terça-feira, 12 de novembro de 2019

Guarinim


Guarinim

Sentado no chão da sala, sem pijama, descalço, no escuro. O que menos quero agora? Obrigado, o meu muito obrigado. A quem hei de agradecer? Ao anjinho sapeca que mora na minha falta de esperança é que não. Assim, faço a mim mesmo em duplicata. O de bem com a noite, esse não interrompe a audição da sétima sinfonia de Mahler. O outro, o que volta e meia dá com uma pedra nos dentes, esse me tira do lugar, calça os chinelos, veste a camiseta, acende a luz, e procura e procura, até que olha pra mim. Sim, há ratos na sala.
Como sói a este girassol destrambelhado, bato com o artelho do mindinho do pé, que tanto gosta de beijar os pés do sofá. Zanzeio no ar pra ir ao tombo. Embora a coreografia bem me projete estatelado, me seguro a tempo em uns cabeludos do calão, que cabem aqui pela imaginação da leitora e do leitor, a rirmos da parvoíce.
Queria os ratos voltassem para o lugar de onde saíram? A voz me escapa. Ao menor gesto de ar rasgando garganta afora? Há o queijo carnoso na boca; gesta-me em escândalo, no rastro do muito pouco.
Daí por quê?
Os ratos, ô sina, comem que comem páginas aqui e ali. Famintos de novas, e encaram com paixão redobrada as notícias fraudulentas. Olho, somem com o sapo. Reparo bem, somem com o imberbe. É, os dois têm roupa preta, ambos a saciarem os ratos. Ainda há terceiros, estes correm com formigas e baratas acolá.
Os roedores, com os óculos, vejo-os melhor ainda. Os amiguinhos me ignoram. Estão no mundo ao sabor da fome. Como se estivessem na razão, devoram sem parar. Então, dou com o azul na boca destes ferozes. Que foto revela que tenho estômago e fura a minha mente?
São araras no topo de uma árvore.
Que história é esta na qual desempenho papel de bicho na muda?
E fuço. Com 14 anos de atraso, tomo ciência. Em defesa da vida, ambientalista toca fogo em si. No Mato Grosso, dia 12 de novembro.
Caramba, preciso mudar mais do que mudo.
Os ratos não entendem o tempo. Nem da chuva. A chuva desaba nos caminhos do mundo. Os ratos não me ouvem.
A chuva em mim segue pegajosa. Entro nisso de ir tirá-la.
Um rato vem atrás. Não consigo convencê-lo a sair. Um rato morto comigo no box? Vá, criatura, vá roer a pá ao lado do botijão. Vá, seu rato, vá iluminar-se com a piauí ou com o louco do cati. Vá lá, vá.
Corro ao teclado, as palavras correm. As ideias pululam. As patas entram pela garganta, escoram suas cavernas. Com mil dedos, sigo e jorro. Se as araras abrigam o filhote com sua desproteção animal, por que o cinismo fica me dizendo que estou morto? Como os ratos vivem carcomendo os lóbulos, trato de ir teclando. Sem biscoito? Gelado ou requentado, posso jantar a sobra da janta de ontem. E as flores de plástico? Enveredadas no verde, enervadas no vermelho. Contudo?
Todavia, apago o texto. Tá de brincadeira?
Já a rataria, essa está por aí. Como pode isso?
E vêm e vão. Ninguém dá conta disso?
Nem mesmo eu.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 12 de novembro de 2019.

Nenhum comentário:

Postar um comentário