quinta-feira, 7 de novembro de 2019

A mão do artista


A mão do artista

Entregue às moscas por uns bons minutos, pela queda da energia elétrica, fiquei catando ciscos de ideias. Pensando a vida, a morte, e no almoço a que ia já se destinando a manhã.
Não me preocupo quando me ocupo comigo mesmo. Todavia, os negócios do mundo têm as suas artes.
Para alívio de quem lê, cortando as asas dalguma mosca azul, às vezes um assunto toma a iniciativa de entrar voando pela janela.
E um bicho entrou, passou por sobre mim e pousou na estante.
Na maior calma, larguei do celular, levantei-me do sofá, fui pegar a escada na cozinha e voltei. Demonstrando a serenidade de um quase sábio, bem capaz de falar com passarinho.
Nada de nada.
O bichinho voou pela sala, piando, até pousar à saída pra sacada.
Mantive o foco. Mantive-me fleumático.
Calcei uma sacolinha de supermercado na destra dos afazeres, e me aproximei. Ainda sorrindo, ainda devagar, ainda inutilmente. Uma vez que a fingida duma figa não me deixou pegá-la, insistindo em dar com o bico no vidro da porta. Mas a derrotei.
Soltei-a, revestido daquela satisfação de devolvê-la à liberdade, de deixá-la voar por aí atrás de comida, de poder ouvi-la cantar com sua beleza natural. Que maravilha ecologicamente correta, a minha.
Problema resolvido? Fui cuidar da vida.
Varri o chão do quarto; recolhi a roupa do varal. Vai daí, quando ia pro banheiro, escutei o piadinho outra vez.
De longe, vi o chão emporcalhado e uma almofada também.
Procurei-o. Voltou ao lugar onde estivera. Encolhido, ofegante. Os olhinhos, em mim, nada me diziam. Não o deixaria ficar, pois não iria criar passarinho, menos ainda em uma gaiola.
Novamente...
Dessa vez, contudo, vi que havia outros passarinhos esperando o meu visitante. E deu-se uma briga aérea, de bicadas e rasantes junto aos edifícios da vizinhança.
Fiquei estupefato com a violência. Por isso, não saí do lugar.
E eram três, quatro, cinco contra um. Cinco, sim. Pois do ninho do joão-de-barro veio dona pássara juntar-se aos agressores do coitado que buscara refúgio no meu apartamento.
Estou inventando.
Só sei que era joão-de-barro porque vi a casinha típica no topo do poste, porém precisei de umas fotos que confirmassem. Agora, quem era fêmea e quem era macho, nem faço conta de saber.
O resultado da refrega?
Furtiva, passa ao fundo a ave que vai ao ninho do joão-de-barro.
Fazer perguntas é da minha natureza; respondê-las, nem sempre.
O joão-de-barro não vê que tem ovo a mais? E vai chocá-lo? Vai dar de comer a filhote que nem é da fornada?
Que o alvoroço acossa, não duvido. Ações há, entretanto, que dão sabor à vida: nem longas, por maçantes; nem breves, por aprazíveis; pelo bem que causam, boas.
Não descia o leite da caixinha? Do feijão com arroz, lambo o prato.
E o danadinho vir cravar suas garras n’ A mão do artista, sobre o qual li umas linhas do Harold Bloom anteontem...

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 07 de novembro de 2019.

Nenhum comentário:

Postar um comentário