quarta-feira, 8 de abril de 2020

Mais uma cascata


Mais uma cascata

Cadê o lápis que uso pra escrever meus textos? Eita, o tempo não para, vou tecer direto no micro. Porém, como não existe rascunho pro abismo da queda, vou pé ante pé pelo improviso:
21 horas, por aí. Começam os gritos. Até que os entenda, soam como ruídos. Efeito da clausura: usar a loucura como cura? A vizinha da frente põe-se a traduzir a situação, berra a favor da solidariedade, saúda. Janelas, sacadas e varandas são a boca imprevista, de cujos lábios partem perguntas a perguntas. Faz-se o diálogo, algo raro que não vinha havendo; assim publicamente? Necas.
Atrás de cortinas corridas, sob lâmpadas apagadas, ensimesmado pelas pálpebras cerradas, o homem atormentado pelas azáfamas do dia a dia agradece a vivacidade que torna leve o ar. A vida tem fome de vida, isso a rua tem, isso o renova pro amanhã.
E os números da curva, e o vetor do contágio, e a propagação dos cuidados? Angústias, e mortes, e desespero.
Sem formação nas áreas médica, biológica ou estatística, resta ao personagem voltar-se pra leitura do entorno. Sem gritar, espernear ou dar murro no espelho, pois cacos e sangue não matam o invisível.
Com este coronavírus provocando a morte de tanta gente como todo vírus faz, como é que a história não se repete? “A história não se repete, mas os mecanismos de como a sociedade responde aos problemas são sempre os mesmos. Por isso temos as respostas na história. Como não mudamos, as reações coletivas são iguais. Somos animais, não devemos esquecê-lo. Diante de medo, incerteza e falta de orientação, reagimos sempre igual. No entanto, se sabemos que reagimos assim nos controlamos. Por isso temos a civilização”.
Tudo bem, Géraldine Schwarz, não estou com cabeça pra pensar a respeito. Estou mais para concordar com o Gonçalo M. Tavares: “É preciso infiltrar nas fissuras a alegria. Como se a alegria fosse um material médico”; “A alegria não basta, mas é necessária”.
Que coisa. Sim, e está ali na frente, impossível de ser alcançado. Então, prevendo que nunca hei de atingir, não tenho a petulância de pensar ter dado o melhor de mim enquanto faço o que estou fazendo nem depois de feito.
Ainda mais com a montanha perto. Quero subir, ir ao topo.
Aliás, antes pudesse só me concentrar na escalada.
Vem uma névoa, adeus pico da montanha. Sem visão, imagino.
Vou tentar algo. Sacudo as mãos, agito os braços, quero agachar. Opa! Melhor não arriscar cair... Na água? Parece que estou pisando em pedra solta, flutuante. Parece que roda, e não saio do lugar.
Para evitar confusão, boto uma bruxa na história. Sua casa fica no sopé do monte, já que é a guardiã de um tesouro, acho.
Até estou sentindo que há um rio subterrâneo. Se não tenho nome pro sentimento? Isso me escapa. Se a bruxa não disser nada, irei às cegas.
Palavras, pedras rodogirantes flutuando em rio que não se vê.
Oxe. Um estrondo?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de abril de 2020.

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