Uma
história de amor
Muito se engana quem busque nestas
linhas as marcas de alguma apologia ao equilíbrio que filtra a atualidade das
circunstâncias com a placidez dos sensatos. Muito pouco há disso, uma vez que a
seguir vem um caso de amor entre lápis e papel.
Então, conseguindo-se tirar um
tempinho para prestar atenção ao que se conta, eis o lápis a pretender agir com
desenvoltura no papel de sempre. Porém, em razão dos eventos, por temer estar
passando em branco, feito algaravia sublimada no registro, o grafite pode muito
bem disparar, havendo o estímulo da escuta, o que amedronta.
Já se disse que falar libera o
sofrimento. Mas falar quando se quer não é o mesmo que falar quando seja inconveniente.
Sob pressão, a contragosto, sem controle, para que se revele o que nem se
percebia torturante. Sem meias palavras, desmesurada, isso torna interessante a
pessoa, que vai soltando pistas do que não diz às claras.
Ops! Ter direito à transparência não
garante a claridade de si nem o autoconhecimento fundamenta a identidade. A
intimidade tem como dissimular, diz o medo. Tentando evitar contradições,
acreditando-se o discurso possível de quem comanda, diz a vaidade. O
descuidado, sem perceber, pode estar adulando o demoniozinho que adora soprar à
língua as palavras a quem as avaliza indispensáveis.
A ilusão da fala sem mistérios? Falar
tomando cuidado com o que é falado engendra o que não se diz? O autoengano de
conhecer-se a ponto de imaginar-se ocupando o lugar que manda?
Como alguém já alertou, desejos não se
submetem.
Incontroláveis, os desejos brincam com
as aparências, não jogam com o acaso, por isso ganham a aposta que não fazem. Permanecem
fora dos domínios da linguagem articulada. Preferem tramar-se de tal maneira
que a comunicação borra no retrato o ruído dos traços.
Eis o enevoado, o inacessível à lógica
que move os moinhos.
Nesse campo obscuro o pensamento fica protegido.
Desvia o foco pras satisfações e pros prêmios que acomodam. Quando há o prazer
do reconhecimento, há o contentamento e o relaxamento que alivia. E está armado
o círculo.
Fazer o bem para merecer aplausos? Dá
para aferir como um bem o que se diz? O aplauso serve para medir a felicidade
de quem fala e de quem ouve? Quando o aplauso move quem vive dizendo o quanto
tem feito de bem, a audiência está no palco.
Se a fala apaixonada foge ao padrão, como
medi-la?
Para não vir à tona, cala-se sobre o
que não diz. De entrelinha em entrelinha, quer tornar intransitável o que não quer
dizer. Pra vir à luz, demanda-se encarar o que a escuridão esconde, encobre, abriga.
E até parece que excessos fortalecem.
Dizem que duvidar faz bem pra cabeça
que quer tudo decorado de acordo com o bom senso, talvez isso explique por que
anda sumida a amante caprichosa que, beirando o insuportável, acha um escândalo
ver desfecho onde não tem.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 19 de abril de 2020.
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