Dando sopa
Não tinha pressa, e precisavam
testar minha disposição. A senha na mão pedia o micro-ondas do cartório cheio.
A barriga canta onze horas. Perdido no trem, faço boca de siri. O senhor ao
lado não tem de saber que acerto o humor pela fome. Além das orelhas, resta um
buraco donde a coruja bateu asas. E a minha segunda falha do dia? Passar esta
impressão de ter ouvidos.
― Cometi muitos erros na
vida, mas não peço perdão algum.
Porque é fácil julgar
terceiros, amarguei. Que ralem o coco.
― Ninguém me convence que
não tenho culpa de ter nascido.
O homem tinha que desembuchar
a média dormida azedando nas entranhas. Zombeteiro, o painel não grita o número
da sorte. E o bom homem destilava as gorduras saturadas, era sua a necessidade
de compartilhar o que lhe entupia alguma coronária.
― Não é questão de
orgulho nem é por vaidade que falo assim.
Entro a viajar pela
maionese e desando entre o quindim da vovó e a vizinha da polenta. A primeira;
a segunda; entre ambas, a falta que me faz o nada. Se posso pagar pelo carimbo,
então a demora? Alho com bugalho, ponho na conta o que emperra, a ladainha do
atraso.
― Como ter a cabeça no
lugar, se não deixam a pessoa em paz?
O livro da vida não
repete o número da página, e nenhum livro é igual a outro, porque cada pessoa é
única, o que nos torna comum a todas as demais. Mas será analfabeto o
funcionário?
Então, é isso. Permitir-se
repassar o lido, o visto e o escutado.
― Tenho pra mim que é
praga de gente faladeira.
Há quem o leia de trás
pra frente, partindo do fim pro começo. É melhor conhecer o fim pra saber se a
história é boa o bastante pra merecer a atenção devida? Nunca tentei, venho
sempre da infância. No que faço, entra uma pitada de pimenta. Se espio atrás da
cortina? A vizinhança segue na labuta de dispor de seus cães, que é preciso
regar as mudas. Será útil condenar o pacote pela última bolacha?
Raios de fila, parada
nesse 69.
O drama, ou a comédia? Só
depois de morto é que se tem a obra feita, fechada, acabada. Com capa, orelhas,
contracapa. Mas a vida não é obra pra edição única. Querem editar o material? Daí
alguém aponta a glória onde outros dão com a vergonha; há quem suprima uma
passagem ou outra, uma vez que a ninguém cabe saber do gato morto a pauladas;
há quem acrescente um detalhezinho bobo que a gente nem percebe a diferença, e
daí que a pessoa entrou na loja de brinquedos pra sair pela pastelaria?
A matriz de todos os
males produz apenas as boas intenções. E quando a perfeição apaga os defeitos,
melhor cuspir no prato.
Se não vejo, não existe.
Se não existe, invento. Digo que sinto que percebo o mundo. E vejo o que não vejo.
Até parece teatro. Diz Peter Brook, “sabendo o que estou olhando, eu posso
ver”.
Como borboleta, a vida
pousa no frágil, no efêmero, no aroma do sutil. E nem todo triste há de negar
que flor não voa.
― Senhor? Não será a sua
vez, senhor?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 27 de outubro de
2019.