Esperançando
Caríssima paciência, saia do papel,
vire sorvete ou um leque.
Que o plano fique bem definido, até
porque o calor está fritando os meus miolos e tenho perdido o sono às noites de
vampiros, atrás dos espelhos. Logo, é preciso ter um plano ou a coisa
degringola. Assim, ter a ideia, organizá-la, executá-la. Tudo muito bonito, e prático.
Aliás, nada de abstrações. Sem o fetiche de ficar marcando passo, naquele
folclore de prender-se ao temido até não poder mais.
Se sorvete agrada à língua e abanar-se
exercita músculos? Muito bem. Banco, dinheiro, sorvete. Sem lengalenga nem cara
ou coroa.
É disso que estou falando ― do sonho
ao tédio da satisfação.
Cruzo os braços. Não vou desperdiçar
um minuto desta manhã. O dia de ontem foi de calor, praias lotadas, filas
imensas e notícias que passaram feito boato. Corro aqui, corro ali, no corre-corre
que faz por mim o que não ouso pensar. A cidade está segura de si, uma vez que
as pessoas estão certas do que fazem. A paz tem seu dia e nada vai impedi-la de
aliviar o desconforto de estar em mim como se dor de cabeça num corpo suado. E
o pensamento volta-se para o desejo de imaginar um gesto menos apático. Descruzo
os braços.
Posso ter cinco minutos digitando?
Apagando as palavras.
Melhor sorte quando tentar de novo.
Mais ainda, com algo a dizer.
Tédio. Poderia ter ido mesmo ao banco,
veria pessoas passeando com seus cachorros. Brincaria com alguns, manteria
distância ou iria querer fazer cafuné nas pessoas. Haveria interação,
realidade.
O sorvete. O ar-condicionado. A
vizinha que está fazendo suco, no liquidificador. Ouço as rodas de um carrinho,
no apartamento superior tem criança, até ligo o chorinho à criança que brinca.
Pais e mães sabem cuidar, negam o que
bebês pedem. Conforme sua disposição. A disposição deles, de pais e mães.
Como devolver o sorvete já consumido?
Como negar caixinha ao entregador de água mineral? Como vencer o tédio, já entediado?
Ligo a TV, desligo. Fuço páginas no
celular. A rede está falhando, tem mesmo muita gente na cidade.
Agora me lembro de que tenho uma lista
de compras, mas pensar em ir ao mercado já me aborrece. O tédio como
aborrecimento.
O primeiro dia do ano? A chatice de
sempre.
Nem mais nem menos. Babar no sofá.
Pensar.
Há milhões de pessoas que passam fome.
Há milhares que estão nos aviões, automóveis, ônibus e nos transatlânticos. Há
uma gente que lotaria a praça, todavia o coreto está em obras.
Tomo água. Sinto a peçonha. Espero
reagir quando o pernilongo vier para me picar. Não quero acabar vencido pelo
tédio. Preciso das esperanças. Vou trabalhar a minha mente com caminhos outros
que não os óbvios. É o melhor que posso neste momento de certezas que me levam
a ter uma ideia do que não prometo ao espelho.
Se nada digo sobre o futuro, penso:
estou em movimento.
Pena que me abraça um tédio que gruda
em mim.
Rodrigues
da Silveira
Praia Grande, dia 02 de janeiro de 2020.
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