Mais
uma cascata
Cadê o lápis que uso pra escrever meus
textos? Eita, o tempo não para, vou tecer direto no micro. Porém, como não
existe rascunho pro abismo da queda, vou pé ante pé pelo improviso:
21 horas, por aí. Começam os gritos.
Até que os entenda, soam como ruídos. Efeito da clausura: usar a loucura como
cura? A vizinha da frente põe-se a traduzir a situação, berra a favor da
solidariedade, saúda. Janelas, sacadas e varandas são a boca imprevista, de
cujos lábios partem perguntas a perguntas. Faz-se o diálogo, algo raro que não vinha
havendo; assim publicamente? Necas.
Atrás de cortinas corridas, sob
lâmpadas apagadas, ensimesmado pelas pálpebras cerradas, o homem atormentado
pelas azáfamas do dia a dia agradece a vivacidade que torna leve o ar. A vida tem
fome de vida, isso a rua tem, isso o renova pro amanhã.
E os números da curva, e o vetor do
contágio, e a propagação dos cuidados? Angústias, e mortes, e desespero.
Sem formação nas áreas médica,
biológica ou estatística, resta ao personagem voltar-se pra leitura do entorno.
Sem gritar, espernear ou dar murro no espelho, pois cacos e sangue não matam o
invisível.
Com este coronavírus provocando a
morte de tanta gente como todo vírus faz, como é que a história não se repete? “A
história não se repete, mas os mecanismos de como a sociedade responde aos
problemas são sempre os mesmos. Por isso temos as respostas na história. Como
não mudamos, as reações coletivas são iguais. Somos animais, não devemos
esquecê-lo. Diante de medo, incerteza e falta de orientação, reagimos sempre
igual. No entanto, se sabemos que reagimos assim nos controlamos. Por isso
temos a civilização”.
Tudo bem, Géraldine Schwarz, não estou
com cabeça pra pensar a respeito. Estou mais para concordar com o Gonçalo M.
Tavares: “É preciso infiltrar nas fissuras a alegria. Como se a alegria fosse
um material médico”; “A alegria não basta, mas é necessária”.
Que coisa. Sim, e está ali na frente,
impossível de ser alcançado. Então, prevendo que nunca hei de atingir, não tenho
a petulância de pensar ter dado o melhor de mim enquanto faço o que estou
fazendo nem depois de feito.
Ainda mais com a montanha perto. Quero
subir, ir ao topo.
Aliás, antes pudesse só me concentrar
na escalada.
Vem uma névoa, adeus pico da montanha.
Sem visão, imagino.
Vou tentar algo. Sacudo as mãos, agito
os braços, quero agachar. Opa! Melhor não arriscar cair... Na água? Parece que
estou pisando em pedra solta, flutuante. Parece que roda, e não saio do lugar.
Para evitar confusão, boto uma bruxa
na história. Sua casa fica no sopé do monte, já que é a guardiã de um tesouro, acho.
Até estou sentindo que há um rio
subterrâneo. Se não tenho nome pro sentimento? Isso me escapa. Se a bruxa não
disser nada, irei às cegas.
Palavras, pedras rodogirantes
flutuando em rio que não se vê.
Oxe. Um estrondo?
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 07 de abril de 2020.
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