Última hora
Quer desassossego maior do que uma
espinha?
Costumo ir ao supermercado mais
próximo do prédio onde moro pelo caminho mais curto. Todavia, só vou às compras
quando alguns itens de primeiríssima necessidade dominam a lista de falta
iminente. Obrigado ao consumo do que preciso com urgência, percorro o trajeto a
bolar como fugir da hecatombe do ambiente.
Pego e pago. Mas, terrifica-me o
banal.
Com firmeza, um segurança toca o
maltrapilho fedorento para fora do estabelecimento. Que ele tenha lá 51 razões
de reivindicar direitos às moedas que jura possuir; que vá empenhá-las em outra
freguesia, aqueles bíceps instruem-no.
Curioso, têm brotado umas garrafinhas
nos interstícios da cidade. Terá quem beba pinga distribuída sem patrocinador
evidente? Haverá quem queira tomar um refrigerante desses, embora esteja em
vigor a dica velha de guerra de não aceitar balinha nem de conhecido?
Caramba, alguém deve ter virado a
placa do desvio.
Resolvo conhecer o shopping que abriu
onde já teve um shopping. Muito espaço à espera dos empreendedores. Muita gente
despojada de sacolas. De regata, bermuda, chinelos e assobiando mentalmente La vie en rose, nem me reconheço.
Quase terminando a minha voltinha, dá-se
um imprevisto.
Perturbo-me quando o brusco se faz
notável, por isso acabo preso ao interesse de ver qual desfecho terá o
imbróglio dessa mulher, cuja barra do vestido engasgou a escada rolante.
Juntam-se pessoas no primeiro andar, juntam-se
outras no térreo. Que providência tomará o funcionário chamado? Já o chamaram?
Isso, aquilo, e nada de tirar o pano
emperrando as engrenagens.
Com uma tesoura, executa-se o
sacrifício. Dá-se a libertação.
Todos aplaudimos. Como não é mais a véspera
do Natal, há quem viva no alívio das promessas que teve de pagar. Com a
comilança da ceia natalina bem digerida, há quem espere de camarote. Muitos são
os aplausos, muitos deles mesmo de sincera empatia. De tal maneira aplaudimos,
há clima pra tanto.
Tesoura para quê? Os dentes da escada
rolante já mastigaram o anonimato dessa daí, solta a mulher vestida idêntica
àqueloutra.
Quem me dera a impetuosidade de
comentar a vida a quente.
Traço as esquinas.
Engraçado, talvez aí estivesse, mas fui
que nem vi a senhora dos cachorros. Sentada com as costas escoradas no portão
da garagem da casa sem morador, ela come do marmitex na presença da mulher das
boas-novas em folheto.
Entro pelo apartamento.
Oxe. Gastei a última hora sem
percebê-la tão suarenta.
Estará a brincadeira em desconfiar que
a neura que me trava em pensamento rola por que, avesso a descargas de
adrenalina, não fico recorrendo ao subterfúgio de viver aos sobressaltos?
O espelho do banheiro me pega sorrindo
à toa. Nada mais ridículo que se achar menos ridículo que o outro. Ora, ora,
ora. E que sorriso torto ele tenho pra mim.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 29 de dezembro de
2019.
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