Cara
de bobo
O poeta recôndito, a postos em mim, vez
ou outra quer tomar sol. Pensamos de acordo, o bolor gosta dos cantinhos desconhecidos
dos ventos da luz. Assim, para não nos asfixiarmos na palidez que enruga a
cútis de tanto pudor, vem a calhar levá-lo pegar um ar.
Nada como sair pra espairecer um pouco.
Quanto a mim, entretanto, não entro em
fria por impulso. Topo um sacolé. Da carteira, tiro a sorte. Seja feita esta
minha vontade.
O calçadão lotado convida a
observações desinteressadas. Passo por turista. Pachorrento, que adoro mormaço,
que o calor cansa, que o depois do almoço, então, pede mesmo um chupe-chupe.
Nem vendedor, nem banco para sentar a lerdeza.
Como lombriga mata, apelo para um
picolé.
Pesam-me os pés, jogo-os ao mar, bem
em frente da lotérica. Pra quem vibra com pescarias, porto de apostas nesta
época é rede farta. Com a serpente fluindo águas de enseada, afino os ouvidos para
me deliciar com os pescados do alarido.
Sabe aquele sonho de muro baixinho,
quintal amplo, criançada na laranjeira. Sabe aquela fera para as veias do
temporal no barro. Sabe aquela ressonância que o plano da minha avó apressa enxotar.
Sabe aquelas taxas de gente graúda da peneira infantil do time.
Pra enfrentar a realidade, perdê-la ao
domá-la por atos e palavras. Que brilhe a máscara, o disciplinado aos fatos. Se
dois mais dois dão quatro, que a raiz quadrada de dezesseis venha a dar no
mesmo.
Em outras palavras, se estiver
mentindo ou gracejando, querer-se errado é induzir ao erro. Para entender a
vida, torná-la um jogo.
Numa partida de xadrez, aliás, os
jogadores parecem quietos, têm calculadoras tinindo, podem a tossinha pro gole
d’água. No conforto do embate escancarado, o diálogo ali é confronto. Afinal, haja
jogada pra atirar os ponteiros pra fora do tempo. Exigem-se, ambos. Então, a
derrota aponta que há um vitorioso; o outro sofre a sua derrota. Sem o
compensatório da persuasão, basta o aperto de mão.
Pra compreender a habilidade da
leitura do mundo, aprendê-la.
Embora haja quem faça de conta, como
bem lhe convém, ponha a pitada de lucidez, acrescente o pitaco dos
falsificadores, mais pilhéria a gosto, vá mexendo devagar mas com firmeza, na
convicção perdida de quem mais vê do que enxerga.
A matéria não causa espécie, produz
energia. O cosmo, segundo adoradores de truísmos, de acordo com temperatura e
pressão, está a ponto de não mais prescindir da precisão dos números. Pode
cegar ou flamejar-se em explosão. Extraordinário, o fogo que houver.
Voilà.
Por leis, códigos e contraditórios, o
repentino da poesia sussurra um número. De posse da dica dada pelo universo, vejo
a apontadora, que não disfarça ter a sua fezinha da Virada. Como azar é pra
quem tem, arriscarei umas merrecas. Na cabeça.
Mas quê!
Melados de Chicabon, um dínamo de vida
vem dar suas lambidas nos meus dedos.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 26 de dezembro de
2019.
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