Guarinim
Sentado no chão da sala,
sem pijama, descalço, no escuro. O que menos quero agora? Obrigado, o meu muito
obrigado. A quem hei de agradecer? Ao anjinho sapeca que mora na minha falta de
esperança é que não. Assim, faço a mim mesmo em duplicata. O de bem com a
noite, esse não interrompe a audição da sétima sinfonia de Mahler. O outro, o
que volta e meia dá com uma pedra nos dentes, esse me tira do lugar, calça os chinelos,
veste a camiseta, acende a luz, e procura e procura, até que olha pra mim. Sim,
há ratos na sala.
Como sói a este girassol
destrambelhado, bato com o artelho do mindinho do pé, que tanto gosta de beijar
os pés do sofá. Zanzeio no ar pra ir ao tombo. Embora a coreografia bem me
projete estatelado, me seguro a tempo em uns cabeludos do calão, que cabem aqui
pela imaginação da leitora e do leitor, a rirmos da parvoíce.
Queria os ratos
voltassem para o lugar de onde saíram? A voz me escapa. Ao menor gesto de ar rasgando
garganta afora? Há o queijo carnoso na boca; gesta-me em escândalo, no rastro
do muito pouco.
Daí por quê?
Os ratos, ô sina, comem
que comem páginas aqui e ali. Famintos de novas, e encaram com paixão redobrada
as notícias fraudulentas. Olho, somem com o sapo. Reparo bem, somem com o imberbe.
É, os dois têm roupa preta, ambos a saciarem os ratos. Ainda há terceiros, estes
correm com formigas e baratas acolá.
Os roedores, com os
óculos, vejo-os melhor ainda. Os amiguinhos me ignoram. Estão no mundo ao sabor
da fome. Como se estivessem na razão, devoram sem parar. Então, dou com o azul
na boca destes ferozes. Que foto revela que tenho estômago e fura a minha mente?
São araras no topo de uma
árvore.
Que história é esta na
qual desempenho papel de bicho na muda?
E fuço. Com 14 anos de
atraso, tomo ciência. Em defesa da vida, ambientalista toca fogo em si. No Mato
Grosso, dia 12 de novembro.
Caramba, preciso mudar
mais do que mudo.
Os ratos não entendem o
tempo. Nem da chuva. A chuva desaba nos caminhos do mundo. Os ratos não me ouvem.
A chuva em mim segue
pegajosa. Entro nisso de ir tirá-la.
Um rato vem atrás. Não
consigo convencê-lo a sair. Um rato morto comigo no box? Vá, criatura, vá roer
a pá ao lado do botijão. Vá, seu rato, vá iluminar-se com a piauí ou com o louco
do cati. Vá lá, vá.
Corro ao teclado, as
palavras correm. As ideias pululam. As patas entram pela garganta, escoram suas
cavernas. Com mil dedos, sigo e jorro. Se as araras abrigam o filhote com sua desproteção
animal, por que o cinismo fica me dizendo que estou morto? Como os ratos vivem
carcomendo os lóbulos, trato de ir teclando. Sem biscoito? Gelado ou
requentado, posso jantar a sobra da janta de ontem. E as flores de plástico? Enveredadas
no verde, enervadas no vermelho. Contudo?
Todavia, apago o texto.
Tá de brincadeira?
Já a rataria, essa está
por aí. Como pode isso?
E vêm e vão. Ninguém dá
conta disso?
Nem mesmo eu.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de novembro de
2019.
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