem, a boca engruvinha de tensa e o olho pisca inventando cisco. Vê-se que dá trabalho ir vivendo.

Portanto, sábio não cochila debaixo de jaqueira carregada.

Contudo, tem quem goste de criticar só pra manter a posição que julga ter.

E como havia o que pensar depois daquele almoço, com a família reunida em torno das contrariedades. Sobrando passar pito no genro perdulário, a remendar dos maltrapilhos da netinha predileta. E assim, falta sal no talharim; e assado, é muito alho no frango.

A cabeça do sujeito estava neste estado, vítima de aflições vindas de roldão. Pressentindo o angu virado da congestão, saiu.

Foi caminhar.

Pra respirar em paz, andava devagar. Tinha de sentir-se calmo.

Queria deixar-se à solta pelo mundaréu de árvores, que nem sabia os nomes. Ouvia a passarinhada, gostando bem.

Homem da cidade, aquilo entrava pelos nervos, tirando o peso na pegada. Mas, precisando provar concreto o terreno pisado, cuidando não cair nem nada, firmava o pé num caminho já trilhado.

Respirando o úmido da relva, apurava o senso, que nem percebia.

De repente, talvez por sugestão da mata tão viva em diversidades de planta e bicho, deu com um cajueiro exercendo a clareira de sua beleza, como uma história antiga.

Diante do insólito da abundância de cajus, ruminou contar-se que eram três homens. Cada qual pegou resolver o que tinha de dar cabo.

O primeiro plantou uma mangueira na frente da casa. Prevendo as mangas madurinhas, fez uma escada. Quando a árvore estava cheia de frutos vistosamente suculentos, nem pôde erguê-la, uma vez que tinha dado cupim.

O segundo virou um touro de bravo porque ficou sem TV. Da noite pro dia, por conta do vento forte, a parabólica rodou que não pegava canal algum. Pra piorar, gastou um dinheirão com escada pronta.

O terceiro dos homens, esse plantou uma pereira. Foi podando de tempos em tempos, acompanhou o crescimento da planta. Confirmou na internet a época certa pras peras serem colhidas. Cortou galhos e preparou a madeira, fez a sua escada. E curtiu comer no pé uma fruta mais gostosa que a outra.

Ô caminhada.

Ainda que não tenha ido muito longe com o domingo, justamente, salivava azedo o creme de leite das goiabas da cachola.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 27 de setembro de 2020.

 

 

 

 

 

 

quinta-feira, 24 de setembro de 2020

Aqui e agora

 

Aqui e agora

 

Muito bem. Pelo acaso, digamos que você tenha estado num lugar dos sonhos, um bom paraíso, com tempo firme e instável, calor e frio, sol e lua, ipês floridos na mata ribeirinha e grama boa para uma cabra aqui e uma vaca ali, fora as galinhas pros ovos benfazejos nos galhos de limoeiro, laranjeira ou abacateiro, menos na araucária apinhada de pinhão, que o inverno merece café com pipoca. Já ia pondo de lado a casa híbrida: pro frio de julho, tem a parte de alvenaria; e pro calor de fevereiro, tem sala e cozinha de madeira, nada mais comum de achar em muito interior por aí adentro. Puxa vida, parece que sua televisão, sua geladeira, a sua máquina de lavar roupa, o seu ferro de passar, o telefone celular, o microcomputador, o micro-ondas, e todas aquelas bugigangas não mencionadas, tudo dispensável, por falta de luz.

Mas tal prosperidade, assim como veio, evaporou-se.

Você está de volta ao seio da civilização, de acordo com o modelo de um ocidente europeu com toques asiáticos e africanos. Todavia, o regresso deixará de provocar dores e espantos abissais, passando-se por cima de sutilezas e pormenores que particularizam cada pessoa. Grosso modo, há de ignorar vieses.

Ter sua vida posta outra vez nos eixos do progresso irritantemente tecnológico, da ordem monetária especulativa, dos modos massivos a ditar o errado pelo certo, das coletividades maquiadoras de indivíduos e de um estado demográfico que endireita. Em outras palavras, terá você tirado a sorte grande de ir viver de novo no hospício controlado pelo Simão Bacamarte erigido em contraindicações, por dar excesso à razão ou abusar das ervas?

Nestas circunstâncias, alguém diz para você que o tempo passado longe da sociedade tem que ganhar corpo em histórias, e contratos já começam a pedir autógrafo nas linhas pontilhadas, e roteiros já levam em consideração podcasts, lives, curtas e longas metragens, novelas, séries para maratonar com a família, entrevistas exclusivas com meio mundo mais seu pai.

No meio desta avalanche de situações bastante embaraçosas pra você, que nunca antes tinha se tocado da importância de cultivar uma fama própria, você acha redundante a insistência e a persistência de perguntas e mais perguntas sobre a mesma coisa: a vida numa ilha.

Sua existência era mesmo alienada. Fora do padrão definido pela régua dos costumes, dos consumos, dos comportamentos. Esta sua estada temporária à margem da vida plena, você não se alimentava de vaidades e tagarelices tolas, fúteis, acondicionadas pelo efêmero. De fato, ela era deveras de outro mundo.

Já pra cá!

Mas, pro futuro financeiro dos vendedores de sonhos acessíveis a quem sem vocação para engendrar fábulas tão diferentes do lugar comum a toda gente, fazendo bem rapidinha uma revisão mental...

Se não tem semente, jabuti não come jabuticaba.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 24 de setembro de 2020.