terça-feira, 8 de outubro de 2019

A culpa é do sistema


A culpa é do sistema

“O senhor por aqui!”
Nem bem entrava naquela fila serpentina, acabaram com a minha chegada anônima. Pra ficar esperando, prefiro ficar de orelha em pé, ouvindo a prosa das pessoas. Quando a demora é irritante, presto uma atenção danada nas funcionárias ─ pra saber por qual motivo os ponteiros comem com maior apetite o tanto de chão no qual me enterram pelos pés.
E eis que a estudante de faculdade, reconheci-a depois que se identificou como estudante de faculdade, pra chegar ao que a ela interessava, em momento de extrema precisão, foi direta. Daí a interpelação num instante. Sim, a necessidade faz a vez.
“Nem sei se o senhor vai poder me ajudar com o trabalho que tenho que fazer lá pra faculdade.”
Nem cheguei a cruzar os braços à altura do peito.
“É sobre a poesia de hoje. Se a poesia tem vez no mundo atual. Se a poesia fala sobre o que está acontecendo. Será que tem poeta falando o que tem acontecido?”
Nem com um pigarro tive como articular as ideias.
“Não precisa responder agora. O trabalho é pra semana que vem. Pode pensar com calma.”
Arrisquei outro pigarro.
“Nossa! Assim que o senhor apontou na porta, fiquei na torcida pra pegar a fila. Me perdoe se estiver incomodando, mas é que preciso de ajuda e sua ajuda vai ser muito, muito importante. Porque o senhor é amigo de todo mundo, né? E por conhecer muitos poetas e escritores, pensei, ele vai poder me ajudar.”
Sim...
“O senhor já foi alguma vez na faculdade dar palestra?”
É que...
“Bom, não importa. Se for mais fácil, pode enviar por mensagem. Dá tempo, viu? Vamos fazer o seguinte, digite o meu número. Ai! O senhor tem celular, né?”
Tirei o aparelho do bolso.
“Que alívio! O senhor não está na idade da pedra.”
Sem precisar de ajuda, salvei o nome e o número.
“Que fila que não anda! Vou embora. A gente se fala.”
E foi-se.
O problema não estava na estudante, euforia é contagiante. E fiquei ali, naquele perrengue. Pelo jeito, amarrei meu burro à sombra das estátuas em flor. Liguei o rádio mental, mas a música era uma que não queria lembrar. Fui desligado pela sinfonia de vozes que o Glenn Gould não desprezaria. Mas ali a indignação era em vários tons, mas numa única nota.
Adeus, paz.
Fiz cara de paisagem; virei olhar o mostruário de móveis; cruzei e descruzei os braços. Que não fosse comigo. Inventei de parodiar o Bezerra da Silva, “quero pensar, mas não quero pensar agora”. É claro que o semblante, de pateta, deixava transparecer o cara que sonha acordado.
Ah! Iria colaborar com a estudante da faculdade. Mostraria a ela que a palavra, como ferramenta, serve de veículo à ideia, mas a mensagem produz efeitos quando...
“Tá dormindo, mané?”
Quando me posicionei no guichê, a operadora informou que o sistema tinha caído. Sorri, tinha tirado a manhã só pra isso mesmo. Daí me veio o verso da poeta:
O processo se confunde qual barata tonta.

Rodrigues da Silveira
Praia Grande, dia 08 de outubro de 2019.

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