A
dar conta
Se presto conta do que nem faço conta?
Li em algum lugar por aí que o
cineasta Jean-Luc Godard teria dito que a
cultura é regra e a arte, exceção. Acolho este pensamento.
Assistindo ao filme Rolling Thunder Revue, de 2019,
dirigido por Martin Scorsese, confirma-se a ideia.
Nem um pouco excepcional, viro a
viajar no sofá.
A obra mescla material de 1975/76, em
que uma trupe de artistas arregimentada por Bob Dylan incursionou pelos EUA de
raiz e não só pelo país das metrópoles, e recente.
Logo no princípio, o cantautor diz: “A
vida não serve para você se encontrar, nem para encontrar nada. A vida serve
para você se criar. E criar coisas”.
O que tenho feito que possa ainda mudar?
Para mudar, preciso primeiro avaliar o
que ando fazendo. Isso me agrada; isso me aborrece; pouco me importo com isso.
Que vida feliz tomo por modelo? A saúde antes de mais nada? O bolso sofre
abalo? A cama com ciúme do sofá? A fruteira está oxidando?
A maresia, a maré, o mar... Merda.
Se o oceano ensina, ignoro. Se emergisse,
afogar-me-ia.
A mesóclise como metáfora do
medo-em-vida, dum eu-zumbi.
Seu Rodrigues, sua pessoa tá mesmo bem
à vontade, hein?
Estou em casa, mantenho os pés no
chão, respiro o ar que entra pelas janelas abertas, cozinho ovo pro almoço; à
mesa sem TV, como folhas da alface hidropônica de sempre, abocanho à medida da
boca, mastigo com a velocidade de quem aprecia e não de quem se livra da comida
que tem que engolir de qualquer modo; me ajeito comigo.
Não me sujeito. Se bem que... Retirei
da crônica anterior, Daora, o
seguinte desenho de uma carantonha darwinista social:
Como
não rezo nem me apiedo, não sinto culpa por desprezá-lo.
Nos momentos de pânico
desesperadamente contagioso, quando a razão alucina, pus em prática a autocensura.
Nem antes nem depois ― o entre.
No vão, nisso grassa tal pessoa cheia
de infâmias.
Então, o que mudou? Então, avaliei o
que andava querendo com a crônica, sem mensagem em garrafa atirada ao mar. Sem
mar, só algo dado como normal.
Escrevo. O uso das palavras estabelece
a comunicação, mas isso de querer pôr o
que tenho pra dizer é empulhação. Longe de mim dar uma de pastor diante do
rebanho em crise epidêmica.
E escrevo. Junto palavras, organizo-as
de algum jeito.
As leituras? Desorientam.
Aliás, leria O livro das ignorãças. Não tenho. Vou de Gramática expositiva do chão porque, a esmo, sigo fisgado:
O
homem de lata anda fardado de camaleão.
Bem que a pandemia tenta, todavia não
uso fardamento. Opto por me distrair com a materialidade das palavras, de
coisas sonoras, que as andorinhas voam quando pousam.
Este escriba erra por si, não em si
nem pra si. Sim, não me viciam as virtudes. O meu ofício está em transformar o
erro em algo que não sei o que seja até que venha a ficar pronto.
Quando tá pronto, tá terminado? Não,
nada.
Girassóis, girassóis, girassóis... Giraluna.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 05 de abril de 2020.
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