A
lógica da coisa
Quem sabe aquele vinho tinto à noite, um
uísquinho cowboy antes do almoço e o néctar do Ceará em forma de caninha.
Com a máscara no lugar, e o pensamento
no mundo da rua, vê-se a que ponto pode chegar quem bate na mesma tecla, o desejo
que o agasta. Em plena quarentena, assim feito o sul pro norte do ímã, não porque
não queira mudar de assunto, mas, súbito, com a convulsão em andamento, passou
a ter essa ideia fixa.
E sente muito.
Está isolado do calçadão, afastado do
supermercado, distante dos bancos, apartado do dia a dia.
E deseja seguir.
Sentado no piso frio da sala, está
torto. Sobre a mesa de trabalho, as lentes sujas dos óculos, largados entre a
tela do computador e a do televisor, não filtram as imagens, aumentam a decepção
acrescida de saliva. As mãos no rosto ilustram aquele estado, de pessoa que só
tem o rumo a que se sujeita ruminar.
Num soluço envergonhado, quase um pranto
sem lágrimas, tenso, na certeza doída de que entojou, de que tem sobrevivido estropiado.
O pior, naquelas circunstâncias de
confinamento, é ter a sensação de que a memória anda engasgada, meio danificada.
Quando foi que o mal-estar tinha
começado?
Não, tal descompasso vinha de antes da
restrição do livre trânsito. Agora, parece que questionar é bobagem, uma vez
que permanecerá fechado no apartamento. Vendo TV ou não, terá de suportar-se
entre o desassossego de cão sem poste e a rabugice de gato faminto.
A coisa não ia por água abaixo nem o
afogava, estando no raso. E punha gás de que não iria acomodar-se daquele
jeito, contrariado por autoridade a que não se submeteria sem confrontação.
Como deixara de malbaratar a trama da vida,
não iria repor panos puídos na carne envilecida por anos na esbórnia. De modo
algum.
Numa hora dessas, ter de aturar-se?
Como a sensatez não esconde o doido
que passa a pensar com a pressa dos incréus, é óbvio que estava pagando por
águas passadas. Com o pé fora do mar, não seria agora que daria ouvidos a
sereias na preamar. Terá de reverter tanta negatividade.
Tem medo. Sabe o quanto pena.
Bem na semana de todo auê na mídia,
quebrou-se um molar. Com a mente ocupada em comprar mantimentos, foi-se a
obturação de um pré-molar. Pra acentuar o fundo do bagaço, abre-se a janelinha.
E toca pensar que aquilo não haveria
de ser nada, que tinha gente desdentada, que por aí tem quem esteja passando
fome.
Não é o caso.
Ele pode abocanhar o pão da manhã,
tomar suco de manga bem gelado e comer biscoito lá pelas quatro. Mas o tempo virou.
Vai deixar para lá quando poderia ter
tomado pulso de cara?
Falta coragem pra ir ao dentista. Pode
dar o azar de pegar o vírus letal na cadeira odontológica.
Melhor pensar bem; e focar na solução
menos traumática.
Sem ficar criando fantasmas, tira o
pijama, cobre boca e nariz com um lenço. Com a cabeça dos iluminados, voa.
Ufa! Paga logo uma dúzia de Velho
Barreiro.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 16 de abril de 2020.
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