Amor de valsa
A rua tem calçada dos dois
lados, mas o sol tem feito mais sombra em só um deles. Aliás, não é de hoje que
nossas ruas andam cheias de buracos negros. E como tem cometas desorbitados no
lusco-fusco das peregrinações, movidos pelas pernas curtas que, de pés juntos, juram
se livrar dos eclipses tão logo a cabeça ajude com o andor.
Mas os personagens prediletos,
eleitos por mim pela incapacidade de compreensão do humano “apoquentar-se”, vão
respondendo como podem aos atropelamentos do mundo. Uns não conseguem escapar,
pegos por caminhões de mudança que vivem a se replicar. Como os cães, temendo a
gravidade da realidade paralela, roço as elipses de carrinhos de bebê, bicicletas,
skates, patins e patinetes.
Tal repulsa a translações
não faz cócegas no caos do mundo, mas me põe borocoxô. Aos livros, então. Abro
o volume que trouxe para o calçadão. Como o selecionei? No escuro de pegar o
que minha mão topasse primeiro, sem saber de capa, autor e assunto.
Leio que ler é traduzir.
Leio ainda que leitura é experiência própria de quem lê. Penso, tenho feito inédita
a tradução do mundo? Reflito, estarei julgando com justiça o texto que produzo
ao escrevê-lo passo a passo? Conjecturo, posso o inconforme ao espelhar-me?
Eis o oceano.
Vou lá pôr os pés na
água; entro até os joelhos; e quando subo as espumas da maré pelo peito, recuo.
O pânico sopra sua disritmia? O afobamento que me afoga no raso contamina na
minha boca a língua que é de mais ninguém. Ô egoísta inesgotável.
Com sua marulhada
diuturna, o mar não dá trégua. Contudo, com evidente empenho, a preguiça vai
enchendo a praia. Ranheta, o tédio irremediável de quem pouco se apraz com
aquilo tudo, toma de mim a minha paciência. Irrequieto, vou-me embora pro apê.
Vejo o isopor dos
bons-bocados, e faço votos que haja proventos aproveitáveis. Ouço na esteira toda
uma tarde única, e quero crer no sol como contraditório às previsões de chuva. E
toco em mim o suor das minhas esperanças descalças, que não me alegra a cantiga
triste dessa ronda.
Nem na cama nem no sofá.
Talvez o café? Quem sabe a TV? Por certo, a navegação? Ô bagaça que não passa.
Farol do medo que tira a luz. Ampulheta que não mede tempo perdido. Areia, areia,
areia. No ventre do lento, tudo é areia. E essa lágrima que amargo no seco da
face? E esse drama que não brota à flor da página? O mesmo que o mesmo, ô
mesmice.
Será marasmo abraçar por
dentro a calmaria?
O cochilo me cochicha um
sonho real. Sim, tem esse pai com suas duas meninas que, bailando na Bahia, afinam
as minhas retinas para um amor raramente à venda nas feiras. Miro-me nesse
maestro que acena pra renda dos afetos.
Assim, refeito, acordo ao
despertar pras aporias do mundo, mundo este que não para de me desafiar.
Imperfeito, canto e danço à beira do poço? Pelo que me provoca, é nisso que me
fio: pra cada sábado, um domingo.
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 10 de novembro de
2019.
Será marasmo abraçar por dentro a calmaria?
ResponderExcluirEu acho que é bom!💙