O
canto do galo
Sem delongas algumas, na jugular do
tempo: bom é saber viver, é saber amar.
Canta Leila Pinheiro em Vamos partir pro
mundo, disco com canções de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar.
Mas, viver como? E amar a quem?
Submerso nas minhas jornadas de pouco pão e muita pá, como se
desigualdade e afastamento entre desiguais fosse obra da natureza, faço o quê?
Como frios no café matinal.
Oxe. Sem dar bola pra esgotamento, lavo
o chão, limpo o espelho, deixo tinindo o banheiro. Tchau, tchau manhã.
Com o gás por um fio e sem curtir a
grana curta, almoço.
Hora de ir jogar fora as bugigangas do
passado recente. Rasgo as contas de luz. Leio notas de noites insones. Interpreto,
mareado.
Caramba. Tomo refri. Mais, um sanduba
de frios.
Que águas assombrosas teimei enfrentar
de peito aberto?
Na travessia que me traz até aqui,
sentado à mesa da cozinha, só, e perturbado por emoções que imaginava
engavetadas na memória, eis que o engenheiro em mim arquiteta o poema já
amanhecido, que cato feijão de gole em gole, de bocado em bocado.
Sigo, sem fugir das efêmeras pontes
necessárias. Faço-as com o que tenho ao dispor, à disposição da dor. Transe que
não cura.
Passo a tarde a lamentar a
circunstância? Nada disso.
Opto ouvir música... Sá Marina, roda pela vida afora e põe pra fora essa
alegria... Em seguida? Sá Marina, gira
que essa gente aflita se agita e segue no seu passo... Ê desconforto. A
mente parece adiar o crepúsculo da tarde. Insisto, repito.
Fico nisso? Tomo banho.
Ao que parece, de modo abrupto portanto
causador de ansiedade generalizada, o mundo propõe uma DR, o que não quero
encarar.
Corro comer, janto correndo. Arroz só
água e sal; pão com frios; e um teco d’água. Feito.
Pulga morre de fome quando esnoba o
sangue?
Nem bem começo a leitura d’As alegres comadres de Windsor e já
estou mergulhado na correnteza. Poxa.
Então, queijo e manteiga pesam iguais
em vesícula saturada.
E vem a dor de cabeça. E aumenta o
incômodo nas costas. E vem o calafrio. E tira o moletom. E põe o moletom. E fico
à mercê do asco que a realidade faz pulsar, ê cólica biliar.
Alívio? O indicador na goela.
Ligo a TV. Como não vi o primeiro
episódio de Lucifer, vejo. Que
vontade maluca. O inferno ao meu redor consome a calma com a Los Angeles dos
canastrões, suporto.
Da estante, uma foto dos tempos da
Católica, em Santos, me sorri um amanhã menos tóxico. Foto tirada no Toninho. Não
pego o celular pra ver se ainda existe, já me guio por outro mapa. Para que voltar
se já estou lá? E aqueles bolinhos de bacalhau? Não, não. Sempre fui fã da
carne quente dos pastéis. Que sinto, e salivo.
E a gordura do queijo no vento da
fritura? Vem...
Ébrio de sobriedade, arremato o tino
derretido que não assento.
No abismo da criação, este texto
inventa a cosmogonia de sonho feito pilhagem. Algures, espalho o sol que amo?
Vésper, à flor do canto do galo, acordo.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 23 de abril de 2020.
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