quinta-feira, 9 de abril de 2020

Morte e vida coronavariana


Morte e vida coronavariana

Ontem à noite, por volta das nove da noite, a postos: à espera das manifestações. Confirmo: nove e três. A vizinha do quarteirão depois da Jaú chama: boa-noite. Insiste, clama resposta, e obtém.
O chatão aqui nem se esforça pra disfarçar que desdenha. Gritaria num pandemônio desses? Com tanta panela tagarela nas varandas, como sacar que tem gente que nem bate boca por falta de Face? E a morte ronda os altares suplicando moedas?
Há pessoas que começaram a ver que tem alguma coisa vindo na direção delas; outras tantas já se aperceberam que tem vindo algo na direção de todo mundo; as poucas que tinham olhos como lunetas e ouvidos como audiômetros ficam em casa pra evitar que se acelere o pasmo nem se intensifique a carnificina.
O planeta é um só? Poxa, caramba, vixe.
Algumas pessoas estão perdendo o foco; outras estão posando no palco compartilhado; estamos numa oitava atravessando a escala.
Num átimo, do outro lado da rua, entra em cena, naquela varanda com ar-condicionado, o adorador de derivados do cloro.
Nero Eugênio, exemplo de fôlego, funesto exemplar.
Os ventos de perdigotos travam os moinhos? Não se engane, tem gente que está mentindo. Hidroxicloroquina já! Depois não reclamem quando o diabo vencer a guerra. Quem com a verdade se liberta, com a verdade libertará. Anote aí o que, ó que já faz tempo, tenho dito.
Poxa, provocar conflito. Caramba, nem dá pra respirar. Vixe, ainda bem que pude aprender a lavar as mãos de olhos concentrados.
Sem conseguir ouvir direito o que se dizia logo ali, volto pra sala.
Com um gosto amargo na boca, sim, ainda tenho paladar e olfato, me vem à mente um desânimo, uma frustração, uma fronteira que foi ultrapassada. Parece que o fantasma martela, bate, vai perfurando.
Eu falo. Falo mesmo, porque é preciso dizer. Tem que abrir o olho. O brasileiro é um tonto que não vê que estão enganando o coitado. Digo, fico repetindo, mas o bobalhão cai na conversinha dos espertos e não toma jeito. Falo, falo, falo, e nada de ser ouvido.
Se ninguém escuta, viva o amor livre dos pandas encarcerados.
Sim, amiga leitora e amigo leitor, o mundo animal anda curtindo o sumiço dos seres humanos.
Notícia vinda de zoológico em Hong Kong diz que, depois de uma década morando juntos num cativeiro público, dois amáveis pandas gigantes, Ying Ying e Le Le, mandaram bem com sol e tudo. Também pudera, com seis bilhões de pessoas intoxicadas de tanta pornografia coronavírica, sentiram-se à vontade pra perder a virgindade conjugal.
Sexo selvagem em TVs, jornais e sítios de família?
Dias bizarros. Quem vive? Uma época rara. Quem morre? Nunca antes vivi algo assim. Quem vence? E o que posso dizer nessa hora? Quem é vencido? Como traduzir o que tenho vivido?
Seria um acaso coronaviral... Ou uma chance coronavirana...
Ô cabeça, de onde vem o título da crônica?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 09 de abril de 2020.

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