domingo, 12 de abril de 2020

Aprender a nadar


Aprender a nadar

Muita gente está lendo A peste do Albert Camus, todavia, por me sentir um lobo enlouquecendo pelo uivo da matilha, busco Robinson Crusoé pelas lombadas, em vão.
Não por isso. Invento outra versão.
O náufrago vai dar numa ilha, entra numas de matar o tempo. Faz isso, faz aquilo, repete isso, e repete aquilo. Até que se dá conta que precisa disciplinar-se. Ter a liberdade de instituir a rotina que sempre pediu aos seus. O destino deu-lhe o presente de praticar a empatia, de poder olhar o mundo com os olhos de outra pessoa. Que beleza! Altruísta como nunca antes, o Robinson da minha história deixa-se acordar pelo sol da aurora; vai cedo correr pela beira-mar; senta na praia para beber água de coco, regalo caído na areia; com um rústico arpão artesanal, fisga um peixe gostoso que chama de... peixe; sim, a sua imaginação é parca; a sua voz pouco se ouve, só quando ralha com umas aves que arrisca chamar gaivotas; uns bichos desordeiros que mergulham na água do mar para papar os peixes, o que o atrai para área de mergulho das barulhentas; como não suporta algazarra, tampa os ouvidos com caracóis pontudos. Putz! Os dias não passam. A melhor maneira de ter certeza de que estão passando é marcar sua passagem. Então, assim que é acordado pelos raios da manhã, lá vai ele riscar num tronco um pauzinho por dia. E isso ele faz todo dia. Por vinte e oito anos, foi o que fez. E parou por quê? Não teve jeito, como a marcação no tronco de cada árvore foi sendo feita com um canivete enferrujado, aquilo adoeceu cada uma das árvores da mata antes do rio. A floresta já era? Sem problemas, o Robinson caniveteiro podia ver a maravilha daquela vista. Uma montanha! Lindo monte que todo aquele mato tapava. Ô lugarzinho cheio de vida. Tanto que entrou em erupção, forçando-o a nadar feito doido pro barco do Sexta-Feira.
Olho pela janela.
Ai. Esse negócio de ficar trancafiado entre quatro paredes está me deixando injuriado. Tem crescido em mim essa tensão, uma vontade de cometer alguma confissão. De cunho bárbaro, vulgar e obsceno, o que pode causar assombro, em quem acredita em assombração. Há um broto meio crescido, acho uma flor exótica. Que a minha discrição padece tensa e perplexa, porquanto desaprove o coração desvelado assim em público. Tornada ferida aberta, desassossego que se nutre de ansiedades, a minha mente precisa de lufadas de ar renovador.
O sol venta o seu mar.
Leio o que diz Christiane Torloni, no Estadão do feriado, a respeito do seu trabalho em Fina Estampa:
― “Você tem que lutar com você mesmo para não tentar criticar o personagem, sua performance... Quer dizer, o personagem, não. Isso é uma coisa que eu percebo já há muitos anos: não faço julgamento de valor de personagem, nunca. O único que pode fazer isso é o público”.
Mas, cáspite!
Maremoto nenhum tem medo de afogar-se em braços míopes.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de abril de 2020.

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