domingo, 10 de novembro de 2019

Amor de valsa


Amor de valsa

A rua tem calçada dos dois lados, mas o sol tem feito mais sombra em só um deles. Aliás, não é de hoje que nossas ruas andam cheias de buracos negros. E como tem cometas desorbitados no lusco-fusco das peregrinações, movidos pelas pernas curtas que, de pés juntos, juram se livrar dos eclipses tão logo a cabeça ajude com o andor.
Mas os personagens prediletos, eleitos por mim pela incapacidade de compreensão do humano “apoquentar-se”, vão respondendo como podem aos atropelamentos do mundo. Uns não conseguem escapar, pegos por caminhões de mudança que vivem a se replicar. Como os cães, temendo a gravidade da realidade paralela, roço as elipses de carrinhos de bebê, bicicletas, skates, patins e patinetes.
Tal repulsa a translações não faz cócegas no caos do mundo, mas me põe borocoxô. Aos livros, então. Abro o volume que trouxe para o calçadão. Como o selecionei? No escuro de pegar o que minha mão topasse primeiro, sem saber de capa, autor e assunto.
Leio que ler é traduzir. Leio ainda que leitura é experiência própria de quem lê. Penso, tenho feito inédita a tradução do mundo? Reflito, estarei julgando com justiça o texto que produzo ao escrevê-lo passo a passo? Conjecturo, posso o inconforme ao espelhar-me?
Eis o oceano.
Vou lá pôr os pés na água; entro até os joelhos; e quando subo as espumas da maré pelo peito, recuo. O pânico sopra sua disritmia? O afobamento que me afoga no raso contamina na minha boca a língua que é de mais ninguém. Ô egoísta inesgotável.
Com sua marulhada diuturna, o mar não dá trégua. Contudo, com evidente empenho, a preguiça vai enchendo a praia. Ranheta, o tédio irremediável de quem pouco se apraz com aquilo tudo, toma de mim a minha paciência. Irrequieto, vou-me embora pro apê.
Vejo o isopor dos bons-bocados, e faço votos que haja proventos aproveitáveis. Ouço na esteira toda uma tarde única, e quero crer no sol como contraditório às previsões de chuva. E toco em mim o suor das minhas esperanças descalças, que não me alegra a cantiga triste dessa ronda.
Nem na cama nem no sofá. Talvez o café? Quem sabe a TV? Por certo, a navegação? Ô bagaça que não passa. Farol do medo que tira a luz. Ampulheta que não mede tempo perdido. Areia, areia, areia. No ventre do lento, tudo é areia. E essa lágrima que amargo no seco da face? E esse drama que não brota à flor da página? O mesmo que o mesmo, ô mesmice.
Será marasmo abraçar por dentro a calmaria?
O cochilo me cochicha um sonho real. Sim, tem esse pai com suas duas meninas que, bailando na Bahia, afinam as minhas retinas para um amor raramente à venda nas feiras. Miro-me nesse maestro que acena pra renda dos afetos.
Assim, refeito, acordo ao despertar pras aporias do mundo, mundo este que não para de me desafiar. Imperfeito, canto e danço à beira do poço? Pelo que me provoca, é nisso que me fio: pra cada sábado, um domingo.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de novembro de 2019.

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