quinta-feira, 23 de abril de 2020

O canto do galo


O canto do galo

Sem delongas algumas, na jugular do tempo: bom é saber viver, é saber amar. Canta Leila Pinheiro em Vamos partir pro mundo, disco com canções de Antonio Adolfo e Tibério Gaspar.
Mas, viver como? E amar a quem?
Submerso nas minhas jornadas de pouco pão e muita pá, como se desigualdade e afastamento entre desiguais fosse obra da natureza, faço o quê? Como frios no café matinal.
Oxe. Sem dar bola pra esgotamento, lavo o chão, limpo o espelho, deixo tinindo o banheiro. Tchau, tchau manhã.
Com o gás por um fio e sem curtir a grana curta, almoço.
Hora de ir jogar fora as bugigangas do passado recente. Rasgo as contas de luz. Leio notas de noites insones. Interpreto, mareado.
Caramba. Tomo refri. Mais, um sanduba de frios.
Que águas assombrosas teimei enfrentar de peito aberto?
Na travessia que me traz até aqui, sentado à mesa da cozinha, só, e perturbado por emoções que imaginava engavetadas na memória, eis que o engenheiro em mim arquiteta o poema já amanhecido, que cato feijão de gole em gole, de bocado em bocado.
Sigo, sem fugir das efêmeras pontes necessárias. Faço-as com o que tenho ao dispor, à disposição da dor. Transe que não cura.
Passo a tarde a lamentar a circunstância? Nada disso.
Opto ouvir música... Sá Marina, roda pela vida afora e põe pra fora essa alegria... Em seguida? Sá Marina, gira que essa gente aflita se agita e segue no seu passo... Ê desconforto. A mente parece adiar o crepúsculo da tarde. Insisto, repito.
Fico nisso? Tomo banho.
Ao que parece, de modo abrupto portanto causador de ansiedade generalizada, o mundo propõe uma DR, o que não quero encarar.
Corro comer, janto correndo. Arroz só água e sal; pão com frios; e um teco d’água. Feito.
Pulga morre de fome quando esnoba o sangue?
Nem bem começo a leitura d’As alegres comadres de Windsor e já estou mergulhado na correnteza. Poxa.
Então, queijo e manteiga pesam iguais em vesícula saturada.
E vem a dor de cabeça. E aumenta o incômodo nas costas. E vem o calafrio. E tira o moletom. E põe o moletom. E fico à mercê do asco que a realidade faz pulsar, ê cólica biliar.
Alívio? O indicador na goela.
Ligo a TV. Como não vi o primeiro episódio de Lucifer, vejo. Que vontade maluca. O inferno ao meu redor consome a calma com a Los Angeles dos canastrões, suporto.
Da estante, uma foto dos tempos da Católica, em Santos, me sorri um amanhã menos tóxico. Foto tirada no Toninho. Não pego o celular pra ver se ainda existe, já me guio por outro mapa. Para que voltar se já estou lá? E aqueles bolinhos de bacalhau? Não, não. Sempre fui fã da carne quente dos pastéis. Que sinto, e salivo.
E a gordura do queijo no vento da fritura? Vem...
Ébrio de sobriedade, arremato o tino derretido que não assento.
No abismo da criação, este texto inventa a cosmogonia de sonho feito pilhagem. Algures, espalho o sol que amo?
Vésper, à flor do canto do galo, acordo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 23 de abril de 2020.

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