Via
oral
Como ficaria o primeiro parágrafo?
Embora estivesse fazendo uso ─ pleno ─
de balde, pano e rodo, a mulher seguia aturdida por aquelas vozes carcomidas,
de paradoxos estrábicos, ensurdecidos e tartamudos. Coisa que uniformiza
aquelas gentes estruturalmente anônimas, restando à operadora manual obrar por
resoluções outras que validassem as prerrogativas tão brasileiras quanto às da
maioria, a faminta de obrigações entendidas mas nunca atendidas. E como faz água,
tão salgada, nesta pele, no ombro, neste ser sapiente, no vozerio animal de
língua disseminadora de bruma.
O pernilongo tirou a concentração. Em
vez de entrar uma torneira?
Sem dúvida, há benefício quando se
honra a defesa do legítimo. Sem honra, há legitimidade que beneficia apenas a
certeza que se defende da dúvida. Sem lucro algum, há alma que se vende quando
a consequência vira causa bem no meio do papo.
Desconversando, a estupidez cava o
fosso para que a água brote. E quanto mais fundo, mais denso; quanto mais
denso, mais obscuro; quanto maior a obscuridade, maior a tensão. Abreviando pro
absurdo, muito maior terá a pusilanimidade de haver-se; como não hão de vir ao
mundo, inventam-se explicações: imbecis, que alegram corações afobados; e
inúteis, que tornam leve o peito cavado arenoso. E seco, próprio à vilania dos
resignados, devotos de infâmias.
Seco, diz o poço o seu abismo; deserto
vertical como mortalha da humanidade falhada, fracasso imperdoável.
Queria perdão, mas não engenha a cura.
Algum unguento, alguma drágea, algum invento químico que dominasse as entranhas
de uma péssima memória, dessas tão cruéis, insuportavelmente incapazes de pôr
um pano na mão que o torça.
O zunido perturba. A concentração se
esvai.
No entanto? O que se ouve, quando é
possível ouvir com atenção, não passa de mixórdia de recordações, de palavras
em frangalhos, a perda de uma felicidade ─ temporã e pouco ancestral.
É evidente o embaraço com a falta de
coesão entre as partes, fios soltos que sequer se enovelam, dando em um nó.
Que ânsias são essas que dispensam a
coerência?
Falta algo. O que fosse lógico,
imprescindível, tomasse as rédeas da mente. Que não levasse ao tombo. Algo normal,
impetuosamente normal. Há queda, pois as pessoas têm paixões.
Há que se pensar em causa própria? Há.
E como há urgência em conhecer-se, em
tomar a iniciativa de pôr razões à frente da noite perdida, então, que a mente perturbada
dite quais razões são a fonte da perdição.
Humilhe-se? Perceba-se humilhado.
Mas a falta de sono atordoa, confunde,
desequilibra.
Um pernilongo, só um; e a madrugada, travada,
alucina.
A colcha cobre a cabeça; o som passa
assim mesmo.
Pouco importa. Uma pessoa sem dormir
pouco espera que o texto derrube jacas, enfureça marimbondos e espicace tatus.
E há de haver quem faça o fogo usando só
dois parágrafos.
Rodrigues
da Silveira
Ibiúna, dia 25 de outubro de 2020.