A mão do artista
Entregue às moscas por uns
bons minutos, pela queda da energia elétrica, fiquei catando ciscos de ideias.
Pensando a vida, a morte, e no almoço a que ia já se destinando a manhã.
Não me preocupo quando
me ocupo comigo mesmo. Todavia, os negócios do mundo têm as suas artes.
Para alívio de quem lê,
cortando as asas dalguma mosca azul, às vezes um assunto toma a iniciativa de
entrar voando pela janela.
E um bicho entrou, passou
por sobre mim e pousou na estante.
Na maior calma, larguei
do celular, levantei-me do sofá, fui pegar a escada na cozinha e voltei. Demonstrando
a serenidade de um quase sábio, bem capaz de falar com passarinho.
Nada de nada.
O bichinho voou pela
sala, piando, até pousar à saída pra sacada.
Mantive o foco. Mantive-me
fleumático.
Calcei uma sacolinha de
supermercado na destra dos afazeres, e me aproximei. Ainda sorrindo, ainda devagar,
ainda inutilmente. Uma vez que a fingida duma figa não me deixou pegá-la,
insistindo em dar com o bico no vidro da porta. Mas a derrotei.
Soltei-a, revestido
daquela satisfação de devolvê-la à liberdade, de deixá-la voar por aí atrás de
comida, de poder ouvi-la cantar com sua beleza natural. Que maravilha
ecologicamente correta, a minha.
Problema resolvido? Fui
cuidar da vida.
Varri o chão do quarto;
recolhi a roupa do varal. Vai daí, quando ia pro banheiro, escutei o piadinho
outra vez.
De longe, vi o chão
emporcalhado e uma almofada também.
Procurei-o. Voltou ao
lugar onde estivera. Encolhido, ofegante. Os olhinhos, em mim, nada me diziam.
Não o deixaria ficar, pois não iria criar passarinho, menos ainda em uma
gaiola.
Novamente...
Dessa vez, contudo, vi
que havia outros passarinhos esperando o meu visitante. E deu-se uma briga
aérea, de bicadas e rasantes junto aos edifícios da vizinhança.
Fiquei estupefato com a
violência. Por isso, não saí do lugar.
E eram três, quatro,
cinco contra um. Cinco, sim. Pois do ninho do joão-de-barro veio dona pássara
juntar-se aos agressores do coitado que buscara refúgio no meu apartamento.
Estou inventando.
Só sei que era
joão-de-barro porque vi a casinha típica no topo do poste, porém precisei de umas
fotos que confirmassem. Agora, quem era fêmea e quem era macho, nem faço conta
de saber.
O resultado da refrega?
Furtiva, passa ao fundo a
ave que vai ao ninho do joão-de-barro.
Fazer perguntas é da
minha natureza; respondê-las, nem sempre.
O joão-de-barro não vê
que tem ovo a mais? E vai chocá-lo? Vai dar de comer a filhote que nem é da fornada?
Que o alvoroço acossa,
não duvido. Ações há, entretanto, que dão sabor à vida: nem longas, por
maçantes; nem breves, por aprazíveis; pelo bem que causam, boas.
Não descia o leite da
caixinha? Do feijão com arroz, lambo o prato.
E o danadinho vir cravar
suas garras n’ A mão do artista,
sobre o qual li umas linhas do Harold Bloom anteontem...
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de novembro de
2019.
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