À doida
Nada como um mestre
depois do outro pra nos permitir ver que a vida é sonho. Sim, a maestria nos
acolhe na caverna que nem se via. Quando lá fora a chuva aperta ou o sol está
de lascar, é mão na roda. Façamos o fogo pra que, ao pé de tanto esplendor, até
os monstros queiram chegar, pra curtir a prosa mansa.
Mansos, mas de garras
afiadas na lida contra os muros por beijar com todas as cores, que beija-flores
têm bico doce. E a modéstia nos perdoe, movemos as estrelas com um beijo.
E ao nos afirmarmos com
um sim, escorre-nos a névoa pela face. Que é sim pra enfatizar que entendemos o
que, líquido e certo, este nosso sim quer dizer: amor.
Amor, de todas as letras
e todos os sons. Amor, que chamamos à roda, que a ciranda roda e gira.
E faz dia, a seu tempo,
porque as abelhas acordam os ursos pro mel, só não se abuse da doçura, que isso
põe mal a quem sem limite. E faz noite, a seu tempo, pra que se recolha as
juntas do varal, antes que o sereno force as costas e desabe tudo, feito areia.
Lá vem o vento soprar o
quanto pesa no coração a veia entupida, petrificada, carcomida por tanta
discórdia.
Jocasta, a aziaga.
Medeia, a desarvorada. Cordélia, a destronada. Será calão não calarmos? Édipo
custa a enxergar, falamos. Jasão de mãos abanando, falhamos. Lear tem braços, falhamos
melhor.
Daí os ares ventarem o
bastante pra gerar tempestades, que vêm com a feracidade de quem tem fome. A fome
da saciedade veraz do pão e da crônica alegria dos palhaços. É tal a fome que se
faz preciso empurrar com a barriga o encosto que não dá espaço, já passado da
hora, já passado o rio.
As águas não param.
E dedos róseos apontam no
peito, onde o aplauso vira vaia, a virar o que a gente bem quer que brote, no
momento em que se semeie, no chão em que se colha.
Se cheguei a tempo,
posso?
Como professor, falando
a distintos públicos, estive no palco do Auditório Roberto Marinho, na Praia
Grande. Do palco, a visão muda de figura. Com as luzes da ribalta iluminando o
proscênio, não se vê a plateia. O público está lá, dá pra ouvir o burburinho, comunicam-se
a audiência e o palco através da cortina inconsútil, delgada, delirante.
O riso e o pranto
tornam-se pontuais, o embargo da voz ecoa no suspenso da respiração, o
compromisso irrompe como resposta.
Já na sala de aula,
diante de alunas e alunos, lá estava disponível às interações de cada gesto. Feliz
da vida por aninhar um coração de mão dupla, atento ao pedestre, agreste,
rupestre em cada lição.
Agora, em qualquer
lugar, posso ver que a realidade é caverna a acolher, abrigar e envolver. Entre
a porta da rua e a porta de casa, a folha se abre aos dois mundos; e foi do
palco da SEDUC que passei a ver que o mundo é um só.
Com o fogo que nos aviva
a todas, todes e todos, sopro as brasas desta gratidão a quem escolhe por vida
a inteligência ousada de catar feijão como quem conhece o joio pelo trigo.
Doida... Meeerda!
Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 17 de outubro de
2019.
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