quinta-feira, 24 de outubro de 2019

Boi na linha


Boi na linha

Assim que ouço a notícia em primeira pessoa, por uma estudante do ensino médio, cujo relato centra-se no roubo de seu telefone, que tem prestações de setenta e uns quebrados até meados do segundo semestre de 2020, desligo o rádio.
Rabugento, sento-me à mesa. Tenho este Orwell para terminar de ler, “é uma crueldade estúpida confinar um homem ignorante o dia inteiro sem nada para fazer; é como prender um cão num barril”, a leitura me embota os pensamentos. Haja indignação, mas as paredes têm a solidez projetada.
Costumo jogar xadrez; e uma vez que as suas peças ficam na tela do computador, não corro o risco de deixar sobrando uma ou outra, o que volta e meia me acontece quando monto um quebra-cabeça.
Não que isso me livre de ter alguma coisa pelos cantos da casa. E agora, num bando enorme, as formiguinhas velhas conhecidas estão indo pra trás do fogão. E o que será que tem ali para as bichinhas estarem em polvorosa?
Como não como barata, pode ser uma.
Entendo a cara feia, mas ninguém precisa gostar de barata ou de grilo ou de sei lá que tipo de animal com os quais os asiáticos põem gosto de abarrotar a barriguinha. Mesmo ricos em nutrientes, fibras, vitaminas, sais minerais, todos indispensáveis ao organismo humano, também vou ali chamar o hugo.
O indivíduo ficaria morto atrás do fogão, caso minhas confidentes não provocassem esse alvoroço todo. E se rapidinho dão um jeito nas sobras da mesa, tadinha da barata. E neste caso, o citado indivíduo é uma barata, mesmo morta.
E a mim me apetece, de vez em quando, polvilhar o que escrevo com o jargão da ciência, daí a presença de indivíduo. Por favor, não encafife com o meu vocabulário diferente, que o exotismo lexical tem fundamento.
Falando de escrita, já que vivo escrevendo, procuro o manjar que resulte num quitute dos bons, de dar água na boca, de fazer a gente comer com os olhos, pra lamber o dedo e virar a página.
Assim, ponho a mão na massa, digo, no texto, tentando bolar uma receita própria, a partir do que outras pessoas já fizeram. Por conta e risco, trago pro escrito as falas de gentes ricas e pobres, guerreiras e pacíficas, bebês e vovós, daqui e dali, mas de tudo um pouco, que é pra não entornar o guisado.
Se me faz bem? Bem, bem não sei se faz. Mas que bem é esse tão hipnótico? Perplexo, dou com uma boiada desembestada. Estar bem. Passar bem. Ganhar bem. Vencer bem. Perder bem. Sair bem. Fazer bem. Xi! Se bem, bem não está indo, melhor não me deixar ir. E tudo bem?
Apresentando dados de 2018 da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, o jornal informa que mais de 100 milhões de brasileiras e brasileiros vivem com R$ 413,00 por mês. E vivem.
Disse Beethoven numa carta de 1802, “o infeliz consola-se quando encontra uma desgraça igual à sua”.
Mesmo que as formigas não me escutem:
― Não mato baratas nem as como, ouviram bem?

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 24 de outubro de 2019.

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