quinta-feira, 7 de maio de 2020

A flor da obsessão


A flor da obsessão

Sentimental eu sou? Ademais que seja, escrevo como quem poda: onde o uso espana a porca, o parafuso entra bem. Porque o abusado força razões, inútil escrever torto em linha reta. Vá! Fora da pauta, da margem, do que sabe desprender-se, comoção que transtorna. A dica do lembrete diz à memória que a recordação do que não some é que cresce em nevoeiro; faz brejo alumiar: ao transtornado, tanto rebeldia quanto revolta, revolucionam. Deveras estimulante.
Ê vento empestado, gélido.
Olho pros lados da Mallet, olho pros dois palmos do Atlântico. Faz manhã ainda, e os jornais já em dia. O terreno da casa ao lado abriga árvores, cujas florescências atraem insetos, que nutrem pássaros, um deles bica coquinhos ― o conjunto leva-me a observá-lo.
A máquina come nacos da terra, abrindo a vala pros tubos que as águas das chuvas da manhã seguinte nem fingem devorar os tubos. Os olhos da cara fazem o que sabem pra negar os leitos que faltam, pra sepultar a mão que cuida, pra não colapsar o obsceno do lucro.
Cinco e meia, já vem o fedor do cigarro. O chaminé maltrata seus pulmões, não foge ao vício que o carcome. Pigarreia. E acende outro no toco que o peteleco atira ao mato, pletora de moscas.
Justo esse vizinho, que vive na rua sem motivo aparente, fazendo rodinha na esquina, sua máscara gargalhando, pegou tossir faz uma quinzena. Geme que doem as costas. Passou a tossir seco. De noites curtas, acorda-me a sua porta que range. Vai cuspir no vaso, e tosse. Urina, e tosse. Volta o rangido; sobe o gemido; e tosse que tosse.
Oito da matina, berra ao telefone que o comércio abra de vez. Que é um insulto esse governo dar R$ 600,00 a quem nem CPF tem, que dirá orgulho da pátria.
Pela hora da morte, a patifaria.
O aziago do prédio gosta de reclamar, e, do nada, exalta-se. Liga a TV no último, pra desencaminhar minha leitura. Escuto-o, que essa pandemia que prende as pessoas dentro de casa veio bem a calhar, que ele não gosta de gente no supermercado que fica falando umas com as outras como amigas de toda vida, quando o que elas querem de verdade é enfiar uma faca nas costas, quando o que elas querem mesmo é que a gente morra.
Diante do impossível, o razoável faz o possível.
Sem trancas nem tramelas, derrubo as paredes; configuro o palco pelos tacos soltos; abro-me aos cochichos das coxias; escuto o que engenha o obscuro. Capto o deserto pela maresia; perco o passo na ressaca da areia; o instante que não passa desequilibra; e contraído, temo que o ar queira-me afogado.
Pelo tabuleiro da realidade, prossigo.
Às vezes sacrifico uma das torres; noutras, tombo um dos bispos. Na ilusão de guardar os flancos da rainha, a um lance da capitulação, tomo ao desespero que seguidas derrotas açodam a entregar o jogo. Como a dignidade está em saber não perdoar, nutro a indignação.
Vou seguir cultivando outras misericórdias.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de maio de 2020.

terça-feira, 5 de maio de 2020

O coco do groma


O coco do groma

Tem isso com o sonho. Quando a gente vê, já está terminado. Daí que, compelido a rememorar a mecânica cinemática da pulsão antes que se esfume, vem essa raposa caçar. Sem trégua; até que a aurora desperte pro entorpecimento da noite; até que aquele olho pintado do Alex renuncie ao trilho. Ê láctea alegria laranja.
Ao que parece, prontamente a postos pela simpatia que tenho tido pela humanidade em geral, abro o jornal no telemóvel. Diz uma parte do mundo estar horrorizada com uma outra, pois não sabe como vai controlar o impulso maior do que a vontade de viver. Como pessoas honradas, ocupam ruas, dão vivas à morte, interditam ambulâncias, e engarrafam-se de júbilos, gozando como íncubos na subida.
Topo a empreitada de viver mais este dia como se me fosse tirado do montante, cujo número não conhecerei nem morto. Entretanto, em vez de correr abrandar o ânimo, passando pela porta entreaberta da prescrita depressão controlada, insto traduzida a insânia.
Garimpo as pepitas. Appassionata; Chromatique; o Tchaikovsky da Dumka; o Vieuxtemps da Fantasia Appassionata.
Mergulho. Volto. Vindo embriagado já virago, boio de absurdo.
Houve quem perguntasse: bebemos por que já somos loucos ou ficamos loucos por que bebemos?
Parado de beber, pirado de babar ― no sexto do quinto.
Amanhã? Sim, amanhã.
Sempre haverá um amanhã pra celebrar a vida, ter comemoração, fazê-la fonte renovadora, permitir-se o ser novo a cada dia. Cuidar de si como semente a germinar, cultivar-se broto, fortalecê-lo ao som da lua que torna prata o que ainda é ouro. Na sobreposição da máscara na pessoa que canta o abismo sobre o qual dança, a vida é a queda enquanto dura. Então, que perdure o que tiver pela frente, intervalo que permanece. De lá pra acolá. Bailador, aqui e agora, peço lágrima bailarina. Fito-me jururu e lúgubre. Súbito, o riso torto. E não amenizo essa minha fria melancolia corsária.
Dono do meu pranto, que come nas entranhas o juízo, vomito uma certeza ou outra, porque posso, enfim, quando não posso.
Escancaro a boca com o batom carmim dos desprezados, dos que dormem protegidos pelo jornal da banca, de quem canta bêbado seu bolero de gim, sua solitude roça o limo no sal.
Uma caipirosca!
É sério. Preciso ficar chorando sobre o prato, que a macarronada de domingo está fria. O gás acabou. Derrubando tanta lágrima assim, talvez a garfada desça forte. Que me bate uma baita raiva.
Bronha de groma? Sabor antigo pela primeira vez.
Na topada do tormento, vítima de mortalidade congênita, agravada pelo patógeno oportunista covid-19, encantou-se o maior poeta vivo do país.
Não! O Augusto?
Mas é claro que não. Falo e digo, seu Aldir. Sempre acontece com poetas, vocês morrem. Sem coco de polícia, faz ralar o coco pra que se veja: “rigorosamente ateu, cético, cínico e escroto, nessa ordem”.
Vá, que seja.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de maio de 2020.

domingo, 3 de maio de 2020

O sonho


O sonho

Por não cuspir no prato em que como, varro os fatos para debaixo do topete. Melhor descobrir que remendar, porque chave de ouro que descerra a porta da esperança perturba Pandora. Em outras palavras, para que desembuche o papo? Discordo frontalmente de quem pensa que pessoa sombria ilumina fundo, espelho adentro.
Domingão, dia da macarronada carbonara, espaço aberto para as mui sinceras manifestações de apreço ao cozinheiro de mão cheia, a mesma adestrada que, parteira da modéstia, vai pondo no papel tais palavras com isenção. Maior honestidade não há do que, já ardendo no inferno, se confessar ao culpado.
Quando perguntam se o desejo de escrever vem de menino, digo de cara o que nem reparo: gosto de contar histórias por escrito.
Se em mim me acossa uma criança que fala pelos cotovelos, abro caminho à escuta de quem narra mais um conto. Assim! Como mosca não escapa de boca fechada, fujo de falar em público. Desde que não haja silêncio, escrevo. E que o mundo siga rolando universos, comigo escrevendo. Canto onde fico, entendendo detestável essa ideia de ter condições especiais para exercer a minha prática.
O meu trabalho está a serviço do texto; da linguagem; do que está sendo construído concomitantemente ao contado. As palavras trazem outras, mas a coerência precisa emergir do que vai sendo dito, que a coesão necessária diga a que veio. Que o texto resulte peça legível, e assimilável na cópia, pela imitação que revela o processo pelo qual mimetiza textos anteriores ― do édito, o inédito.
Memória que não imagina uma perspectiva de dizer o que não diz é história. Ah! O passado tecido no entretecido que leva a...
Sim, na crônica O respiro está relatado um evento acontecido nos anos 80, a visão de um beija-flor nos céus da Cidade Universitária da USP. Sim, o escrevinhador foi capaz de ver o bichinho em pleno voo, mas isso demandou esforço. Precisei insistir até conseguir enxergar o que me desconcertava.
Sim, hipnotizados pelo banal, meus olhos precisam manter o foco para fixarem algo que os avive, em brasa.
A banalidade esconde a realidade sob camadas de previsibilidade. Então, é preciso ensinar-se a olhar, concentrar-se. Provocar a fagulha da percepção que está adormecida no olhar ignorante, que apreende das circunstâncias só o que alcança. E talvez, após muita diligência, torne-se possível aprender a vislumbrar o que não está sendo visto.
Faz-se mister a obsessão de ver mais do que mais um pouco.
Processo simples, tendo como regra básica o rigor na observação. Sem que estruture um método, adoto recomendável tal procedimento, posto que desejo escrever sem tirar a realidade do olho do instante.
Cuidando que não vejo, todavia, desconfio desse olhar obcecado, pelo que camuflo, despisto, faço plausível o mensurável.
Careca de tanto arbítrio? Minha crônica aposta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 03 de maio de 2020.

quinta-feira, 30 de abril de 2020

O respiro


O respiro

Em Praia Grande, no Canto do Forte, na rua de chão revirado, na varanda do apartamento, no lugar onde tenho vivido, daqui presenciei aquilo que mexeu comigo. Tanto que, com licença a quem está lendo, passo a contar o que me põe comovido.
Quiçá pela circunstância, que exige cabeça arejada pra dar conta da análise sem distanciamento, a experiência provocou uma emoção profunda em mim.
Com o processo de modificação em andamento, não vou filosofar, pois posso acabar desvirtuando o medo que me abarca, falando por falar... Pulo essa parte, porquanto não quero ficar com aquela cara de tacho. Com tacho, menos pra raso, mais pra bobo.
Avante, atuante!
Quem entra em PG, vindo do Japuí, ou da ponte do Mar Pequeno, tem à esquerda uma área verde, na qual se destaca o Xixová. Há ali uma vegetação que encanta como cor, volume e vivacidade.
Voam de lá pra cá e daqui pra lá, variadas espécies de aves.
Pelas bandas onde vivo, é usual ter maritacas fazendo gritaria nas manhãs. Foram andorinhas, contudo, que me puseram besta.
Emocionado, sensibilizado pelo balé daquele bando, que voava e revoava, com voltas, volutas e volteios, sem lógica visível, sem regra compreensível, com a desenvoltura de quem se diverte, na leveza de uma vida natural, exercitando o direito à liberdade.
Claro, traduzo aquilo como diversão, leveza e liberdade por estar cativo do encantamento. Ao pé da letra, os bichinhos voavam e só.
Se bem que acho muito sem sal nortear-se apenas pela ciência. Cadê o toque do inútil mas belo? E a sensação da plenitude embora efêmera? A percepção do instante como eterno?
O impacto está nisso, de estar: fora de mim, dentro.
Tamanha sedução em episódio corriqueiro, andorinhas voando em meio às construções de uma rua aquietada pela quarentena.
Tocado. Por isso, salto no tempo.
Num fim de tarde na USP, no Vila Nilo, no ônibus indo pro retorno mais à frente, logo depois do Hospital Universitário, tem alguma coisa no ar. Algo em contraste com o sol maravilhosamente avermelhado.
Ô diabo, como pude perceber aquele cisco na amplidão do céu?
Só sei que gostei de ter visto. Foi um choque, de fato. Lembro que apoiei a testa no vidro da janela do ônibus. E vi melhor, reconheço.
Era animal pequeno, quase minúsculo, de gestos soltos, abruptos, sem a elegância das curvas, numa coreografia esquisita, nervosa, de asas a milhão. Um beija-flor.
Onde já se viu!
Com a pandemia comendo solta no planeta, minha mente trabalha nisso, em se perder por aí, entre aquele dia letivo nos anos 80 e este venerando domingo de abril praiagrandense.
E a danada vai, mas volta.
Um tanto perplexa com o que não controla, pasmada comigo que não desvio pra outro canto, minha memória aviva aquela algazarra de maritacas atacando à entrada do ninho das andorinhas no telhado lá de casa, numa Ibiúna pela qual até meus outroras respiram.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 30 de abril de 2020.

terça-feira, 28 de abril de 2020

Malemá


Malemá

Compelido a mudanças neste atual regime de convivências, com os demais e comigo, ouço música depois do almoço e antes de ir-me deitar. Afinal, só análise e ansiolíticos não dão conta da cabeça cheia de frustrações, desplanejamentos e quinquilharias metafísicas. Livro a mente da realidade? Não, mas as doze notas abrem clareiras onde a mata fechada sufoca e assusta.
Corro me esbaldar com o Caipira, da Mônica Salmaso.
Preciso evitar a desatenção, levar a sério o momento. Devo-me o rigor com o cronograma que anotei na folhinha da cozinha. Ou seja, o próximo passo é a antecipação do que terei de fazer fora de casa. Já vem aí a sexta-feira, caraca, que hoje já é terça.
É verdade. Não posso esquecer o café. Não vou comer mosca.
De março para cá, saio quinzenalmente de casa. Tenho tomado o maior cuidado. Carrego o meu próprio gel. Volta e meia verifico se a máscara está no lugar. É desesperador ficar exposto ao vírus. Com a televisão falando cada coisa. Uma hora o contágio é pela saliva. Não devo tocar em dinheiro. Lavar a mão com desinfetante. Tirar a roupa assim que chegar. Dá um aperto danado na garganta. E até respirar, que medo de não perceber a tempo como ando respirando.
Sem dúvida. A quantidade de informações angustia. Porém o vírus não quer saber de brincadeira.
Tento ser prático. Não sou biólogo. Então, para que ficar perdendo tempo. O vírus é animal ou o quê? Faça-me o favor. A mortandade é natural, ideológica ou alienígena? Putz. Há resposta para tudo, sim. O juízo me impede de querer vestir a carapuça de epidemiologista.
O material genético usa o hospedeiro para replicar-se, para passar adiante a sua forma. Sem saber de si, sem saber de mim, de você, de nós todos. Seja onde for. Se faz frio, calor. Nem a idade conta.
Então, conhece a estrada quem caminha? Enfio a mão na massa. Lamento, ovo não frita sozinho. Aliás, a perturbação do mundo causa mais nervosismo. Colombo veio pra América de navio, não numa foto das covas de Manaus. E sei lá quando perplexidade deixa lelé.
Em dias difíceis, tenho feito a minha parte. Tento.
No entanto, mesmo em meio à tempestade viral que pede radicais alterações de hábitos, confesso que alguns me são caros demais pra adaptá-los ou renegá-los. Ô tristeza, não mudo fácil.
Acho que não ajo por mal. Procuro entender que não vim torto pro mundo. Arrisco possível ir vivendo ao sabor dos erros. Cuido de mim; não quero dar sarna ao cão; evito que abundem.
Contra o desperdício, confiro o papel higiênico. Urino, lavo a mão. Tão logo acordo, pulo da cama. No sofá, vou lendo o jornal no celular até que o pescoço precise do apoio da almofada. Ajusto.
Todavia, não me convenço de que a dor distraia a ponto de trocar o pé. O que ando sentindo tem nome, é medo. Nem descalço ficarei correndo por aí. Com mais vírus no céu que aviões, toca-me o desejo de ir curtindo a sonora garoa.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 28 de abril de 2020.

domingo, 26 de abril de 2020

Um passo e além


Um passo e além

Pega. Pega ladrão.
Bem antes das nove, a rua está gritando. Movendo-se, de varanda em varanda. Deixo que passe, vá no seu ritmo. Sei ficar na minha. Só depois de ter cruzado a esquina, ocupo a sacada.
Passado o chamariz, caio embriagado pela quebra da nova rotina, que fecho o apê às cinco pra não tomar a fresca pelo nariz. Deixo-me estar ali um pouco mais. Melhor entrar, pra não acabar numa cadeira, puxando palha com a lua, certo de que a vida leva por onde nem se sabe por quê.
Dar azar, incomodar-me com as artimanhas do acaso?
Respiro o ar geladinho, e curto gostoso a brisa no rosto.
Constato esvaziada a venerável sacada dali, da frente. Já livre das gaiolas, já ostentando o buraco do ar-condicionado. Assim, e tão de repente, subverto-me à alegria. Que brinca de murmurar um ódio bom que detona minha indiferença postiça.
Aliás, Nero Eugênio é ideia minha, uma ficção pela qual registro a personificação de certa maneira hábil, digna, decente, amorosamente pia ao retratar-se. Como quem, perante as chamas do mundo, recorre aos idosos para apagá-las.
Ter quem vença é que faz parte? Pena, muito pouco me controlo quando atribuo a outrem os males do mundo. Se precisasse mudar o jogo, trocaria de lado. Daí, arrisco tomar partido: o meu.
De máscara, os funcionários fecham o baú do caminhão. Hora de ir pro destino final, endereço que não me interessa qual seja.
Desenrola-se uma cena. Contribuo com o silêncio. Mesmo quando a discussão ameaça romper o isolamento. Quem está indo, que vá de uma vez. Pra quem fica, então, é o exato momento pra soltar cobras e lagartos. Bem na partida do desafeto.
Queria entrar nessa, só que estou com os ovos contados.
Mas imagino.
Trocam os primeiros tapas. O homem quer ir embora. As mulheres gritam. Não perdem tempo nem o entusiasmo, vão melando o quanto podem o carro do cara que parte em disparada.
No fim, o poeirão da rua em obras sobe; e corro para dentro.
Adeus muralhas da privacidade, abaixo as levadiças virtuais. Entro com o estresse na videoconferência. Travamo-nos, e reconectamos. Embora amigos, quatro pilhados num espaço cósmico.
Relato os eventos de quase agorinha. Com parcimônia, isenção e camada de verniz imperceptível a quem me desconheça capaz de um humor adstringente. A quem tem de mim a experiência própria, o tom de gelo torna evidente o escárnio infectante.
Pelos lanços sangrados do patrimônio, mal posso administrar este reino, o meu corpo. Território confinador em que padeço da comédia com o riso encalacrado, que a todos nós impele ao pudor sanitário da privação de, gratuitos ou éticos, abraços, sopapos, umas escarradas.
Doloroso, mais ainda, é admitir que o tolo de plantão em mim siga negando o que chega. Como alvíssara não proclamada, o megafone denuncia a retomada das normalidades.
Pamonhas. Com sabor da infância, pamonhas.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 26 de abril de 2020.

quinta-feira, 23 de abril de 2020

O canto do galo


O canto do galo

Sem delongas algumas, na jugular do tempo: bom é saber viver, é saber amar. Canta Leila Pinheiro em Vamos partir pro mundo, disco com canções de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar.
Mas, viver como? E amar a quem?
Submerso nas minhas jornadas de pouco pão e muita pá, como se desigualdade e afastamento entre desiguais fosse obra da natureza, faço o quê? Como frios no café matinal.
Oxe. Sem dar bola pra esgotamento, lavo o chão, limpo o espelho, deixo tinindo o banheiro. Tchau, tchau manhã.
Com o gás por um fio e sem curtir a grana curta, almoço.
Hora de ir jogar fora as bugigangas do passado recente. Rasgo as contas de luz. Leio notas de noites insones. Interpreto, mareado.
Caramba. Tomo refri. Mais, um sanduba de frios.
Que águas assombrosas teimei enfrentar de peito aberto?
Na travessia que me traz até aqui, sentado à mesa da cozinha, só, e perturbado por emoções que imaginava engavetadas na memória, eis que o engenheiro em mim arquiteta o poema já amanhecido, que cato feijão de gole em gole, de bocado em bocado.
Sigo, sem fugir das efêmeras pontes necessárias. Faço-as com o que tenho ao dispor, à disposição da dor. Transe que não cura.
Passo a tarde a lamentar a circunstância? Nada disso.
Opto ouvir música... Sá Marina, roda pela vida afora e põe pra fora essa alegria... Em seguida? Sá Marina, gira que essa gente aflita se agita e segue no seu passo... Ê desconforto. A mente parece adiar o crepúsculo da tarde. Insisto, repito.
Fico nisso? Tomo banho.
Ao que parece, de modo abrupto portanto causador de ansiedade generalizada, o mundo propõe uma DR, o que não quero encarar.
Corro comer, janto correndo. Arroz só água e sal; pão com frios; e um teco d’água. Feito.
Pulga morre de fome quando esnoba o sangue?
Nem bem começo a leitura d’As alegres comadres de Windsor e já estou mergulhado na correnteza. Poxa.
Então, queijo e manteiga pesam iguais em vesícula saturada.
E vem a dor de cabeça. E aumenta o incômodo nas costas. E vem o calafrio. E tira o moletom. E põe o moletom. E fico à mercê do asco que a realidade faz pulsar, ê cólica biliar.
Alívio? O indicador na goela.
Ligo a TV. Como não vi o primeiro episódio de Lucifer, vejo. Que vontade maluca. O inferno ao meu redor consome a calma com a Los Angeles dos canastrões, suporto.
Da estante, uma foto dos tempos da Católica, em Santos, me sorri um amanhã menos tóxico. Foto tirada no Toninho. Não pego o celular pra ver se ainda existe, já me guio por outro mapa. Para que voltar se já estou lá? E aqueles bolinhos de bacalhau? Não, não. Sempre fui fã da carne quente dos pastéis. Que sinto, e salivo.
E a gordura do queijo no vento da fritura? Vem...
Ébrio de sobriedade, arremato o tino derretido que não assento.
No abismo da criação, este texto inventa a cosmogonia de sonho feito pilhagem. Algures, espalho o sol que amo?
Vésper, à flor do canto do galo, acordo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de abril de 2020.

terça-feira, 21 de abril de 2020

Elogio da razão


Elogio da razão

Movido pela necessidade incontornável de ir fazer minha compra quinzenal, que em dias coronavarianos preciso racionalizar as saídas, vou certo de que meus caminhos conhecem do chão a realidade pelo trajeto batido. Otimizado pelo prosaísmo do banal, atrevo-me a dizer que, ao fim e ao cabo, o mundo cultua estímulos passíveis o bastante pra que fabrique outra crônica em branco e preto?
Logo essa manhã de domingo abre-se feito porta que nem se via, embora estivesse diante dela já passados quinze dias. Eis que estou cortando retângulos de uma camiseta, verde e amarela, dos tempos em que havia copas em disputa. Cortado o pano, ensaio dobras; faço furos pra inserir os elásticos que não tenho, irão me servir as alças de uma sacolinha. Como sei tudo, furei errada a máscara. Não é porque tem fazenda de sobra que falharei outra vez, mas experimento a arte zen de me aborrecer com as limitações de ser incapaz da serenidade.
Sufocado em mim, percebo que me espreita algum velho diabo, talvez aquele posto por Vitorino Martins na capa do Maldoror editado pela Moraes. Sentindo o corpo lavado de mágoas, resolvo deixar para exibir a proteção na segunda-feira. Horrorizado comigo, quero mais é tomar banho.
Como a vida não para um segundo sequer, preparo o café; corro a leitura dos jornais; recuso-me a vestir bermuda; e, cobrindo narinas e lábios, encaro a amarelinha.
Angustiante não é perceber que antevejo as pinceladas pesadas, grotescas, que expressam a convulsão diante do desconhecido. Levo o grito pra fora do apartamento.
Pondo esquecido o cartão na carteira, zombo de mim. E temendo que me vazem a tripa, saco o dinheiro.
Mas há policiamento.
Calçadas vazias. Balconistas em quarentena. Sem nem saber das bocas que, vidradas em lives, não beijam, há cães vagando à solta.
Oito e pouco. Há seis ou quatro pessoas no supermercado. O som ambiente repassa as cautelas que adoto. Há tristeza, e algum torpor. Longe do corre-corre, olhares contrariam os troncos eretos. Acalento um Chopin que me estude a percepção.
Menos abatido, mais pensaroso. Refaço minhas pegadas.
Dou de cara com o que não esperava. Como aglomerações estão proibidas, eis que se me apresenta um grupo de invisíveis que vivem entre os desvãos do balneário.
Passo. Todos despertamos bárbaros? Posso meu passo.
Imagino proceder bem com as coisas todas, ao pô-las no lugar. Já banhado de novo, almoço e janto. O travesseiro aceita a entrega.
Como previsto, cuido de mais outro dia. Ouço vaps. Vejo idosos a conversarem as suas carências. Topo com a efeméride no Otto Lara Resende que leio no Portal da Crônica Brasileira.
Contudo, antes que pinte aquele olhar ensandecido a devorar este filho desta época assaz soturna, encerro com a voz que recorda que há muito tempo que se diz que “os poetas e os pintores formam uma nação livre”.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de abril de 2020.

domingo, 19 de abril de 2020

Uma história de amor


Uma história de amor

Muito se engana quem busque nestas linhas as marcas de alguma apologia ao equilíbrio que filtra a atualidade das circunstâncias com a placidez dos sensatos. Muito pouco há disso, uma vez que a seguir vem um caso de amor entre lápis e papel.
Então, conseguindo-se tirar um tempinho para prestar atenção ao que se conta, eis o lápis a pretender agir com desenvoltura no papel de sempre. Porém, em razão dos eventos, por temer estar passando em branco, feito algaravia sublimada no registro, o grafite pode muito bem disparar, havendo o estímulo da escuta, o que amedronta.
Já se disse que falar libera o sofrimento. Mas falar quando se quer não é o mesmo que falar quando seja inconveniente. Sob pressão, a contragosto, sem controle, para que se revele o que nem se percebia torturante. Sem meias palavras, desmesurada, isso torna interessante a pessoa, que vai soltando pistas do que não diz às claras.
Ops! Ter direito à transparência não garante a claridade de si nem o autoconhecimento fundamenta a identidade. A intimidade tem como dissimular, diz o medo. Tentando evitar contradições, acreditando-se o discurso possível de quem comanda, diz a vaidade. O descuidado, sem perceber, pode estar adulando o demoniozinho que adora soprar à língua as palavras a quem as avaliza indispensáveis.
A ilusão da fala sem mistérios? Falar tomando cuidado com o que é falado engendra o que não se diz? O autoengano de conhecer-se a ponto de imaginar-se ocupando o lugar que manda?
Como alguém já alertou, desejos não se submetem.
Incontroláveis, os desejos brincam com as aparências, não jogam com o acaso, por isso ganham a aposta que não fazem. Permanecem fora dos domínios da linguagem articulada. Preferem tramar-se de tal maneira que a comunicação borra no retrato o ruído dos traços.
Eis o enevoado, o inacessível à lógica que move os moinhos.
Nesse campo obscuro o pensamento fica protegido. Desvia o foco pras satisfações e pros prêmios que acomodam. Quando há o prazer do reconhecimento, há o contentamento e o relaxamento que alivia. E está armado o círculo.
Fazer o bem para merecer aplausos? Dá para aferir como um bem o que se diz? O aplauso serve para medir a felicidade de quem fala e de quem ouve? Quando o aplauso move quem vive dizendo o quanto tem feito de bem, a audiência está no palco.
Se a fala apaixonada foge ao padrão, como medi-la?
Para não vir à tona, cala-se sobre o que não diz. De entrelinha em entrelinha, quer tornar intransitável o que não quer dizer. Pra vir à luz, demanda-se encarar o que a escuridão esconde, encobre, abriga.
E até parece que excessos fortalecem.
Dizem que duvidar faz bem pra cabeça que quer tudo decorado de acordo com o bom senso, talvez isso explique por que anda sumida a amante caprichosa que, beirando o insuportável, acha um escândalo ver desfecho onde não tem.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 19 de abril de 2020.

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A lógica da coisa


A lógica da coisa

Quem sabe aquele vinho tinto à noite, um uísquinho cowboy antes do almoço e o néctar do Ceará em forma de caninha.
Com a máscara no lugar, e o pensamento no mundo da rua, vê-se a que ponto pode chegar quem bate na mesma tecla, o desejo que o agasta. Em plena quarentena, assim feito o sul pro norte do ímã, não porque não queira mudar de assunto, mas, súbito, com a convulsão em andamento, passou a ter essa ideia fixa.
E sente muito.
Está isolado do calçadão, afastado do supermercado, distante dos bancos, apartado do dia a dia.
E deseja seguir.
Sentado no piso frio da sala, está torto. Sobre a mesa de trabalho, as lentes sujas dos óculos, largados entre a tela do computador e a do televisor, não filtram as imagens, aumentam a decepção acrescida de saliva. As mãos no rosto ilustram aquele estado, de pessoa que só tem o rumo a que se sujeita ruminar.
Num soluço envergonhado, quase um pranto sem lágrimas, tenso, na certeza doída de que entojou, de que tem sobrevivido estropiado.
O pior, naquelas circunstâncias de confinamento, é ter a sensação de que a memória anda engasgada, meio danificada.
Quando foi que o mal-estar tinha começado?
Não, tal descompasso vinha de antes da restrição do livre trânsito. Agora, parece que questionar é bobagem, uma vez que permanecerá fechado no apartamento. Vendo TV ou não, terá de suportar-se entre o desassossego de cão sem poste e a rabugice de gato faminto.
A coisa não ia por água abaixo nem o afogava, estando no raso. E punha gás de que não iria acomodar-se daquele jeito, contrariado por autoridade a que não se submeteria sem confrontação.
Como deixara de malbaratar a trama da vida, não iria repor panos puídos na carne envilecida por anos na esbórnia. De modo algum.
Numa hora dessas, ter de aturar-se?
Como a sensatez não esconde o doido que passa a pensar com a pressa dos incréus, é óbvio que estava pagando por águas passadas. Com o pé fora do mar, não seria agora que daria ouvidos a sereias na preamar. Terá de reverter tanta negatividade.
Tem medo. Sabe o quanto pena.
Bem na semana de todo auê na mídia, quebrou-se um molar. Com a mente ocupada em comprar mantimentos, foi-se a obturação de um pré-molar. Pra acentuar o fundo do bagaço, abre-se a janelinha.
E toca pensar que aquilo não haveria de ser nada, que tinha gente desdentada, que por aí tem quem esteja passando fome.
Não é o caso.
Ele pode abocanhar o pão da manhã, tomar suco de manga bem gelado e comer biscoito lá pelas quatro. Mas o tempo virou.
Vai deixar para lá quando poderia ter tomado pulso de cara?
Falta coragem pra ir ao dentista. Pode dar o azar de pegar o vírus letal na cadeira odontológica.
Melhor pensar bem; e focar na solução menos traumática.
Sem ficar criando fantasmas, tira o pijama, cobre boca e nariz com um lenço. Com a cabeça dos iluminados, voa.
Ufa! Paga logo uma dúzia de Velho Barreiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de abril de 2020.

terça-feira, 14 de abril de 2020

Sem vaidade


Sem vaidade

Vida é movimento.
Como a noite está impregnando os lençóis amarfanhados, sacudo as pulgas de ontem. Ajeitando-o, o leito nem precisa dizer que o dia não perde tempo. Vem aí um friozinho de fim de tarde. Corro a porta da varanda, guardarei o calor do outono.
Vou fazer a barba, mas não pra dar umas voltinhas. Levo a sério o achatamento da curva da peste; persevero no distanciamento físico; devo preservar a saúde e a do outro. Só não quero parecer doente.
Já que não me vejo corroído pela acidez das angústias, tiro o som da TV. E, em meio ao caos pandemônico, a Terra segue ocupada em produzir rotação, translação, e excreção.
Nada mais natural.
No mundo, há coisas boas e ruins. Sempre as houve. Assim, pode ser que esta pandemia aumente o sentimento de humanidade que as pessoas têm umas pelas outras. Há, entretanto, os animais cultivados com doses pouco sutis de mentiras, manipulações, hipocrisias; como não testam positivos falsos?
Hélas! Ao ver-se confinado ao convívio consigo, eis que a cara de pau que o perverso fingia não trajar no cotidiano passa a espernear, gritar, amaldiçoar, querer fugir do cerco, dessa pavorosa aproximação íntima. Sob maquiagem de palhaço, revela-se o vilão de máscara.
E o truque da trapaça?
Não deixo pra amanhã o que era pra ontem. Concentro-me. Vou à geladeira pra petiscar um pedaço de bolo sem sorvete de chocolate. Ignoro o que está havendo nas ruas, preciso avançar. Recuso engolir as notícias, preciso manter a cabeça em paz. Estico a coluna no sofá, para que dores incômodas não me impeçam de trabalhar. Controlo o tempo, ajeito a cadeira. Tenho muito a dizer. E digo o que quero. Sem me importar se desagrado. Quero continuar no comando. Não posso deixar que a realidade contamine meu texto. Guerras assim não são travadas no papel. Para mim está claro em que teatro preciso atuar. Escrevo; corrijo a escrita, expurgando intromissões incoerentes. Nada mais justo do que me entregar de corpo inteiro ao que me satisfaz. Conscientizo-me do compromisso comigo. Muito de mim transparece no que faço, por isso labuto para marcar a minha presença. Uma vez que a época em que vivo é esta, faço agora o que tenho para fazer. A luta exige de mim o esforço para parecer simples, natural e agradável de ler. Tenho viva consciência de que estou me encorajando a dar ao mundo o melhor de mim. Porém, não fico pensando sem nexo. Acabo concordando que não devo correr do que me perturba. Aqui e agora, o jogo é para sempre. Aposto que nunca antes tinha percebido que o que faço precisa ser feito confrontando a permanência. Leio o escrito, isso me tranquiliza. Pela isenção diante do medo, não vai ser apenas citado, servirá de modelo de coragem. Movido pelo amor ao próximo, neste preciso instante, faltaria com a verdade se me furtasse a admitir que, pessoalmente, sinto um orgulho danado.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 14 de abril de 2020.

domingo, 12 de abril de 2020

Aprender a nadar


Aprender a nadar

Muita gente está lendo A peste do Albert Camus, todavia, por me sentir um lobo enlouquecendo pelo uivo da matilha, busco Robinson Crusoé pelas lombadas, em vão.
Não por isso. Invento outra versão.
O náufrago vai dar numa ilha, entra numas de matar o tempo. Faz isso, faz aquilo, repete isso, e repete aquilo. Até que se dá conta que precisa disciplinar-se. Ter a liberdade de instituir a rotina que sempre pediu aos seus. O destino deu-lhe o presente de praticar a empatia, de poder olhar o mundo com os olhos de outra pessoa. Que beleza! Altruísta como nunca antes, o Robinson da minha história deixa-se acordar pelo sol da aurora; vai cedo correr pela beira-mar; senta na praia para beber água de coco, regalo caído na areia; com um rústico arpão artesanal, fisga um peixe gostoso que chama de... peixe; sim, a sua imaginação é parca; a sua voz pouco se ouve, só quando ralha com umas aves que arrisca chamar gaivotas; uns bichos desordeiros que mergulham na água do mar para papar os peixes, o que o atrai para área de mergulho das barulhentas; como não suporta algazarra, tampa os ouvidos com caracóis pontudos. Putz! Os dias não passam. A melhor maneira de ter certeza de que estão passando é marcar sua passagem. Então, assim que é acordado pelos raios da manhã, lá vai ele riscar num tronco um pauzinho por dia. E isso ele faz todo dia. Por vinte e oito anos, foi o que fez. E parou por quê? Não teve jeito, como a marcação no tronco de cada árvore foi sendo feita com um canivete enferrujado, aquilo adoeceu cada uma das árvores da mata antes do rio. A floresta já era? Sem problemas, o Robinson caniveteiro podia ver a maravilha daquela vista. Uma montanha! Lindo monte que todo aquele mato tapava. Ô lugarzinho cheio de vida. Tanto que entrou em erupção, forçando-o a nadar feito doido pro barco do Sexta-Feira.
Olho pela janela.
Ai. Esse negócio de ficar trancafiado entre quatro paredes está me deixando injuriado. Tem crescido em mim essa tensão, uma vontade de cometer alguma confissão. De cunho bárbaro, vulgar e obsceno, o que pode causar assombro, em quem acredita em assombração. Há um broto meio crescido, acho uma flor exótica. Que a minha discrição padece tensa e perplexa, porquanto desaprove o coração desvelado assim em público. Tornada ferida aberta, desassossego que se nutre de ansiedades, a minha mente precisa de lufadas de ar renovador.
O sol venta o seu mar.
Leio o que diz Christiane Torloni, no Estadão do feriado, a respeito do seu trabalho em Fina Estampa:
― “Você tem que lutar com você mesmo para não tentar criticar o personagem, sua performance... Quer dizer, o personagem, não. Isso é uma coisa que eu percebo já há muitos anos: não faço julgamento de valor de personagem, nunca. O único que pode fazer isso é o público”.
Mas, cáspite!
Maremoto nenhum tem medo de afogar-se em braços míopes.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de abril de 2020.

quinta-feira, 9 de abril de 2020

Morte e vida coronavariana


Morte e vida coronavariana

Ontem à noite, por volta das nove da noite, a postos: à espera das manifestações. Confirmo: nove e três. A vizinha do quarteirão depois da Jaú chama: boa-noite. Insiste, clama resposta, e obtém.
O chatão aqui nem se esforça pra disfarçar que desdenha. Gritaria num pandemônio desses? Com tanta panela tagarela nas varandas, como sacar que tem gente que nem bate boca por falta de Face? E a morte ronda os altares suplicando moedas?
Há pessoas que começaram a ver que tem alguma coisa vindo na direção delas; outras tantas já se aperceberam que tem vindo algo na direção de todo mundo; as poucas que tinham olhos como lunetas e ouvidos como audiômetros ficam em casa pra evitar que se acelere o pasmo nem se intensifique a carnificina.
O planeta é um só? Poxa, caramba, vixe.
Algumas pessoas estão perdendo o foco; outras estão posando no palco compartilhado; estamos numa oitava atravessando a escala.
Num átimo, do outro lado da rua, entra em cena, naquela varanda com ar-condicionado, o adorador de derivados do cloro.
Nero Eugênio, exemplo de fôlego, funesto exemplar.
Os ventos de perdigotos travam os moinhos? Não se engane, tem gente que está mentindo. Hidroxicloroquina já! Depois não reclamem quando o diabo vencer a guerra. Quem com a verdade se liberta, com a verdade libertará. Anote aí o que, ó que já faz tempo, tenho dito.
Poxa, provocar conflito. Caramba, nem dá pra respirar. Vixe, ainda bem que pude aprender a lavar as mãos de olhos concentrados.
Sem conseguir ouvir direito o que se dizia logo ali, volto pra sala.
Com um gosto amargo na boca, sim, ainda tenho paladar e olfato, me vem à mente um desânimo, uma frustração, uma fronteira que foi ultrapassada. Parece que o fantasma martela, bate, vai perfurando.
Eu falo. Falo mesmo, porque é preciso dizer. Tem que abrir o olho. O brasileiro é um tonto que não vê que estão enganando o coitado. Digo, fico repetindo, mas o bobalhão cai na conversinha dos espertos e não toma jeito. Falo, falo, falo, e nada de ser ouvido.
Se ninguém escuta, viva o amor livre dos pandas encarcerados.
Sim, amiga leitora e amigo leitor, o mundo animal anda curtindo o sumiço dos seres humanos.
Notícia vinda de zoológico em Hong Kong diz que, depois de uma década morando juntos num cativeiro público, dois amáveis pandas gigantes, Ying Ying e Le Le, mandaram bem com sol e tudo. Também pudera, com seis bilhões de pessoas intoxicadas de tanta pornografia coronavírica, sentiram-se à vontade pra perder a virgindade conjugal.
Sexo selvagem em TVs, jornais e sítios de família?
Dias bizarros. Quem vive? Uma época rara. Quem morre? Nunca antes vivi algo assim. Quem vence? E o que posso dizer nessa hora? Quem é vencido? Como traduzir o que tenho vivido?
Seria um acaso coronaviral... Ou uma chance coronavirana...
Ô cabeça, de onde vem o título da crônica?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de abril de 2020.

quarta-feira, 8 de abril de 2020

Mais uma cascata


Mais uma cascata

Cadê o lápis que uso pra escrever meus textos? Eita, o tempo não para, vou tecer direto no micro. Porém, como não existe rascunho pro abismo da queda, vou pé ante pé pelo improviso:
21 horas, por aí. Começam os gritos. Até que os entenda, soam como ruídos. Efeito da clausura: usar a loucura como cura? A vizinha da frente põe-se a traduzir a situação, berra a favor da solidariedade, saúda. Janelas, sacadas e varandas são a boca imprevista, de cujos lábios partem perguntas a perguntas. Faz-se o diálogo, algo raro que não vinha havendo; assim publicamente? Necas.
Atrás de cortinas corridas, sob lâmpadas apagadas, ensimesmado pelas pálpebras cerradas, o homem atormentado pelas azáfamas do dia a dia agradece a vivacidade que torna leve o ar. A vida tem fome de vida, isso a rua tem, isso o renova pro amanhã.
E os números da curva, e o vetor do contágio, e a propagação dos cuidados? Angústias, e mortes, e desespero.
Sem formação nas áreas médica, biológica ou estatística, resta ao personagem voltar-se pra leitura do entorno. Sem gritar, espernear ou dar murro no espelho, pois cacos e sangue não matam o invisível.
Com este coronavírus provocando a morte de tanta gente como todo vírus faz, como é que a história não se repete? “A história não se repete, mas os mecanismos de como a sociedade responde aos problemas são sempre os mesmos. Por isso temos as respostas na história. Como não mudamos, as reações coletivas são iguais. Somos animais, não devemos esquecê-lo. Diante de medo, incerteza e falta de orientação, reagimos sempre igual. No entanto, se sabemos que reagimos assim nos controlamos. Por isso temos a civilização”.
Tudo bem, Géraldine Schwarz, não estou com cabeça pra pensar a respeito. Estou mais para concordar com o Gonçalo M. Tavares: “É preciso infiltrar nas fissuras a alegria. Como se a alegria fosse um material médico”; “A alegria não basta, mas é necessária”.
Que coisa. Sim, e está ali na frente, impossível de ser alcançado. Então, prevendo que nunca hei de atingir, não tenho a petulância de pensar ter dado o melhor de mim enquanto faço o que estou fazendo nem depois de feito.
Ainda mais com a montanha perto. Quero subir, ir ao topo.
Aliás, antes pudesse só me concentrar na escalada.
Vem uma névoa, adeus pico da montanha. Sem visão, imagino.
Vou tentar algo. Sacudo as mãos, agito os braços, quero agachar. Opa! Melhor não arriscar cair... Na água? Parece que estou pisando em pedra solta, flutuante. Parece que roda, e não saio do lugar.
Para evitar confusão, boto uma bruxa na história. Sua casa fica no sopé do monte, já que é a guardiã de um tesouro, acho.
Até estou sentindo que há um rio subterrâneo. Se não tenho nome pro sentimento? Isso me escapa. Se a bruxa não disser nada, irei às cegas.
Palavras, pedras rodogirantes flutuando em rio que não se vê.
Oxe. Um estrondo?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de abril de 2020.

domingo, 5 de abril de 2020

A dar conta


A dar conta

Se presto conta do que nem faço conta?
Li em algum lugar por aí que o cineasta Jean-Luc Godard teria dito que a cultura é regra e a arte, exceção. Acolho este pensamento.
Assistindo ao filme Rolling Thunder Revue, de 2019, dirigido por Martin Scorsese, confirma-se a ideia.
Nem um pouco excepcional, viro a viajar no sofá.
A obra mescla material de 1975/76, em que uma trupe de artistas arregimentada por Bob Dylan incursionou pelos EUA de raiz e não só pelo país das metrópoles, e recente.
Logo no princípio, o cantautor diz: “A vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. A vida serve para você se criar. E criar coisas”.
O que tenho feito que possa ainda mudar?
Para mudar, preciso primeiro avaliar o que ando fazendo. Isso me agrada; isso me aborrece; pouco me importo com isso. Que vida feliz tomo por modelo? A saúde antes de mais nada? O bolso sofre abalo? A cama com ciúme do sofá? A fruteira está oxidando?
A maresia, a maré, o mar... Merda.
Se o oceano ensina, ignoro. Se emergisse, afogar-me-ia.
A mesóclise como metáfora do medo-em-vida, dum eu-zumbi.
Seu Rodrigues, sua pessoa tá mesmo bem à vontade, hein?
Estou em casa, mantenho os pés no chão, respiro o ar que entra pelas janelas abertas, cozinho ovo pro almoço; à mesa sem TV, como folhas da alface hidropônica de sempre, abocanho à medida da boca, mastigo com a velocidade de quem aprecia e não de quem se livra da comida que tem que engolir de qualquer modo; me ajeito comigo.
Não me sujeito. Se bem que... Retirei da crônica anterior, Daora, o seguinte desenho de uma carantonha darwinista social:
Como não rezo nem me apiedo, não sinto culpa por desprezá-lo.
Nos momentos de pânico desesperadamente contagioso, quando a razão alucina, pus em prática a autocensura.
Nem antes nem depois ― o entre.
No vão, nisso grassa tal pessoa cheia de infâmias.
Então, o que mudou? Então, avaliei o que andava querendo com a crônica, sem mensagem em garrafa atirada ao mar. Sem mar, só algo dado como normal.
Escrevo. O uso das palavras estabelece a comunicação, mas isso de querer pôr o que tenho pra dizer é empulhação. Longe de mim dar uma de pastor diante do rebanho em crise epidêmica.
E escrevo. Junto palavras, organizo-as de algum jeito.
As leituras? Desorientam.
Aliás, leria O livro das ignorãças. Não tenho. Vou de Gramática expositiva do chão porque, a esmo, sigo fisgado:
O homem de lata anda fardado de camaleão.
Bem que a pandemia tenta, todavia não uso fardamento. Opto por me distrair com a materialidade das palavras, de coisas sonoras, que as andorinhas voam quando pousam.
Este escriba erra por si, não em si nem pra si. Sim, não me viciam as virtudes. O meu ofício está em transformar o erro em algo que não sei o que seja até que venha a ficar pronto.
Quando tá pronto, tá terminado? Não, nada.
Girassóis, girassóis, girassóis... Giraluna.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de abril de 2020.