terça-feira, 21 de abril de 2020

Elogio da razão


Elogio da razão

Movido pela necessidade incontornável de ir fazer minha compra quinzenal, que em dias coronavarianos preciso racionalizar as saídas, vou certo de que meus caminhos conhecem do chão a realidade pelo trajeto batido. Otimizado pelo prosaísmo do banal, atrevo-me a dizer que, ao fim e ao cabo, o mundo cultua estímulos passíveis o bastante pra que fabrique outra crônica em branco e preto?
Logo essa manhã de domingo abre-se feito porta que nem se via, embora estivesse diante dela já passados quinze dias. Eis que estou cortando retângulos de uma camiseta, verde e amarela, dos tempos em que havia copas em disputa. Cortado o pano, ensaio dobras; faço furos pra inserir os elásticos que não tenho, irão me servir as alças de uma sacolinha. Como sei tudo, furei errada a máscara. Não é porque tem fazenda de sobra que falharei outra vez, mas experimento a arte zen de me aborrecer com as limitações de ser incapaz da serenidade.
Sufocado em mim, percebo que me espreita algum velho diabo, talvez aquele posto por Vitorino Martins na capa do Maldoror editado pela Moraes. Sentindo o corpo lavado de mágoas, resolvo deixar para exibir a proteção na segunda-feira. Horrorizado comigo, quero mais é tomar banho.
Como a vida não para um segundo sequer, preparo o café; corro a leitura dos jornais; recuso-me a vestir bermuda; e, cobrindo narinas e lábios, encaro a amarelinha.
Angustiante não é perceber que antevejo as pinceladas pesadas, grotescas, que expressam a convulsão diante do desconhecido. Levo o grito pra fora do apartamento.
Pondo esquecido o cartão na carteira, zombo de mim. E temendo que me vazem a tripa, saco o dinheiro.
Mas há policiamento.
Calçadas vazias. Balconistas em quarentena. Sem nem saber das bocas que, vidradas em lives, não beijam, há cães vagando à solta.
Oito e pouco. Há seis ou quatro pessoas no supermercado. O som ambiente repassa as cautelas que adoto. Há tristeza, e algum torpor. Longe do corre-corre, olhares contrariam os troncos eretos. Acalento um Chopin que me estude a percepção.
Menos abatido, mais pensaroso. Refaço minhas pegadas.
Dou de cara com o que não esperava. Como aglomerações estão proibidas, eis que se me apresenta um grupo de invisíveis que vivem entre os desvãos do balneário.
Passo. Todos despertamos bárbaros? Posso meu passo.
Imagino proceder bem com as coisas todas, ao pô-las no lugar. Já banhado de novo, almoço e janto. O travesseiro aceita a entrega.
Como previsto, cuido de mais outro dia. Ouço vaps. Vejo idosos a conversarem as suas carências. Topo com a efeméride no Otto Lara Resende que leio no Portal da Crônica Brasileira.
Contudo, antes que pinte aquele olhar ensandecido a devorar este filho desta época assaz soturna, encerro com a voz que recorda que há muito tempo que se diz que “os poetas e os pintores formam uma nação livre”.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 21 de abril de 2020.

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