Quatro
cenas e uma explicação
Tirando o sumo, laranja é só bagaço? Diante
do rumo do universo, mesmo sem pôr influência na erradicação da malária entre
as emas, doida para mostrar o uso da sensatez para manter-se inconsistente, a
crônica pede calma enquanto bica o próprio umbigo.
Se há razões bastantes para tão
animada demência?
Ocupado em fazer direito o que o cosmo
parece ter-lhe incumbido de prestar contas, com a afobação momentânea pelas
circunstâncias dadas no presente, o velho anormal, no figurino de careca de
pijama amarelo, cuidava do café quando uma distração de origem estranha, surtindo
sua gravidade metafísica, mui agravada pela pandemia geral logo às cinco da matina,
foi quando o suporte do filtro tomou para si a decisão de tombar sobre a mesa.
Com este tombamento, desencadeou-se
uma série lamentável de eventos, dos quais o destaque fica pra mistura de pó de
café com os cacos fumegantes das palavras, amálgama largado no chão por uns
minutinhos porque pelando de quente.
Antes de dar o domingo como
terrivelmente perdido, mas imbuído das prerrogativas de cronista, vendo-se, portanto,
compelido a soltar desculpas a quem lê, eis que o texto admite umas tantas
cenas, uma vez que, isoladas da estupefação que as ideias costumam provocar
quando agitadas pelos ventos da inspiração, podem apanhar sentido justamente pela
súbita fulguração.
A primeira das cenas sucedeu-se na
esquina Pinoia com Brasil:
― Corruptados? Uai, então, no Senado
não tem corrupto?
― Tô falando de outra coisa. Se tem corruptado,
tem corrupteiro.
― Entendi. Então, instalaram luz
vermelha no Congresso?
Como foi dito acima, a mistureba traz
para perto o que a distância encobre: a desconectividade dos fios. Por
improvisados, com lapsos embromando a impedância, a lâmpada da inteligência pisca,
pisca. O comprovante? A seguinte anedota.
Diz o vagamundo do cão:
― Careca do pijama amarelo, por que
exibe sua máscara amarela aqui nas ruas de gente gris de tantas mágoas
acumuladas?
Ao que responde o homem que traça histórias
a granel:
― Sarna que fala, vim pra mais bem
ouvir os meus silêncios.
Pra evitar que mijo de cão resulte em vacina
a quem babando uns imoralismos diante das emergências do clima, engata-se a
terceira:
― Quanto tempo, dona paciência. Andava
sumida, hein?
― Como não vou me adaptar ao que me testa
sem parar, tenho cuidado de mim, seu ódio.
― Quanta lucidez.
― Não mango do riso a desalinhar-se do
prumo do siso.
Quando mal se espera...
A nossa quarta cena, singela e humílima,
com raízes no coração e florescência na cabeça, como toda beleza convulsiva, vira
uma brasa, queima no céu da boca, busca o tépido d’água de Alhos & Bugalhos do Paulo Mendes Campos.
A fiar? O sim.
Parceiro dos encantamentos mamulengos
de quem não se dá por vencido, pleno de planos e já ébrio da pimenta deste
rango, firmo,
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 02 de agosto de
2020.