quinta-feira, 4 de junho de 2020

E sem mais delongas


E sem mais delongas

Compras da semana. Sim, o jeito é voltar ao esquema anterior aos dias de confinamento. Pois o período quinzenal acabou por mostrar a incapacidade de administrar a vida doméstica com a praticidade dos ajuizados. Teve desperdícios, de verduras murchas e frutas mofadas. Por imperícia na armazenagem.
A razão anda escalafobética.
Talvez outro travesseiro permita um sono menos frustrante. Que saudade das horas uniformemente percorridas. Sem exagero, faz jus a sete dias de cinco horas ininterruptas de sono por noite. A troca tem prioridade. Por um mais baixo, um propício ao racional.
Sim, é preciso entender que a falta de sono dá nós.
As confusões comem a manhã num piscar de pálpebras. Os olhos não piscam, lacrimejam. E uma vez ressecados, umedecem-se por si. Pode ser pela tela do telefone enfiada na cara. O nariz está normal, o ar fluindo para dentro. O problema está em ficar o tempo todo. Só não se sabe o quanto, pois não se cronometra a satisfação, desfruta-se.
Os nervos vão ao limite. A nuca anda dolorida, picota o sono. Pior quando acorda, vira ver o relógio, desliza pelo sofá quando lê jornais. A cabeça tenta acertar-se. Não caminha e não corre, voa. Haja goles de café. As pernas cruzam-se, descruzam-se. O gás acabou. A água faltou. Tem gente que não falta, e faz o gesto que acolhe. Da pessoa que menos se cobra, dela vem a amizade. O aliviado larga o celular; arruma o tal travesseiro. Soluciona, opta por minorar a dor.
Faz bem. Com o pensamento à deriva, o foco é não se afogar.
O coração no peito, protegido pela caixa torácica. Mas há choques que abalam tronco e membros, mais ainda a cabeça. A mente respira o mundo pelas retinas. A consciência nem saliva; os dentes trituram o misto frio. O cioso do corpo engole aquele almoço.
Inspira. A rede de neurônios sustenta a oxigenação da carne que tem fome. Havendo sopro, há fogo.
Serpejante, o tempo nutre-se do corpo. Que vai no embalo.
A rádio ambiente está de volta. Embalagens gritam as marcas de suas qualidades. Uma imagem vale pelo ícone que projeta. Se fosse a TV, bastaria um botão pra correr fantasmas, vampiros, pastéis pras trevas da origem. Ao distraído do mundo, exilado de si, o labirinto de simulacros opaca-lhe o cérebro. Bobeia um instante, pega o bacon.
Os carrinhos encontram-se. Por mímica, resolve-se. O medo torna estressante ir por entre as gôndolas. A ansiedade tira a paciência. A respiração vai a um grau de pouca tolerância. Saindo pelas narinas, o ar mais quente embaça os óculos. Sobe um tanto a máscara sobre o nariz. Tem a lista por fazer, perturba-se.
Hora de parar, pagar e ir-se.
O carrinho que impedia agora pede passagem. Tem a máscara na testa. O sorrisinho. Que vá. A admissão de alguma coisa.
Todo mundo dá muito o que pensar.
Mas: o que dizer a quem não compreende que há perguntas que começam pela resposta?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 04 de junho de 2020.

terça-feira, 2 de junho de 2020

Ciranda em tom menor


Ciranda em tom menor

Ficaríamos miseráveis invocando normas de segurança sanitária, justo com a jovem dos seus quinze anos com sua bebê de um aninho talvez. A filhota quer a mamãe pra si: joga um palito de batata frita no chão da lanchonete e ri. Como a travessa atira gostoso outros mais, divertindo-se a conquistar reprimendas tão fraternais.
Façamos a gentileza de mencionar o homem que finge observar a cena, mas seu olhar vê um nada daquele carinho todo. O senhor tem problemas, umas dívidas para consigo, tantas jornadas por cumprir. É sua a série de fracassos: no trabalho; no casamento; na cama que só atrapalha encaixar os números na planilha; no holerite minguado que dispara a psoríase pelas pernas conjugais. Deixemos que fale por ele o pedaço do beirute suspenso, entre o prato e a boca.
Focalizemos na garçonete que solta muxoxos. Ao que parece, são tantas as fotos que a cativam. Ajamos com probidade, ela realmente está radiante. Sim, quando o amor vigora, quando a pessoa ama, as razões pra dissabores continuam no lugar de sempre: ao alcance das lamúrias, disponível ao rancor que enruga a testa.
No entanto...
Em caso de pânico, escolhamos tomar do amor a dose certa.
Se não cura, alivia. Tornemos leve o coração que pulsa. O sorriso comprova o ponto de vista: o amor transforma o fraco em forte; o forte em pulsão; a pulsão em energia; tal energia que está tingida de loiro que a chapinha fez alisado, com as pontas azuladas que o boné não esconde. Assim, sigamos pela beleza que irradia algo de bom.
Boníssimo, enfatizemos a camaradagem. Torçamos pela faxineira, pela atendente que chama a faxineira, pela mãe que pede desculpas pela filhinha que pratica o amor como arremesso de batata.
Ah! A nossa confiança, a nossa fé, a nossa luz no fim do túnel.
Sim, admitamos: o vírus poderia ter derrubado quem passou pelos meses da travessia sem abraço ou precisou do consolo de uma noite de chá frio com biscoitos murchos. Mesmo ouvindo muitas decepções misturadas com superações, é recomendável portar-se com respeito. Toleremos os crocodilos que lamentam, mas estejamos do lado dos que guardam a decência dos tristes que puxam do fundo do peito um suspiro sofrido, profundamente doloroso, tão sufocante. E solidários, escutemos esse coração que bate, bate, bate, e vai batendo.
Vivamos. Convivamos.
Há pardais piando de fio em fio. Há vira-latas ladrando pros pneus que passam. Há tetras fazendo bolhas no aquário das salas escuras. Há ônibus em cujo ventre a mocidade cai no sono tão logo entra uma senhorinha com sacolas. Há um dentista limando a cárie do canino do porteiro que baba por gomas. E tem ainda a adolescente esgoelando no banho, certa de que seu entusiasmo entrará pelos fones do moço que rebola, bola, bola, ao ritmo do funk da poderosa viralizada.
Assim bailam as máscaras nas cirandas do ânimo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 02 de junho de 2020.

domingo, 31 de maio de 2020

Peixe é


Peixe é

Trouxe a nova careca da cabeça velha quarar ao sol do meio-dia de maio, quando ali na esquina, no buraco drenado por uma trama de canos ligada ao motor ativo 24 horas, depara-se com aquilo.
Aquilo se mexe na água suja, amarronzada e lamacenta. Agita-se na poça, emporcalhando-se, sem nenhum sinal de que uma ajuda se faz precisa. O que se alegra no lodo da terra é um cão?
Leitor do mundo, já calculando as suposições que virão a seguir: a metáfora do ser caído na lama diz do sentimento que está represado pela situação do confinamento; o bicho enfiado na poça sinaliza para as perturbações que o isolamento provoca; a farra animal ratifica que as asneiras que saltam aos olhos brincam com as dores do mundo.
Para entender o que a cena parece transmitir, imagine-se que um cão divertindo-se numa poça d’água barrenta em mais um sábado de quarentena queira realmente externar alguma lógica ética, ou a visão ficará nisso que se vê: evento fortuito nada atroz, sem a pretensão de traduzir o mal-estar, a incerteza na raiz de moléstias inquietantes.
Leitor da vida, movido talvez por uma empatia maior que a razão, topa o jogo, aposta que há mesmo alguma mensagem de fundo. Que o acaso, folgazão, beija a calva como uma brisa boa.
Do nada, assim sem freio, a memória inventa de levar a mente do cão que nada por nadar para um domingo de desvendamentos antes do Tri. Sopra para um dia, em 68 ou 69, quando o sujeito não ostenta franja que obstrua os olhinhos faceiros dos cinco ou seis anos.
Atento àquele olhar que tudo quer descobrir, o brusco feito vento serve para içar algo das águas que escondem seres nas entranhas do seu mistério. Olhar que dispara perguntas diante dos achados.
Tão logo a vara enverga e a linha estica, saltita os verdes campos da beira, chapinha uns passos a mais na fralda da Itupararanga, eis que o atarantado foca o choque que sente no grito da constatação de que aquele peixe é mesmo muito esquisito.
Dado o alerta de quem vê pela primeira vez um treco sem nome, observa-o no ar, um bicho agitado. Sabendo que aquilo não é peixe, é um caranguejo, a irmã vem correndo, rindo, chamando-o de besta. Poxa... Logo ele, o menor, o caçulinha?
Caracoles!
Que espécie de coisa o caranguejo é? Por que não tem escamas como as tilápias, os lambaris e os carás? Pra que serve o alicate que tem na pata? E a couraça de osso cheia de pernas? Será aranha que mora no rio? O que será que ele é?
O troço que não late nem morde, tendo suas patas desenroscadas da linha com a minhoca ainda no anzol, anda de lado, e ligeiro. A seu modo elegante, some-se no açude onde vive.
Nas circunstâncias deste outono pandemizado, sorri a criança que se lembra de si no homem que acha graça do menino que ganha da vida um presente que o transcende.
Cáspite!
Estralando de novo a cada surpresa, o poeta flagra o caranguejo no cão que o imprevisto oferece de bandeja.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 31 de maio de 2020.

quinta-feira, 28 de maio de 2020

Irremediável esperança


Irremediável esperança

Apesar do barulhão, espia a rua que logo estará novinha em folha. Trazem, em pó, a brita escura; assentam-na com maquinário pesado, pra dar trânsito a automóveis computadorizados.
Na varanda empoeirada, a boa alma não boceja nem espreguiça, recolhe do outono a brisa da manhã. Mais outra manhã.
De friozinho bom pro café que toma sozinha. De preferência, em pé, escorada no quadril que avisa que a pia tem solidez. De concreto, a incerteza. Do pouco que imagina, muito padece.
Vai um homem, ressabiado, canário de bico engaiolado. Vem uma mulher, cansada, andorinha de asas recolhidas. Como nem vem nem vai, a confinada janela. E toma café, afeita a umas tristezas.
Sim, a isolada preocupa-se. Quer a praia de volta, o calçadão pra caminhada, o torresmo na esquina, o papo na tarde. Quer-se a beijos e abraços com quem ama. Sim, pede o armistício.
Que o chão tenha sua órbita. Que a mecânica do sistema vá pelo cosmos. Que a galáxia siga uma maravilha. Sem culpa, só precisa do seu espaço pra degustação do café.
Àquela hora e naquele lugar, como a urgência que faz o cão rodar às pernas do dono em busca do centro do mundo, para defecar e sair de perto. Naquele instante e àquele lado, o homem usa a areia da rua em obras pra cobrir os dejetos do bichinho agitado.
Irmanada ao latido irrequieto, com a sua caneca por beber.
A caneca laqueada, em cuja lateral há um dragão desenhado com esmero, rico em detalhes, com as chamas pretas de linhas pintadas, ondas milimetricamente paralelas, o requinte de um pincel dominado, praticante de uma técnica rigorosa. Um presente.
A pessoa que pode tomar o seu café com a pose de quem domina a si mesma nem valoriza o realismo daquele dragão monocromático. Todavia, não consegue segurar-se, sofre medos e aflições. Dá a vida àquela engrenagem que nem liga pra felicidade da gente.
Pode curtir o café, mas não precisa mudar de jeito algum. Porque não vai ter vírus que a impeça de comover-se com os invisibilizados, suprimidos da visão, os que sonham com bolinhos de chuva na fome escancarada. Pois não faz cara de paisagem, isso não.
A cara. Eis um aprumo pra esta prosa toda.
E lá vem a mascarada do pandemônio. E não há jardins da mente, esse paraíso artificial, que tirem do mundo a dignidade que caminha o seu pedaço debaixo de pano branco. E lá vai o epicentro da comédia, um ser de mãos atadas, sobretudo calejadas, na tragédia que tanto o quer desumanizado.
A máscara não protege o rosto do estrume coberto de progresso. Não há disfarce que esconda o mofo das laranjas estocadas. Que as pessoas andam, ainda que humilhadas e ultrajadas; rumam por seu norte, recusando-se outro cálice de fel ao desdém.
Numa lógica cruel, a roda desaba a caneca, trinca, solta lascas. E acabar assim? Mesmo nestes dias abissais, de assombrações, há de haver um leito para apreciadores de café.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de maio de 2020.

terça-feira, 26 de maio de 2020

Feijão no prato


Feijão no prato

Depois de uma noite daquelas em que a barata fica presa na teia sob a cama, quando não há nada a fazer a não ser virar Franz Kafka, a fera tranca-se na jaula.
A criança tentando processar o espanto de despertar no meio da noite, de pijama molhado. A infância mordendo o travesseiro, a sua nuca suando o bafo do pesadelo. No colchão forrado de fungo, chora de condoído, o barro lambido pelas águas intempestivas. Absurda, a vida queima quando assopra, brinca porque fere.
Disparate!
E, por acaso, era domingo?
Era domingo, cavalo selvagem nas imensidões da ansiedade. Era domingo, à mesa, quatro cadeiras à disposição das expectativas. Era domingo de frango assado pelas convulsões da farsa. Era domingo, ainda que fosse, quisera largando de sê-lo. Embora não fosse mais que outro qualquer, retorcia-se sobre o domingo que era. Era mesmo demasiado aquele domingo, louco por uma matéria sensacional com o último faquir obeso do Circo das Maravilhas, em fantástica reprise.
Para lidar com esse demônio hospitaleiro, o domingo, antes que o feijão acabe queimado: basta baixar o fogo da panela. Pois é preciso manter a pizza do sábado, o chope da sexta, a corridinha na quinta, a consulta na terça, a tosse de segunda... Para gozar as esperanças de um caldinho de feijão.
A cultura que pergunta faz arte?
A arte não obriga ninguém a pensar o que não quer, ela convida ao diálogo com o que não se havia pensado. Possibilita a inclusão de visões de mundo que estavam de fora. Pede atenção ao que não se via, ao minúsculo e ao maiúsculo, a vetores de força. Mostra doloroso o equilíbrio efêmero, precário e ilusório. Propõe a diferença, o abrupto do diverso, o começo da conversa, e as rupturas do consenso. Nada como uma boa noite de insônia para aprofundar-se no risco de agir sem o polegar do positivo, do artístico, do bem-feito, do bonitinho de tão ordinário. Porque a arte pede ensaio, tentativa, e não o temor de errar. Faz-se pela dúvida que persiste como pergunta. Quem só sabe as respostas carece da cultura que educa pela arte.
Cadê tempo pro corpo com fome o tempo todo?
Diz um sujeito: “Alienado de mim é que não fico, porque, dentre as mil razões para não me apartar de mim, o meu café com pão faz-me estar em casa”.
Diz o retrato: “As palavras mexem com as pessoas, que passam a agir pelo que acreditam ter entendido do que se diz. Fica óbvio que a palavra existe porque, no uso, o sentido que vem à tona fecunda nas pessoas a certeza do poder que as palavras têm. Afinal, palavras são coisas humanas, feitas por pessoas, fabricadas para ajudar a intervir no mundo. Mas o evidente apaga esta sua origem, como ferramenta. Então, a palavra impõe uma carga semântica que despista quem não a domina ou não põe questão de fazê-la útil”.
O normal do tenso?
Condicionado à dor que sente, quando chinela na curva, o medo capota, ou mente.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de maio de 2020.

domingo, 24 de maio de 2020

Bem


Bem

Hipócrita o bastante pra negar os fatos ao afirmá-los verossímeis, o texto encontra a dor lírica no olhar de uma senhora, entrada já nos encantamentos de seus resguardos ― na cadeira de rodas; nas faces descobertas ao sabor do vento da manhã; na cinza recurva na ponta do cigarrinho pitado até que a coceira aperta a subir pelas entranhas, garganta afora. Solta, sem pensar que fuma, tem razões que nem faz questão de lembrar-se; então, arrolemos umas hipóteses. Talvez, pra suportar aquele medo novo que devora os pulmões; para resultar nas reprovações de sempre a quem não tem direito algum de censurá-la; para imaginar invisível o monstro que não se deixa ver na alegria das pessoas hilariantes. Seres que fantasiam a sério não ocupar a mente com o temor à morte. Afinal, a danada das gentes garante somente uma certeza, a sua vinda. Portanto, leiam-se seus indícios pela fadiga intermitente, pela sudorese noturna, pelo horror a um buquê de flores de aspecto repugnante de ovo frito e sem cheiro. Assim, não haverá a distribuição de afetos, pois a crônica vai seguir rolando, tartaruga com rodas, indo pelo calçamento esvaziado do quarteirão, da cidade, da... Via Láctea.
Compreenda-se. “O que se transmite da retina ao espírito de uma criança?” ― pergunta no Homenzinho na ventania. “Velázquez pintó el aire / Goya, su ausencia” ― pro Luis Eduardo Aute. Na submissão dos pés, embora descalços das travessias, na morosidade mórbida, a sonolência da rua finge-se de surda leveza, que “o mistério do mundo não está na ambição dos poderosos mas na vontade de escravidão dos pobres”, diz Llansol.
É melhor deixar os cães dormindo.
Voltemos ao lirismo daquela dor que espia as coisas do mundo a partir de lentes gastas, sem um esdrúxulo durex por remendo. Vindo dos apartamentos que podem não descer à rua, porém o cáustico do coração pede o afoito. Mais que ousado, o soberbo.
O que lhe marca o rosto não protege, mantém. Ela, a personagem que se exibe ao sol do outono, toma do oxigênio o extra que carece. Pois as suas angústias respiratórias sabem eclodir na normalidade do aparente.
Quis sorrir, mas a empáfia gargalha antes.
Os cães permanecem enrodilhados na preguiça sem cansaço, de algum instinto lá deles, de animal que pespega do vírus só o que não lhes diga respeito.
E a fumaça desfila a ausência ordenada dos herdeiros, tragadores do mar da lesma azul fora da toca.
O quê?
A auxiliar flutua pelo passeio, não faz eco à parada da semana. O seu ronronado, nos lábios docemente trêmulos, não surpreende. Pois a crônica faz a verdade de ter The Mooche à flor de sua boca.
― Estou bem, muito obrigada. ― A serviçal para, olha a senhora sentada.
― Estou bem, obrigada. ― A ajudante para de novo, verifica se a patroa está sentadinha.
― Estou bem. ― A colaboradora quer o etéreo ao mistério.
E,
― Bem.
A enfermeira sorri a sua música às esferas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de maio de 2020.

quinta-feira, 21 de maio de 2020

Uma nova era


Uma nova era

“A crônica boa de ler vai inventando sem mentir, fazendo a gente acreditar que tem sentido entendê-la fictícia, uma vez que passa uma história coerente e coesa do começo ao fim, algo diverso da vida.” ― foi o que falou a mulher que, talvez para ilustrar esta visão, procurava algo no celular.
Nisso tomou o centro da roda o cronista convidado, que logo taxou o encontro como histórico.
― Para mim este evento é duplamente tocante. Primeiro, porque o fato de estarmos aqui é sinal de que a vida segue. Segundo, porque esta oficina teve início no distante 2013 PC. Por certo, vocês estão se perguntando: 2013... quê?
As máscaras empalideceram alguns pigarros.
― Nossa! Até parece que a gente não sobreviveu a um cataclismo que ceifou milhares de pessoas no mundo. Mas o mundo virou outro. É hora de oferecer tributo a quem não escapou ao abismo da doença.
O homem quis água.
― Todos contabilizamos baixas. Os entes queridos, os familiares, amigos, e colaboradores. É por isso que devemos falar a verdade que está latente em nossos corações. Temos o compromisso, ou melhor, temos a obrigação de superar aqueles momentos de pavor. E temos mais este dia. E iremos adiante, pois daremos cada passo pesando o que estivermos fazendo. E com a graça dos céus, pedindo a bênção aos que pereceram e desejando com sinceridade ir em frente, vamos aprender a cultivar o melhor. Pensaremos na dor do outro quando em nossa mão queimar a pedra que mais nos convença de que estamos certos e com raiva, muita raiva. Mas será em nome dos que se foram, dos anjos que nos guardaram e guardam, dos semelhantes em carne e em sofrimento, haveremos de sorrir quando pedirem escarros que envergonhem. Com nojo, iremos recusar. Realmente envergonhados. Mas é pela força da união, como sociedade depurada pela dor do que vivemos, como comunidade que nos une como iguais em condições injustas e desumanas e desiguais, teremos de nos lembrar do quanto somos frágeis, passíveis de morrer sem aviso. Afinal, todo vírus vive para se reproduzir, pulando de corpo em corpo, enquanto estivermos sem defesa. E vamos aprender a usar a memória da devastação pela qual passamos como arma nossa, um instrumento que proteja.
Outra vez sedento, houve um corre-corre pela água. Depois de um suspiro triste, o comovido rendeu-se:
― Pois bem, de agora em diante, digo que estou decidido a adotar esta marcação depois de qualquer data anterior a dezembro de 2019. Amigos, nosso novo normal é que nos pede para agirmos com honra e generosidade. Porém, sem improviso. Assim, quando estou dizendo que esta oficina teve seu início em 2013 PC, alerto que tivemos uma narrativa até o fatídico primeiro caso que veio a deflagrar esta infame Covid-19. Sem vaidade, asseguro que o tempo anterior à pandemia pertence ao PC, àquela era pré-corona.
Ótimo! Ninguém lhe apertou a mão.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de maio de 2020.

terça-feira, 19 de maio de 2020

Cuidado


Cuidado

Abrir o sonho pra realidade entrar pede a disposição de arejar-se: tirar do chão as mãos petrificadas; pousar um rio nos pés terrificados; banhar-se no mar que o oceano abriga; gorgolejar a espuma do sal. E recordar-se, mais do que lembrar-se, do antigo adágio: “duas vezes não entra no mesmo rio quem se afoga de primeira”.
Para não lobrigar a incerteza na pessoa que duvida, diz o realista que há pessoas que não preferem o cardume. São essas que andam de mãos dadas com o nada. Passam sorrindo, de leveza despida de rancores. Vão por aí com suas mágoas na coleira.
Estão vindo pela via pública, dotadas de sandálias de couro. Sujas de lama, na sola. A hora não seca no broto a cobiça que vê: as outras vêm empenhadas em perder-se num bom comportamento de gravata marrom e salto alto justificáveis.
Como se houvesse essa facilidade de sorrir a quem não guarda sequer os dois metros de distância, fumam.
Desconfiando das tentações, em fingido surto, viram a tossir sem culpa. E param de repente, cevam flores no solo da praça, fisgam um banco ao lado das gardênias. E há abelhas cantando pras borboletas a atrair beija-flores a convidar sabiás que encantam a pomba que traz as demais. Como essas pessoas podem a audácia das cosmogonias, soletram “amor” como “universo”.
Perigosas, perigosíssimas, são essas as pessoas que determinam capas de jornais em branco, protestam por mais higiene a quem não sabe do corpo que move o mundo. Livram-se dos pesadelos urinando do penhasco mais próximo.
Então, sórdidas e abomináveis, justamente quando ninguém está olhando, alimentam-se dos pombos. Então, contam com o calor para que as gotas de sangue desapareçam. Comem as migalhas que as levam ao bolo de fubá que as põe à mesa, que pulula de fantasmas empanturrados de nostalgias e dentes bem alinhados.
Na terceira miragem do riso, observe-se, há bem-te-vis, tico-ticos, rolinhas, borboletas, mariposas, abelhas, formigas, principalmente as saúvas e os içás, que têm fome. É tropa, manada, bando. Uns felizes, menos manos no aperto. A fome cresce asas, afia presas, enrijece as garras. Faz trovar o bico.
Há nuvens, miram-se nelas.
Tecem canoas de carnaúba, tripas na correnteza. Acopladas aos fatos, desprezadas por fotógrafos. Paradas no banco de lama que as águas não barram de brotar no meio do caminho de tilápias, lambaris, carpas, carás e botos. Não têm rede nem vara e nem anzol. Do nada, afundam as canoas. De barriga obtusa, boiam.
Há sol, o azul, a imensidão coalhada de água suspensa.
Não improvisam; não se impressionam. Nutrem-se do mascavo no expresso da hora. Cospem no chão quando pegam pensar em fumar. Engolem o asco quando saliva na língua o seu ódio remoto ― a fonte remexida do remorso de raízes a sete palmos.
Com a sedução, da solidão à sedição?
Cuidado com as carecas que cobrem a cabeça quando dormem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de maio de 2020.


domingo, 17 de maio de 2020

Em eclipse


Em eclipse

Quando abriu os olhos, o sonhador tinha a nuca suada, dores nas pernas, a mente pesada. Havia semanas de horas erráticas. Limpava que limpava os vidros do apê. Tirava cartola da cartola, numa chatice fora de razão. A prioridade agora era mesmo dedicar-se a algo bom, que produzisse um efeito imediato. Arfou.
Que alívio correr daquilo.
Epa! Pegou-se na estrada errada, que tomara um desvio como um atalho. O seu conforto estava em envolver-se na situação pelo ângulo das consequências, pondo-se enredado no saldo; a torto e a direito, todavia.
Era óbvio que lhe faltava tocar as pessoas.
Queria abraçar, aproveitava-se das roupas por lavar, abraçava as camisetas sujas. Resultava igualmente imundo, recoberto de nódoas ― flor miserável a gozar de um abraço abjeto; um jardim de vilanias a almejar mais abraços tão embriagadores.
Ê porcaria que não passa!
Queria era beijar de uma vez a tela da TV, quando explodia ao ver as imagens de uma lebre assobiadora driblando a morte que vinha na pele de um urso tibetano. Sentia a alegria da vida ganhando mais um tempo para a reprodução. A intensidade dessa alegria ao torcer pela natureza. Uma explosão que ultrapassava a euforia, aquele fortíssimo entusiasmo, de quem se revelava portador do fogo vivo a prosperar. Assombroso. De verdade, causava estupor. O estupor contaminante. Suando, tremendo, e a carne que queima, à beira de uma explosão.
Explodia?
Quando conseguiu abrir os olhos, a realidade era bem diferente e aquilo, seu mais que admirável Big Bang, não passava de mal-estar. É que havia uma fresta na porta-balcão e a brisa noturna aproveitava da oportunidade aberta para minar a noite que, ao recolher-se caindo de sono, imaginara inabalável.
E precisou acordar para a necessidade premente de agasalhar-se. Puxou a coberta até o queixo, protegendo-se da madrugada. Para ter uma manhã menos amarga, o jeito era dormir de novo. Ou iria acabar sozinho no banheiro, ocupando-se de viajar para longe, via celular.
Porém, o aparelho tinha um por cento de carga, e, se ficasse sem telefone, perderia as apresentações dos artistas favoritos, seus ídolos desde criança.
Como?
Quando finalmente conseguiu abrir os olhos, o poeta virou-se, só que o relógio sumira do criado-mudo. Foi atrás das horas na cozinha, mas o despertador que ganhara da mãe sumira também. Ô encrenca! Mas a bateria já deveria estar 100% lá na sala, que estava bem mais escura que o normal. Não tinha luz na rua nem nos prédios vizinhos.
Sem terror.
O hábito de colocar o aparelho sempre no mesmo lugar iria servir para pegá-lo do chão, ao pé da tomada, junto da porta da entrada do apartamento. Coisa simples, que poderia fazer de olhos vendados.
Ê caramba!
Quando finalmente conseguiu manter atentos os olhos, a crônica estava chuchu beleza, naquele ponto que a publicação estraga.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de maio de 2020.

quinta-feira, 14 de maio de 2020

O cavalo


O cavalo

O ruído tem ritmo, uma batida seguida de outra, tic-tic de relógio, cujo funcionamento decorra de organismos mecânicos. Provindo dos lados da rua asfaltada, a identificação dá-se quando a fonte daquela marcha dobra a esquina, indo para a rua de baixo.
A mancha escura move-se pela penumbra da hora, pouco antes das nove da noite. Os postes parecem dormentes, provendo uma luz embaçada, de um cansaço impregnado de angústias. Os pássaros já recolhidos aos ninhos. Os morcegos zanzando de fruto em fruto. E o animal que desfila.
Vem trotando pacato, o impacto surdo dos cascos na terra da rua em reforma, numa mansidão antagônica ao espírito daquelas gentes obrigadas ao convívio pelo pandêmico eclipse. Ali, onde se respira a peçonha, é torturante encarar-se com narizes e bocas sem máscara.
Vem trotando insólito, a presença majestosa a quem tem olhos e ouvidos afeitos à descoberta de mundos dentro do mundo. Ali, onde o trato dócil e o carinho do afago inspiram perguntas, é chão o dar pé a quem transpassa as veredas com novidades.
E ele deseja seguir adiante.
Pelas andanças de suas patas. Suas crinas molhadas pela chuva. As gotículas das suas narinas sumindo pelo ar. Respira, sem reparar que respira. Quase imperceptível, há uma efígie naquela figura, a do cavalo abstrato forjado nas regras do reino animal e a do quadrúpede medido pelas pessoas surpreendidas.
O canela da pelagem. O tônus dos tendões. A simetria que alinha a partir do focinho. Alazão de herói de sessão vespertina em cinema que já não há? Bicho que espuma as filigranas contidas em Hokusai, esfinge móvel que relincha em Murilo Mendes, a especular do sonho traçado por Leonardo.
Há olhares que descortinam no banal algum processo que tire da invisibilidade a potência da iluminação, mas o que se vê, distante de transcendências tão fulgurantes, é o ser parado diante dos cavaletes interditando o trânsito.
Há quem o veja empacado, como algum burro com a chancela de incapaz do cálculo, do engenho de sobreviver a seus impasses. Entre os olhos que perscrutam a contenção precária daquela fita amarela e o que está por vir, há a percepção a quem se faz livre pelas escolhas frente a incertezas, a economia dos afetos que o preservam vivo.
Há quem o sinta prestidigitador, como alguma serpente com o selo de maroto a blefar diuturnamente, a omitir-se máquina de inoculação do vírus da dúvida, do questionamento insone de toda ordem. Entre o peito que contém os espasmos da via por trilhar e a retaguarda que encaminha decisões, faz-se vivo para libertar-se a cada instante.
Olha o buraco pleno de água; qual será a sua profundidade? Vê a calçada mal iluminada; teme escorregadio o entrevisto. Sopesa o lado oposto, o ouro desmaiado do poste anuncia os pedregulhos na lama do passeio.
Ê cavalo dado a irracionalidades, cabe a ele sair-se dali.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de maio de 2020.

quarta-feira, 13 de maio de 2020

Tempestade


Tempestade

Eis um homem tentando seguir o seu caminho. Debitar às contas pagas em dia a desobediência de não ficar em casa? Calcular a sua resolução de manter os óculos no nariz como manifestação política? Por saber-se à medida da sombra na calçada, despreza o espinho do olhar que o acutila exposto ao ar que tanto o atribula?
Tem a febre de fazer-se. Dizem por ali, apontam por aqui; desafia que o contradigam, avança pelos vãos. Cuida de si, ignora visar-se à representação de um velhinho bom.
Resistindo, contra as gotas de sal desajustadas nas juntas do seu corpo. Persistindo, contra o esqueleto que o conforma alquebrado na poltrona. Insistindo, sem esmolar o ultraje da resignação, de homem parado diante dos fatos. Afirma-se: indo.
A vida vale a paga da altivez?
Dói-lhe mover-se, porém não traga o escambo: a quarentena para si, o isolamento dos demais.
Os pulmões mantêm traços das fumaças pestilentas abandonadas com os oitenta. A falta de ar explica porque ofega descontrolado.
A maior prova de dignidade dá essa pessoa quando não esconde que sua fome mede-se por outra régua. Sem a interdição ao trabalho, pois há muito está aposentado. Sem que o beneficiem atos rebeldes, como o que pratica com a envergadura dos patéticos. Nada disso, a vontade que o faz ir aonde vai tem a escala dos inconformados.
Alguém o interpela:
― Ô doido, por que busca a morte?
Outrem ajuíza:
― Pensa que pode andar por aí, infeliz!
No pudor do recato, o velho guarda silêncio. Segue, sem ouvidos para admoestações, palavras não subirão névoas que o pervertam do destino. Não, vozes atiradas das varandas parecem miados; detesta gatos. Mais ainda que os pelos no sofá, enlouquecem-no os miados.
Que tipo raro será esse? Traz no traje o terno do Carlitos; enfiado num passo miudinho de Carlinhos de Jesus; um Pedro II na barba de bonachão profeta. Papai Noel comunista?
Pouco importa, a ele o que conta é sair com o propósito de chegar ao posto de saúde mais próximo. Faz da insanidade presumida o que pensa fazer mesmo que o julguem egoísta, narcisista.
Do louco, nega-o ao buscar os remédios à esposa. Do egoísta, um nada, porque enfrenta as ansiedades do medo pela mulher que ama. Enfim, quer restaurada a saúde da pessoa que treme de calafrios.
Eis um cavaleiro: dando ritmo à passada com a ponta da bengala; esforçando-se na marcha renhida, meio pé de cada vez; bailador que revigora o já quase exaurido.
Há essa tempestade de proporções insondáveis a quem não tem memória para a profundidade dos transtornos, todavia nosso homem, de rosto recoberto pela máscara branca, de tez torturada no ofício de viver, não se turva às limitações da hora.
Probo, sua batalha está ganha. Com seus ossos desbastados, de obreiro que edifica; com os seus olhos apurados, de farol que orienta; com a sua chama por um fio, de ser que se faz humano ao caminhar.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de maio de 2020.

domingo, 10 de maio de 2020

Atos de amor


Atos de amor

Falam alto na rua. Quase gritam, na verdade.
A senhora vai e volta, elétrica.
O senhor continua fumando diante da entrada do prédio.
Um carro para sobre a calçada do cruzamento da Amazonas com a Rui Barbosa, que está interditada, em obras.
A idosa fica muito irritada quando do automóvel, modelo dirigido, nos filmes, por agentes do FBI, salta uma moça. De mãos abanando e sorriso amarelo, pedindo calma.
― Numa hora dessas, calma? Tenha dó, Ana Luísa.
Com a reação, a jovem dirigiu-se ao fumante:
― Por que ela não desconstrói essa veia autoritária, Vô Vovô?
O marido da bisa resignou-se a atirar a bituca na lama da rua.
― Quando é que a Márcia Maria vai aprender que há coisas mais importantes na vida de uma pessoa do que estacionar direito. ― Sem fingir-se moderada, emendou:
― Vamos, desça logo daí!
Manobrando com cuidado, finalmente aparece a dita cuja que, ao perceber-se observada pela tropa, fica confusa com chaves e celular, e pergunta:
― Uai? Ela não está aqui ainda?
Ainda...
― Como se falar o óbvio fosse dizer algo de relevante! ― Pontua pelo megafone natural da sua garganta aquela nonagenária que não para quieta ali na esquina.
Márcia Maria, sem titubear, trata de fazer o que de melhor sabe e envia mensagem de voz. Pede informações sobre o paradeiro e avisa que todo mundo está uma pilha por não ter notícias. E, desconfiada, certifica-se de que o alarme do veículo novo está mesmo ligado.
E dos últimos andares, Henrique, o amor de toda vida daquela que está sendo esperada, vem e some da janela do quarto, surge e corre a cortina. Querendo apenas ter sua companheira dourada de volta.
Tomado de solidariedade pelo vizinho de andar, além de irmãos fraternais há meio século, José Cláudio vai bebericar um golezinho de vinho com o professor de matemática. Compulsoriamente aposentado aos setenta anos, Henrique decidiu jogar xadrez para não ficar com a manhã de cada dia enfadonhamente vagarosa, embora nem ligasse ganhar. Topam jogar.
Aflição: Vó Vovó, que não admite ser chamada assim pela bisneta, Ana Luísa, que é a mãe de João Cláudio, único trineto da Maria João, que é mãe da sua mãe, Márcia Maria, cujo SUV tem o péssimo hábito de disparar seu alarme bem nos momentos decisivos.
Neste caso, como sabe um cão ou um gato, comovido pra próxima cena, pressentindo o que irá desenrolar-se naquele canto do mundo, o encontro neste dia de sol, tornando certo o que parecia impossível mas que se convertera em provável e que vem a ser o fato de maior relevância neste instante, daí o pisca de alerta e o barulho da vinda.
No meio daquela gritaria de felicidade contagiante, dona Filomena, que teve alta depois dos dezoito dias no hospital, doze na UTI, basta-lhe abrir os braços para que os dois narizes, o seu e o do seu bisneto, protegidos por máscara, beijem-se explícita, alegre, amorosamente.
Um dia feliz.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de maio de 2020.

quinta-feira, 7 de maio de 2020

A flor da obsessão


A flor da obsessão

Sentimental eu sou? Ademais que seja, escrevo como quem poda: onde o uso espana a porca, o parafuso entra bem. Porque o abusado força razões, inútil escrever torto em linha reta. Vá! Fora da pauta, da margem, do que sabe desprender-se, comoção que transtorna. A dica do lembrete diz à memória que a recordação do que não some é que cresce em nevoeiro; faz brejo alumiar: ao transtornado, tanto rebeldia quanto revolta, revolucionam. Deveras estimulante.
Ê vento empestado, gélido.
Olho pros lados da Mallet, olho pros dois palmos do Atlântico. Faz manhã ainda, e os jornais já em dia. O terreno da casa ao lado abriga árvores, cujas florescências atraem insetos, que nutrem pássaros, um deles bica coquinhos ― o conjunto leva-me a observá-lo.
A máquina come nacos da terra, abrindo a vala pros tubos que as águas das chuvas da manhã seguinte nem fingem devorar os tubos. Os olhos da cara fazem o que sabem pra negar os leitos que faltam, pra sepultar a mão que cuida, pra não colapsar o obsceno do lucro.
Cinco e meia, já vem o fedor do cigarro. O chaminé maltrata seus pulmões, não foge ao vício que o carcome. Pigarreia. E acende outro no toco que o peteleco atira ao mato, pletora de moscas.
Justo esse vizinho, que vive na rua sem motivo aparente, fazendo rodinha na esquina, sua máscara gargalhando, pegou tossir faz uma quinzena. Geme que doem as costas. Passou a tossir seco. De noites curtas, acorda-me a sua porta que range. Vai cuspir no vaso, e tosse. Urina, e tosse. Volta o rangido; sobe o gemido; e tosse que tosse.
Oito da matina, berra ao telefone que o comércio abra de vez. Que é um insulto esse governo dar R$ 600,00 a quem nem CPF tem, que dirá orgulho da pátria.
Pela hora da morte, a patifaria.
O aziago do prédio gosta de reclamar, e, do nada, exalta-se. Liga a TV no último, pra desencaminhar minha leitura. Escuto-o, que essa pandemia que prende as pessoas dentro de casa veio bem a calhar, que ele não gosta de gente no supermercado que fica falando umas com as outras como amigas de toda vida, quando o que elas querem de verdade é enfiar uma faca nas costas, quando o que elas querem mesmo é que a gente morra.
Diante do impossível, o razoável faz o possível.
Sem trancas nem tramelas, derrubo as paredes; configuro o palco pelos tacos soltos; abro-me aos cochichos das coxias; escuto o que engenha o obscuro. Capto o deserto pela maresia; perco o passo na ressaca da areia; o instante que não passa desequilibra; e contraído, temo que o ar queira-me afogado.
Pelo tabuleiro da realidade, prossigo.
Às vezes sacrifico uma das torres; noutras, tombo um dos bispos. Na ilusão de guardar os flancos da rainha, a um lance da capitulação, tomo ao desespero que seguidas derrotas açodam a entregar o jogo. Como a dignidade está em saber não perdoar, nutro a indignação.
Vou seguir cultivando outras misericórdias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de maio de 2020.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O coco do groma


O coco do groma

Tem isso com o sonho. Quando a gente vê, já está terminado. Daí que, compelido a rememorar a mecânica cinemática da pulsão antes que se esfume, vem essa raposa caçar. Sem trégua; até que a aurora desperte pro entorpecimento da noite; até que aquele olho pintado do Alex renuncie ao trilho. Ê láctea alegria laranja.
Ao que parece, prontamente a postos pela simpatia que tenho tido pela humanidade em geral, abro o jornal no telemóvel. Diz uma parte do mundo estar horrorizada com uma outra, pois não sabe como vai controlar o impulso maior do que a vontade de viver. Como pessoas honradas, ocupam ruas, dão vivas à morte, interditam ambulâncias, e engarrafam-se de júbilos, gozando como íncubos na subida.
Topo a empreitada de viver mais este dia como se me fosse tirado do montante, cujo número não conhecerei nem morto. Entretanto, em vez de correr abrandar o ânimo, passando pela porta entreaberta da prescrita depressão controlada, insto traduzida a insânia.
Garimpo as pepitas. Appassionata; Chromatique; o Tchaikovsky da Dumka; o Vieuxtemps da Fantasia Appassionata.
Mergulho. Volto. Vindo embriagado já virago, boio de absurdo.
Houve quem perguntasse: bebemos por que já somos loucos ou ficamos loucos por que bebemos?
Parado de beber, pirado de babar ― no sexto do quinto.
Amanhã? Sim, amanhã.
Sempre haverá um amanhã pra celebrar a vida, ter comemoração, fazê-la fonte renovadora, permitir-se o ser novo a cada dia. Cuidar de si como semente a germinar, cultivar-se broto, fortalecê-lo ao som da lua que torna prata o que ainda é ouro. Na sobreposição da máscara na pessoa que canta o abismo sobre o qual dança, a vida é a queda enquanto dura. Então, que perdure o que tiver pela frente, intervalo que permanece. De lá pra acolá. Bailador, aqui e agora, peço lágrima bailarina. Fito-me jururu e lúgubre. Súbito, o riso torto. E não amenizo essa minha fria melancolia corsária.
Dono do meu pranto, que come nas entranhas o juízo, vomito uma certeza ou outra, porque posso, enfim, quando não posso.
Escancaro a boca com o batom carmim dos desprezados, dos que dormem protegidos pelo jornal da banca, de quem canta bêbado seu bolero de gim, sua solitude roça o limo no sal.
Uma caipirosca!
É sério. Preciso ficar chorando sobre o prato, que a macarronada de domingo está fria. O gás acabou. Derrubando tanta lágrima assim, talvez a garfada desça forte. Que me bate uma baita raiva.
Bronha de groma? Sabor antigo pela primeira vez.
Na topada do tormento, vítima de mortalidade congênita, agravada pelo patógeno oportunista covid-19, encantou-se o maior poeta vivo do país.
Não! O Augusto?
Mas é claro que não. Falo e digo, seu Aldir. Sempre acontece com poetas, vocês morrem. Sem coco de polícia, faz ralar o coco pra que se veja: “rigorosamente ateu, cético, cínico e escroto, nessa ordem”.
Vá, que seja.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2020.

domingo, 3 de maio de 2020

O sonho


O sonho

Por não cuspir no prato em que como, varro os fatos para debaixo do topete. Melhor descobrir que remendar, porque chave de ouro que descerra a porta da esperança perturba Pandora. Em outras palavras, para que desembuche o papo? Discordo frontalmente de quem pensa que pessoa sombria ilumina fundo, espelho adentro.
Domingão, dia da macarronada carbonara, espaço aberto para as mui sinceras manifestações de apreço ao cozinheiro de mão cheia, a mesma adestrada que, parteira da modéstia, vai pondo no papel tais palavras com isenção. Maior honestidade não há do que, já ardendo no inferno, se confessar ao culpado.
Quando perguntam se o desejo de escrever vem de menino, digo de cara o que nem reparo: gosto de contar histórias por escrito.
Se em mim me acossa uma criança que fala pelos cotovelos, abro caminho à escuta de quem narra mais um conto. Assim! Como mosca não escapa de boca fechada, fujo de falar em público. Desde que não haja silêncio, escrevo. E que o mundo siga rolando universos, comigo escrevendo. Canto onde fico, entendendo detestável essa ideia de ter condições especiais para exercer a minha prática.
O meu trabalho está a serviço do texto; da linguagem; do que está sendo construído concomitantemente ao contado. As palavras trazem outras, mas a coerência precisa emergir do que vai sendo dito, que a coesão necessária diga a que veio. Que o texto resulte peça legível, e assimilável na cópia, pela imitação que revela o processo pelo qual mimetiza textos anteriores ― do édito, o inédito.
Memória que não imagina uma perspectiva de dizer o que não diz é história. Ah! O passado tecido no entretecido que leva a...
Sim, na crônica O respiro está relatado um evento acontecido nos anos 80, a visão de um beija-flor nos céus da Cidade Universitária da USP. Sim, o escrevinhador foi capaz de ver o bichinho em pleno voo, mas isso demandou esforço. Precisei insistir até conseguir enxergar o que me desconcertava.
Sim, hipnotizados pelo banal, meus olhos precisam manter o foco para fixarem algo que os avive, em brasa.
A banalidade esconde a realidade sob camadas de previsibilidade. Então, é preciso ensinar-se a olhar, concentrar-se. Provocar a fagulha da percepção que está adormecida no olhar ignorante, que apreende das circunstâncias só o que alcança. E talvez, após muita diligência, torne-se possível aprender a vislumbrar o que não está sendo visto.
Faz-se mister a obsessão de ver mais do que mais um pouco.
Processo simples, tendo como regra básica o rigor na observação. Sem que estruture um método, adoto recomendável tal procedimento, posto que desejo escrever sem tirar a realidade do olho do instante.
Cuidando que não vejo, todavia, desconfio desse olhar obcecado, pelo que camuflo, despisto, faço plausível o mensurável.
Careca de tanto arbítrio? Minha crônica aposta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de maio de 2020.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O respiro


O respiro

Em Praia Grande, no Canto do Forte, na rua de chão revirado, na varanda do apartamento, no lugar onde tenho vivido, daqui presenciei aquilo que mexeu comigo. Tanto que, com licença a quem está lendo, passo a contar o que me põe comovido.
Quiçá pela circunstância, que exige cabeça arejada pra dar conta da análise sem distanciamento, a experiência provocou uma emoção profunda em mim.
Com o processo de modificação em andamento, não vou filosofar, pois posso acabar desvirtuando o medo que me abarca, falando por falar... Pulo essa parte, porquanto não quero ficar com aquela cara de tacho. Com tacho, menos pra raso, mais pra bobo.
Avante, atuante!
Quem entra em PG, vindo do Japuí, ou da ponte do Mar Pequeno, tem à esquerda uma área verde, na qual se destaca o Xixová. Há ali uma vegetação que encanta como cor, volume e vivacidade.
Voam de lá pra cá e daqui pra lá, variadas espécies de aves.
Pelas bandas onde vivo, é usual ter maritacas fazendo gritaria nas manhãs. Foram andorinhas, contudo, que me puseram besta.
Emocionado, sensibilizado pelo balé daquele bando, que voava e revoava, com voltas, volutas e volteios, sem lógica visível, sem regra compreensível, com a desenvoltura de quem se diverte, na leveza de uma vida natural, exercitando o direito à liberdade.
Claro, traduzo aquilo como diversão, leveza e liberdade por estar cativo do encantamento. Ao pé da letra, os bichinhos voavam e só.
Se bem que acho muito sem sal nortear-se apenas pela ciência. Cadê o toque do inútil mas belo? E a sensação da plenitude embora efêmera? A percepção do instante como eterno?
O impacto está nisso, de estar: fora de mim, dentro.
Tamanha sedução em episódio corriqueiro, andorinhas voando em meio às construções de uma rua aquietada pela quarentena.
Tocado. Por isso, salto no tempo.
Num fim de tarde na USP, no Vila Nilo, no ônibus indo pro retorno mais à frente, logo depois do Hospital Universitário, tem alguma coisa no ar. Algo em contraste com o sol maravilhosamente avermelhado.
Ô diabo, como pude perceber aquele cisco na amplidão do céu?
Só sei que gostei de ter visto. Foi um choque, de fato. Lembro que apoiei a testa no vidro da janela do ônibus. E vi melhor, reconheço.
Era animal pequeno, quase minúsculo, de gestos soltos, abruptos, sem a elegância das curvas, numa coreografia esquisita, nervosa, de asas a milhão. Um beija-flor.
Onde já se viu!
Com a pandemia comendo solta no planeta, minha mente trabalha nisso, em se perder por aí, entre aquele dia letivo nos anos 80 e este venerando domingo de abril praiagrandense.
E a danada vai, mas volta.
Um tanto perplexa com o que não controla, pasmada comigo que não desvio pra outro canto, minha memória aviva aquela algazarra de maritacas atacando à entrada do ninho das andorinhas no telhado lá de casa, numa Ibiúna pela qual até meus outroras respiram.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de abril de 2020.