E
sem mais delongas
Compras da semana. Sim, o jeito é
voltar ao esquema anterior aos dias de confinamento. Pois o período quinzenal
acabou por mostrar a incapacidade de administrar a vida doméstica com a
praticidade dos ajuizados. Teve desperdícios, de verduras murchas e frutas
mofadas. Por imperícia na armazenagem.
A razão anda escalafobética.
Talvez outro travesseiro permita um
sono menos frustrante. Que saudade das horas uniformemente percorridas. Sem
exagero, faz jus a sete dias de cinco horas ininterruptas de sono por noite. A
troca tem prioridade. Por um mais baixo, um propício ao racional.
Sim, é preciso entender que a falta de
sono dá nós.
As confusões comem a manhã num piscar
de pálpebras. Os olhos não piscam, lacrimejam. E uma vez ressecados, umedecem-se
por si. Pode ser pela tela do telefone enfiada na cara. O nariz está normal, o
ar fluindo para dentro. O problema está em ficar o tempo todo. Só não se sabe o
quanto, pois não se cronometra a satisfação, desfruta-se.
Os nervos vão ao limite. A nuca anda
dolorida, picota o sono. Pior quando acorda, vira ver o relógio, desliza pelo
sofá quando lê jornais. A cabeça tenta acertar-se. Não caminha e não corre,
voa. Haja goles de café. As pernas cruzam-se, descruzam-se. O gás acabou. A
água faltou. Tem gente que não falta, e faz o gesto que acolhe. Da pessoa que
menos se cobra, dela vem a amizade. O aliviado larga o celular; arruma o tal
travesseiro. Soluciona, opta por minorar a dor.
Faz bem. Com o pensamento à deriva, o
foco é não se afogar.
O coração no peito, protegido pela
caixa torácica. Mas há choques que abalam tronco e membros, mais ainda a
cabeça. A mente respira o mundo pelas retinas. A consciência nem saliva; os
dentes trituram o misto frio. O cioso do corpo engole aquele almoço.
Inspira. A rede de neurônios sustenta
a oxigenação da carne que tem fome. Havendo sopro, há fogo.
Serpejante, o tempo nutre-se do corpo.
Que vai no embalo.
A rádio ambiente está de volta. Embalagens
gritam as marcas de suas qualidades. Uma imagem vale pelo ícone que projeta. Se
fosse a TV, bastaria um botão pra correr fantasmas, vampiros, pastéis pras
trevas da origem. Ao distraído do mundo, exilado de si, o labirinto de
simulacros opaca-lhe o cérebro. Bobeia um instante, pega o bacon.
Os carrinhos encontram-se. Por mímica,
resolve-se. O medo torna estressante ir por entre as gôndolas. A ansiedade tira
a paciência. A respiração vai a um grau de pouca tolerância. Saindo pelas
narinas, o ar mais quente embaça os óculos. Sobe um tanto a máscara sobre o
nariz. Tem a lista por fazer, perturba-se.
Hora de parar, pagar e ir-se.
O carrinho que impedia agora pede
passagem. Tem a máscara na testa. O sorrisinho. Que vá. A admissão de alguma coisa.
Todo mundo dá muito o que pensar.
Mas: o que dizer a quem não compreende
que há perguntas que começam pela resposta?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 04 de junho de 2020.