Boi na linha
Assim que ouço a notícia
em primeira pessoa, por uma estudante do ensino médio, cujo relato centra-se no
roubo de seu telefone, que tem prestações de setenta e uns quebrados até meados
do segundo semestre de 2020, desligo o rádio.
Rabugento, sento-me à
mesa. Tenho este Orwell para terminar de ler, “é uma crueldade estúpida
confinar um homem ignorante o dia inteiro sem nada para fazer; é como prender
um cão num barril”, a leitura me embota os pensamentos. Haja indignação, mas as
paredes têm a solidez projetada.
Costumo jogar xadrez; e uma
vez que as suas peças ficam na tela do computador, não corro o risco de deixar
sobrando uma ou outra, o que volta e meia me acontece quando monto um
quebra-cabeça.
Não que isso me livre de
ter alguma coisa pelos cantos da casa. E agora, num bando enorme, as
formiguinhas velhas conhecidas estão indo pra trás do fogão. E o que será que tem
ali para as bichinhas estarem em polvorosa?
Como não como barata,
pode ser uma.
Entendo a cara feia, mas
ninguém precisa gostar de barata ou de grilo ou de sei lá que tipo de animal
com os quais os asiáticos põem gosto de abarrotar a barriguinha. Mesmo ricos em
nutrientes, fibras, vitaminas, sais minerais, todos indispensáveis ao organismo
humano, também vou ali chamar o hugo.
O indivíduo ficaria
morto atrás do fogão, caso minhas confidentes não provocassem esse alvoroço
todo. E se rapidinho dão um jeito nas sobras da mesa, tadinha da barata. E neste
caso, o citado indivíduo é uma barata, mesmo morta.
E a mim me apetece, de
vez em quando, polvilhar o que escrevo com o jargão da ciência, daí a presença
de indivíduo. Por favor, não encafife
com o meu vocabulário diferente, que o exotismo lexical tem fundamento.
Falando de escrita, já
que vivo escrevendo, procuro o manjar que resulte num quitute dos bons, de dar
água na boca, de fazer a gente comer com os olhos, pra lamber o dedo e virar a
página.
Assim, ponho a mão na
massa, digo, no texto, tentando bolar uma receita própria, a partir do que
outras pessoas já fizeram. Por conta e risco, trago pro escrito as falas de
gentes ricas e pobres, guerreiras e pacíficas, bebês e vovós, daqui e dali, mas
de tudo um pouco, que é pra não entornar o guisado.
Se me faz bem? Bem, bem
não sei se faz. Mas que bem é esse tão hipnótico? Perplexo, dou com uma boiada desembestada.
Estar bem. Passar bem. Ganhar bem. Vencer bem. Perder bem. Sair bem. Fazer bem.
Xi! Se bem, bem não está indo, melhor não me deixar ir. E tudo bem?
Apresentando dados de
2018 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, o jornal informa
que mais de 100 milhões de brasileiras e brasileiros vivem com R$ 413,00 por
mês. E vivem.
Disse Beethoven numa
carta de 1802, “o infeliz consola-se quando encontra uma desgraça igual à sua”.
Mesmo que as formigas
não me escutem:
― Não mato baratas nem
as como, ouviram bem?
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de outubro de
2019.
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