Sintonia fina
Miando, um gato deu a
dica de que estava cercado de folhas por todos os lados. Empoleirado no galho do
arbusto, e por saber o lugar que ocupa neste ponto entre Boqueirão e Forte, o
tinhoso miava.
Nesta aprazível estância
balneária, da varanda deste apartamento observo cães correndo atrás de passarinhos,
passarinhos fugindo de gaviões, gaviões comendo restos na praia, a praia que
acolhe quem a escolhe.
Ô simpatia.
Sei da orla a
quarteirões daqui, mas simpático à ideia de que uma cidade praiana pode amáveis
reflexões, teço gracejos, e até um gato na árvore vem para quebrar a manhã em
duas.
Sim, em duas. Antes,
quando o escriba foi às compras, não ouviu miado algum ao passar pela
jabuticabeira, que nem era propriamente uma mas, para tornar apetitosa a
leitura, fica transformada no meu pé de jabuticaba.
Em duas, como ia dizendo.
Porque, voltando, eis o consumidor de sacolinhas na mão. Aliás, nem deveria
estar carregando as quitandas neste tipo de material, pela difícil degradação
do plástico.
Feitas as ressalvas, a
da imaginação fantasiosa que manipula este cenário para benefício de quem lê e
a da necessidade tão urgente da conscientização climática de quem lê e de quem
escreve, passemos às artes do bicho de bigodes que mia a plenos pulmões.
Estaria o felino
esgoelando a incompetência pra descer do lugar a que subiu por capricho? Idiossincrasia
apenas dele ou da espécie? A tais perguntas o texto não encontra respostas.
O quê!
As boas e samaritanas
mãos da dona do miau acorreram e deu-se o resgate. Proporcionando a todos uma
cena tocante.
Haja vista ter
testemunhado o tatibitate capaz de tirar ronronados mesmo deste cínico,
admirador confesso dos cães de rua, o narrador compadecido permitiu-se sorrir.
Mas, este bichano é
outro bicho.
Afável ou emburrado, eis
que o escrevinhador partia em missão ao comércio da avenida. Indo atrás do
ansiolítico e buscando tinta para a impressora. Pondo ordem nos fatos? Antes
das compras, desfrute-se uma casquinha, sentado no calçadão, com o marzão de
horizonte.
Teria sido o roteiro da
tarde, mas outro animal entrou outra vez no meio do caminho de quem ia e parou.
E parado, pôde ouvir.
O gato da goiabeira era
zarolho, este é malhado.
Goiabeira?
De fato, querem tumultuar
a narrativa. Porém, o homem que narra viu no celular que a moça e o alpinista não
eram os mesmos.
Boquiabertos; houve quem
desse um passinho atrás, acusando o cronista de alcoolizado em serviço; ele
jura que não bebe há meses e sequer tomou o café das três.
Assinaladas as incongruências,
que a presente crônica relate que: o filhote e a senhorita passam bem; o siamês
cego fica se lambendo diante dos eventos; como beija-flor-das-acácias, falta o gato
que falta; o chão segue firme na calçada; todo e qualquer gato é bicho.
Reparando os gatos... A sutileza
está no miado.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 05 de dezembro de
2019.