quinta-feira, 16 de abril de 2020

A lógica da coisa


A lógica da coisa

Quem sabe aquele vinho tinto à noite, um uísquinho cowboy antes do almoço e o néctar do Ceará em forma de caninha.
Com a máscara no lugar, e o pensamento no mundo da rua, vê-se a que ponto pode chegar quem bate na mesma tecla, o desejo que o agasta. Em plena quarentena, assim feito o sul pro norte do ímã, não porque não queira mudar de assunto, mas, súbito, com a convulsão em andamento, passou a ter essa ideia fixa.
E sente muito.
Está isolado do calçadão, afastado do supermercado, distante dos bancos, apartado do dia a dia.
E deseja seguir.
Sentado no piso frio da sala, está torto. Sobre a mesa de trabalho, as lentes sujas dos óculos, largados entre a tela do computador e a do televisor, não filtram as imagens, aumentam a decepção acrescida de saliva. As mãos no rosto ilustram aquele estado, de pessoa que só tem o rumo a que se sujeita ruminar.
Num soluço envergonhado, quase um pranto sem lágrimas, tenso, na certeza doída de que entojou, de que tem sobrevivido estropiado.
O pior, naquelas circunstâncias de confinamento, é ter a sensação de que a memória anda engasgada, meio danificada.
Quando foi que o mal-estar tinha começado?
Não, tal descompasso vinha de antes da restrição do livre trânsito. Agora, parece que questionar é bobagem, uma vez que permanecerá fechado no apartamento. Vendo TV ou não, terá de suportar-se entre o desassossego de cão sem poste e a rabugice de gato faminto.
A coisa não ia por água abaixo nem o afogava, estando no raso. E punha gás de que não iria acomodar-se daquele jeito, contrariado por autoridade a que não se submeteria sem confrontação.
Como deixara de malbaratar a trama da vida, não iria repor panos puídos na carne envilecida por anos na esbórnia. De modo algum.
Numa hora dessas, ter de aturar-se?
Como a sensatez não esconde o doido que passa a pensar com a pressa dos incréus, é óbvio que estava pagando por águas passadas. Com o pé fora do mar, não seria agora que daria ouvidos a sereias na preamar. Terá de reverter tanta negatividade.
Tem medo. Sabe o quanto pena.
Bem na semana de todo auê na mídia, quebrou-se um molar. Com a mente ocupada em comprar mantimentos, foi-se a obturação de um pré-molar. Pra acentuar o fundo do bagaço, abre-se a janelinha.
E toca pensar que aquilo não haveria de ser nada, que tinha gente desdentada, que por aí tem quem esteja passando fome.
Não é o caso.
Ele pode abocanhar o pão da manhã, tomar suco de manga bem gelado e comer biscoito lá pelas quatro. Mas o tempo virou.
Vai deixar para lá quando poderia ter tomado pulso de cara?
Falta coragem pra ir ao dentista. Pode dar o azar de pegar o vírus letal na cadeira odontológica.
Melhor pensar bem; e focar na solução menos traumática.
Sem ficar criando fantasmas, tira o pijama, cobre boca e nariz com um lenço. Com a cabeça dos iluminados, voa.
Ufa! Paga logo uma dúzia de Velho Barreiro.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 16 de abril de 2020.

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