Coisa
mais bonita
A semana promete. O calorão faz arte. Ô
coisa boa, ficar largadão no barco, rumo a Sete Quedas. Com o mundo preocupado
em levar pinguins pro Alasca, acalento o meu rancor em levedura de cevada. Bato
minhas latas. Em resumo, dispensado da culpa, bebo logo duas latinhas. Como não
acendo vela pra quem joga fora um mísero dedo, emendo a terceira gelada. Que
forrando o estômago, nem almoço.
Ô susto. Pra reposição do estoque, dei
por perdida a carteira.
Quer melhor colírio pra cegueira transoceânica
do que dinheiro de plástico? É bom ter essa necessidade de dar-se um refresco,
por isso ponho lacrado o apartamento. Assim o ar fica bem condicionado entre
quatro paredes. O que me ajuda em minha labuta, que sigo apurando as
aporrinhações cotidianas que atravancam as minhas leituras.
Evidente, pra alívio da solidão que me
carrega, deparo-me comigo debruçado sobre o néctar de uns rabiscos. Paparicam
minhas papilas as variações de um poema não acabado. Salivo tanto que poderia me
perder da abstinência emocional. Porque os salvados do incêndio são fumaça que
a brisa aviva. Urina fervendo arde no queimado. Atento ao erro: correr da onda
errada ou correr.
Ora, que poesia pode ter um poema
inacabado?
Dentre meus hábitos, aliás, está
caminhar, ida e volta, o calçadão da praia. Caminho num pé, da boutique do
peixe do Forte ao campo da Aviação. Prática a que fui instado pela orientação
do doutor desta cachola. Andar, como terapia aos surtos de ansiedade, pânica de
tão generalizada.
Prevenção: antes de tudo. Óbvio também:
a dedicação.
Entretanto, os meus olhos de poeta
estão ressecados, levam-me a pedir uma aquietação ao espírito das águas, que não
me atende ou não me entende. Macaco Simão, me ajude aí.
Em outras palavras, o cotidiano come,
digere, defeca. Natural que isso seja assim. Cabe a mim, contudo, desviar das
pérolas das vias e, dando algum sinal de respeito, manter a razão em
funcionamento.
Assim, caminhando, vi algo. Parei e
voltei, buscando confirmação.
Caminho de tênis, mas volto pela água;
de costas para a rua onde tenho direito ao IPTU, sento; bato a areia.
Penso melhor sentado.
Sem medo, começo pela comoção que me
cativa?
Ter medo não me faz alegar falta de
coragem. O medo tira de mim o papel de possível ameaça. Assim, ter medo protege
ao abrir espaço ao redor. Medo é redoma. Sem ar, tem vida que vinga? A minha rosa
definha e morre. Pago pelo preço de escolher, pois, mesmo protegido pela
coragem de ter medo de me converter num perigo a quem nem vê pra que existo,
admito que o temor me mantém vivo. Pela coragem de ter medo, anima-me ficar em
silêncio. E quero.
Calado, busco mesmo pensar.
Oxe. Já estou ficando aéreo.
Melhor ler de novo a tirinha do André
Dahmer publicada no jornal O Globo desta segunda.
Se isso estranha?
Os caminhos dizem que o mundo tem
lugar pro insólito.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 28 de janeiro de 2020.