domingo, 2 de agosto de 2020

Quatro cenas e uma explicação


Quatro cenas e uma explicação

Tirando o sumo, laranja é só bagaço? Diante do rumo do universo, mesmo sem pôr influência na erradicação da malária entre as emas, doida para mostrar o uso da sensatez para manter-se inconsistente, a crônica pede calma enquanto bica o próprio umbigo.
Se há razões bastantes para tão animada demência?
Ocupado em fazer direito o que o cosmo parece ter-lhe incumbido de prestar contas, com a afobação momentânea pelas circunstâncias dadas no presente, o velho anormal, no figurino de careca de pijama amarelo, cuidava do café quando uma distração de origem estranha, surtindo sua gravidade metafísica, mui agravada pela pandemia geral logo às cinco da matina, foi quando o suporte do filtro tomou para si a decisão de tombar sobre a mesa.
Com este tombamento, desencadeou-se uma série lamentável de eventos, dos quais o destaque fica pra mistura de pó de café com os cacos fumegantes das palavras, amálgama largado no chão por uns minutinhos porque pelando de quente.
Antes de dar o domingo como terrivelmente perdido, mas imbuído das prerrogativas de cronista, vendo-se, portanto, compelido a soltar desculpas a quem lê, eis que o texto admite umas tantas cenas, uma vez que, isoladas da estupefação que as ideias costumam provocar quando agitadas pelos ventos da inspiração, podem apanhar sentido justamente pela súbita fulguração.
A primeira das cenas sucedeu-se na esquina Pinoia com Brasil:
― Corruptados? Uai, então, no Senado não tem corrupto?
― Tô falando de outra coisa. Se tem corruptado, tem corrupteiro.
― Entendi. Então, instalaram luz vermelha no Congresso?
Como foi dito acima, a mistureba traz para perto o que a distância encobre: a desconectividade dos fios. Por improvisados, com lapsos embromando a impedância, a lâmpada da inteligência pisca, pisca. O comprovante? A seguinte anedota.
Diz o vagamundo do cão:
― Careca do pijama amarelo, por que exibe sua máscara amarela aqui nas ruas de gente gris de tantas mágoas acumuladas?
Ao que responde o homem que traça histórias a granel:
― Sarna que fala, vim pra mais bem ouvir os meus silêncios.
Pra evitar que mijo de cão resulte em vacina a quem babando uns imoralismos diante das emergências do clima, engata-se a terceira:
― Quanto tempo, dona paciência. Andava sumida, hein?
― Como não vou me adaptar ao que me testa sem parar, tenho cuidado de mim, seu ódio.
― Quanta lucidez.
― Não mango do riso a desalinhar-se do prumo do siso.
Quando mal se espera...
A nossa quarta cena, singela e humílima, com raízes no coração e florescência na cabeça, como toda beleza convulsiva, vira uma brasa, queima no céu da boca, busca o tépido d’água de Alhos & Bugalhos do Paulo Mendes Campos.
A fiar? O sim.
Parceiro dos encantamentos mamulengos de quem não se dá por vencido, pleno de planos e já ébrio da pimenta deste rango, firmo,

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de agosto de 2020.

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