Aprender
a nadar
Muita gente está lendo A peste do Albert Camus, todavia, por
me sentir um lobo enlouquecendo pelo uivo da matilha, busco Robinson Crusoé pelas lombadas, em vão.
Não por isso. Invento outra versão.
O náufrago vai dar numa ilha, entra numas
de matar o tempo. Faz isso, faz aquilo, repete isso, e repete aquilo. Até que
se dá conta que precisa disciplinar-se. Ter a liberdade de instituir a rotina
que sempre pediu aos seus. O destino deu-lhe o presente de praticar a empatia,
de poder olhar o mundo com os olhos de outra pessoa. Que beleza! Altruísta como
nunca antes, o Robinson da minha história deixa-se acordar pelo sol da aurora;
vai cedo correr pela beira-mar; senta na praia para beber água de coco, regalo
caído na areia; com um rústico arpão artesanal, fisga um peixe gostoso que
chama de... peixe; sim, a sua imaginação é parca; a sua voz pouco se ouve, só
quando ralha com umas aves que arrisca chamar gaivotas; uns bichos desordeiros
que mergulham na água do mar para papar os peixes, o que o atrai para área de
mergulho das barulhentas; como não suporta algazarra, tampa os ouvidos com
caracóis pontudos. Putz! Os dias não passam. A melhor maneira de ter certeza de
que estão passando é marcar sua passagem. Então, assim que é acordado pelos
raios da manhã, lá vai ele riscar num tronco um pauzinho por dia. E isso ele
faz todo dia. Por vinte e oito anos, foi o que fez. E parou por quê? Não teve
jeito, como a marcação no tronco de cada árvore foi sendo feita com um canivete
enferrujado, aquilo adoeceu cada uma das árvores da mata antes do rio. A
floresta já era? Sem problemas, o Robinson caniveteiro podia ver a maravilha
daquela vista. Uma montanha! Lindo monte que todo aquele mato tapava. Ô
lugarzinho cheio de vida. Tanto que entrou em erupção, forçando-o a nadar feito
doido pro barco do Sexta-Feira.
Olho pela janela.
Ai. Esse negócio de ficar trancafiado
entre quatro paredes está me deixando injuriado. Tem crescido em mim essa
tensão, uma vontade de cometer alguma confissão. De cunho bárbaro, vulgar e
obsceno, o que pode causar assombro, em quem acredita em assombração. Há um
broto meio crescido, acho uma flor exótica. Que a minha discrição padece tensa
e perplexa, porquanto desaprove o coração desvelado assim em público. Tornada
ferida aberta, desassossego que se nutre de ansiedades, a minha mente precisa
de lufadas de ar renovador.
O sol venta o seu mar.
Leio o que diz Christiane Torloni, no
Estadão do feriado, a respeito do seu trabalho em Fina Estampa:
― “Você tem que lutar com você mesmo
para não tentar criticar o personagem, sua performance... Quer dizer, o
personagem, não. Isso é uma coisa que eu percebo já há muitos anos: não faço
julgamento de valor de personagem, nunca. O único que pode fazer isso é o
público”.
Mas, cáspite!
Maremoto nenhum tem medo de afogar-se
em braços míopes.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 12 de abril de 2020.
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