Elogio
da razão
Movido pela necessidade incontornável
de ir fazer minha compra quinzenal, que em dias coronavarianos preciso
racionalizar as saídas, vou certo de que meus caminhos conhecem do chão a
realidade pelo trajeto batido. Otimizado pelo prosaísmo do banal, atrevo-me a
dizer que, ao fim e ao cabo, o mundo cultua estímulos passíveis o bastante pra que
fabrique outra crônica em branco e preto?
Logo essa manhã de domingo abre-se
feito porta que nem se via, embora estivesse diante dela já passados quinze
dias. Eis que estou cortando retângulos de uma camiseta, verde e amarela, dos
tempos em que havia copas em disputa. Cortado o pano, ensaio dobras; faço furos
pra inserir os elásticos que não tenho, irão me servir as alças de uma
sacolinha. Como sei tudo, furei errada a máscara. Não é porque tem fazenda de
sobra que falharei outra vez, mas experimento a arte zen de me aborrecer com as
limitações de ser incapaz da serenidade.
Sufocado em mim, percebo que me espreita
algum velho diabo, talvez aquele posto por Vitorino Martins na capa do Maldoror editado pela Moraes. Sentindo o
corpo lavado de mágoas, resolvo deixar para exibir a proteção na segunda-feira.
Horrorizado comigo, quero mais é tomar banho.
Como a vida não para um segundo
sequer, preparo o café; corro a leitura dos jornais; recuso-me a vestir
bermuda; e, cobrindo narinas e lábios, encaro a amarelinha.
Angustiante não é perceber que
antevejo as pinceladas pesadas, grotescas, que expressam a convulsão diante do
desconhecido. Levo o grito pra fora do apartamento.
Pondo esquecido o cartão na carteira,
zombo de mim. E temendo que me vazem a tripa, saco o dinheiro.
Mas há policiamento.
Calçadas vazias. Balconistas em
quarentena. Sem nem saber das bocas que, vidradas em lives, não beijam, há cães vagando à solta.
Oito e pouco. Há seis ou quatro
pessoas no supermercado. O som ambiente repassa as cautelas que adoto. Há
tristeza, e algum torpor. Longe do corre-corre, olhares contrariam os troncos
eretos. Acalento um Chopin que me estude a percepção.
Menos abatido, mais pensaroso. Refaço
minhas pegadas.
Dou de cara com o que não esperava.
Como aglomerações estão proibidas, eis que se me apresenta um grupo de
invisíveis que vivem entre os desvãos do balneário.
Passo. Todos despertamos bárbaros? Posso
meu passo.
Imagino proceder bem com as coisas
todas, ao pô-las no lugar. Já banhado de novo, almoço e janto. O travesseiro
aceita a entrega.
Como previsto, cuido de mais outro dia.
Ouço vaps. Vejo idosos a conversarem as suas carências. Topo com a efeméride no
Otto Lara Resende que leio no Portal da Crônica Brasileira.
Contudo, antes que pinte aquele olhar
ensandecido a devorar este filho desta época assaz soturna, encerro com a voz
que recorda que há muito tempo que se diz
que “os poetas e os pintores formam uma nação livre”.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 21 de abril de 2020.
Muito bom ! Quase livres né, quase :o
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