quinta-feira, 1 de outubro de 2020

O intermediário

 

O intermediário

 

Era aniversário do pai. E tudo contribuía pra felicidade geral, dele próprio com as devidas expansões, afinal sentia-se bem, com os seus ossos bem dormidos, os seus pulmões bem arejados e a cabeça boa pra cálculos improvisados. A data pedia mesmo um sujeito apto às verdades, que a realidade não o constrangesse a negar-se felizardo. Embora surgisse aquela coceirinha danada em algum lugar da massa cinzenta, louco pra contrariar-se, sabotar-se, desapontar-se. Sentindo a autoestima em ótimo estágio, percebia-se no comando de si, mas a vaidade moderadamente mal-intencionada...

Nem bem sentara à mesa, passou a elogiar-se. Antecipou-se aos problemas, que lamentavelmente não atinariam com seu momento de confraternização efusiva.

O mundo inteiro sabe que basta falar e as desgramadas das dores de cabeça estragam o estrogonofe, azedam os pavês, fazem aquele estrago. Pode ir dando adeus à nuvenzinha levemente hidratante de neurônios exaustos; tchau, paz de espírito.

O grande homem, porém, não esmorece com facilidade.

O grande homem se reconhece pela espiritualidade, de gente que conta com suas moedas para negócios de pequena monta, como ir comprar cigarros na esquina depois da novela. Mesmo que não fume, vai num trago e volta num pigarro. Senta-se já alegrinho na roda das crianças pra ouvir-lhes os bonecos no salvamento do dia.

Quando sóbrio, o homem honrado nem repara no que vai fazendo. Tão logo tenha escovado os dentes, apaga a luz do banheiro; saindo, dá uma olhadinha rápida pra torneira bem vedada.

Capaz de idolatrias, preocupadíssimo com família, até telefona pra namoradinhas do colegial, cobrando boletins dos ocorridos. Que não lhe escondam nada ─ nem caxumba e nem virose.

Brilha na TV um ícone do jornalismo, alguém que há tempos dizia o que segue dizendo só que em outro contexto: a favor da mudança política, que a maioria fosse ouvida por meio do voto. O voto sofresse as cirurgias éticas precisas, pra ver-se livre de cabrestos coronéis.

A pessoa de fibra não se entristece; agradece ao recusar a última fatia de bolo de carne; dispensa comentar os chavões que pululam a torto e a direito. Não entra na ciranda contra os dias correntes, que as minorias tremulem aos quatro ventos as suas agendas.

Você enaltece o homem quando as pessoas, sem parentesco com o dito cujo, dizem dele maravilhas. E muito mais gente, sem usufruir do café da manhã na cama com o fulano, destaque nele as virtudes e as capacidades práticas que dão inveja. Assim como muitíssimos não franzem a testa nem fazem bico, nem mesmo pelas costas, você quer apoderar-se dessa alma, imitá-la.

Enfim, com uma autonomia que dá gosto, o seu surrado fígado faz a ponte entre a consciência natural do mundo e a carapaça agitadora da realidade; e a besta só tem que voar baixo pro sanitário em plena alvorada.

 

Rodrigues da Silveira

Ibiúna, dia 01 de outubro de 2020.

 

 

 

 

 

 

 

 

 


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